"Às vezes parecia que de tanto acreditar..."


Eu nem acreditei quando o moço atendeu o telefone. Em 1992 não havia celulares, o telefone da minha casa no interior do Paraíba era de disco. Cada tentativa de ligação significava girar os sete números na maior velocidade possível (não muito rápido, não tinha como) e torcer muito para não ouvir o famigerado sinal de ocupado do outro lado. Não havia botão de redial. Eu já havia tentado aquela ligação inúmeras vezes, sem muita fé, apenas por teimosia. Vai que o cara da rádio atende. Atendeu. Era minha grande chance. Bastava acertar a resposta e o ingresso seria meu. Eu não sabia a resposta, obviamente, mas resolvi arriscar. Liguei decidida a responder "Marcelo Bonfá", quem sabe teria sorte. Não havia internet, não tinha como "pesquisar no google". O ingresso para o show da Legião Urbana em João Pessoa seria meu se eu acertasse qual dos integrantes da banda era também desenhista. Nunca vou entender porque no último momento decidi mudar a resposta e falar "Renato Russo". A resposta certa era Bonfá. Sem dinheiro para comprar o ingresso, sem autonomia para ir sozinha a João Pessoa, fiquei na vontade. Perdi a única chance de ver de perto a banda favorita dos meus vinte anos.

Anos depois eu soube que no mesmo dia, em João Pessoa, Ulisses ganhou da irmã o ingresso. Nós ainda não nos conhecíamos. Do lado de fora do Espaço Cultural, lugar do show, ele se encontrou com os amigos, mas nenhum deles tinha ingresso. Ninguém tinha grana pra comprar e estavam ali passando vontade enquanto os milhares de sortudos entravam para ver Renato Russo e cia. Ulisses então decidiu vender o único ingresso do grupo e ficar com os amigos do lado de fora, ouvindo dali o que conseguissem. Converteram o valor da venda num garrafão de vinho para brindarem juntos a amizade, a falta de grana e a música que vinha de dentro do caldeirão do show. Um deles botou a garrafa no chão de mau jeito e quebrou a preciosa, o vinho se foi no concreto. Nem Legião, nem vinho, ficaram os amigos. 

Quatro anos depois, Ulisses e eu estávamos juntos, namorando há dois anos, quando Renato Russo morreu. Um amigo nos ligou e nos contou. Fim.

*** 

Então ontem foi incrível. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá estão em turnê para celebrar os trinta anos de criação da Legião. Na passagem por Florianópolis receberam no palco alguns convidados (a atração mais divulgada era a Paula Toller, mas não foi nem de longe a mais legal) e, com André Frateschi no vocal, deram ao público sortudo um presente tão valioso quanto foi ter nossa juventude embalada por aquelas canções. Ulisses e eu, juntos, vingamos o vinho derramado e a resposta errada na promoção da rádio. E berramos que o amor tem sempre a porta abeeeerta.

De cara já gostei: a faixa etária do público era a dos "órfãos" do Renato. As músicas que tocavam antes do show eram de bandas contemporâneas da Legião, dando o clima. Um casal de amigos, com suas histórias de discos preciosos e lembranças pontuadas pela trilha da banda, compartilhou conosco a emoção de ouvir a mesma guitarra, a mesma bateria, berrou junto em cada música. Aí André Frateschi soltou a voz em Será e a gente viu com alegria que a noite seria muito maior do que esperávamos. Frateschi é incrível no palco, tem uma voz maravilhosa e, principalmente, atitude. Nasceu pro palco e honrou a chance de cantar ao lado de Dado e Bonfá. Foi uma imensa e grata surpresa. 

A banda tocou todo o primeiro disco, de hinos como Ainda é Cedo, Teorema e Geração Coca-Cola, e enlouqueceu o público. Entre uma canção e outra, relembrávamos, como se nunca tivéssemos dito isso antes: "caramba, esse era o primeiro disco, eles eram pirralhos de 19, 20 anos!!" Então vieram os convidados, sempre no vocal. Um moça cujo nome não gravei cantou Dezesseis, do disco Tempestade, lançado quando Renato já estava doente. Em seguida, um ótimo cara do Ceará (preciso descobrir o nome dele) arrasou quarteirões cantando a maravilhosa e indefectível Duas Tribos. A voz da Paula Toller encheu o lugar perguntando Quem inventou o amoooorrr, me explica por favoooor!!. Além de Antes das Seis, cantou também a baladinha delicinha O Mundo Anda Tão Complicado. Quando ela saiu, não lamentei muito. O clima rock & roll voltava a mil com o André Frateschi. A partir daí, os três - André, Dado e Bonfá - se revezaram nos vocais. E foi Bonfá quem puxou Pais e Filhos pra gente se lembrar com mais força porque ama tanto o Renato. 

Um dos "problemas" do show era a sequência de hinos. Era tanta catarse que o entusiasmo foi minando minha garganta. Quando os acordes de Índios começaram, saquei o telefone para gravar pro Arthur, que costuma cantar "nos deram espelhos, e vimos o mundo doeeeeente" aos berros no chuveiro. Para mostrar que não tá de brincadeira, Frateschi conduziu Faroeste Caboclo com energia de vulcão, outro momento sensacional. Ainda houve Tempo Perdido, Por Enquanto (ah, que lindo!!), Quase Sem Querer, Há Tempos, Eu Sei. E outras e outras. Despediram-se ao som de Perfeição

Alguém no meio da galera erguia a capa do vinil do primeiro disco. No fundo do palco, um painel em preto e branco exibia imagens de jornais dos anos 80 e 90, além de letras das canções, talvez na caligrafia do Renato. Entre nós, continuamos lamentando sua morte prematura, mas comentamos que ele nem precisaria ter escrito mais nada. Suas canções ainda refletem nosso país (infelizmente, muitas vezes). Sua poesia nunca morreu e a banda que ele fundou foi para milhares de brasileiros uma das maiores alegrias de minha geração. 

Vinte e três anos depois do vinho derramado, Ulisses e eu finalmente entramos, ingressos na mão, e foi (quase) exatamente como a gente achou que teria sido em 1992. Inesquecível. Um dia quem sabe escrevo um conto em que acerto a resposta e os amigos dele conseguem ingressos. A gente entra no show de João Pessoa, Renato canta Se Fiquei Esperando Meu Amor Passaaaar...  quem sabe. Não que precise. É claro que a gente gostaria muito de ter tido essa chance de novo, mas não é esse um dos poderes da arte? A imortalidade? A gente pensou nele o tempo todo.

Obrigada, Renato. Valeu, meninos. 

5 comentários:

Mi disse...

Que lindo, Rita! Eu também não tive dinheiro para o ingresso do que seria o show da minha adolescência.

Marissa Rangel-Biddle disse...

Acho tão lindo esses esquemas em que você e seu marido olham para trás e veem onde vocês estavam tal ano, tal dia, fazendo o que...etc.

Anônimo disse...

Amei o texto, amo o Legião.

Felicia

Mi disse...

Rita, voltei pra dizer que eles vieram à Salvador! E eu fui - e ganhei os ingressos, o que foi melhor ainda, né? rsrsrs
Devo confessar que não achei a voz de André assim tão boa. Tá, tanta exigência provavelmente se deve ao meu apego à voz rouca e certeira de Renato. Mas foi lindo. Emocionante relembrar letras que eu já nem lembrava que sabia cantar. Já tem uns 15 dias, mas continuamos ouvindo no carro ou em casa as mesmas canções. Coisa linda de viver!

Quanto ao meu conterrâneo, se chama Jonnata Doll (Johnny Boy, como Dado o chamou), e é mesmo sensacional. Participação perfeita, ainda mais para quem, como eu, enlouquece com Duas Tribos.

Sim, me senti um pouco vingada da tristeza de não ter tido grana para "aquele show".

Rita disse...

Que coisa boa, Mi!! \o/

 
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