O Circo de Chaplin com música ao vivo - ou o mundo bom


O Museu de Imagem e Som de Florianópolis promoveu uma sessão de cinema mudo para comemorar os 120 anos do cinema. Vi a chamada no Face e convoquei a galera de casa. Os ingressos gratuitos seriam distribuídos uma hora antes da sessão agendada para as oito da noite. Por volta das 18h40, passamos pela frente do CIC, o centro de cultura onde fica a sala de cinema do evento, e vimos uma fila considerável no hall. Decidi ficar ali enquanto Ulisses buscava as crianças na escola; eu pegaria os ingressos, eles me encontrariam dali a alguns minutos.

Faltando cinco minutos para as 19h, chegou no meu ponto da fila a notícia de que os ingressos haviam se esgotado. Oh, dear. Logo veio uma das organizadoras do evento informando que poderíamos permanecer na área, pois estavam negociando com a banda a possibilidade de uma nova sessão. Que banda? Então, esse era o charme da coisa: seria uma sessão de cinema mudo com trilha sonora ao vivo. A Banda da Lapa, com uma história quase tão antiga quanto a do cinema, embalaria o público enquanto o Chaplin fugiria da polícia e viraria o astro do picadeiro em O Circo. Ou seja, o negócio parecia tão bom que encarei a fila, mesmo sem garantia de ingressos. Minutos depois, veio a confirmação de que haveria uma segunda sessão. Mas era preciso permanecer ali até que o público da primeira entrasse, os ingressos fossem recolhidos e redistribuídos para o paciente público da segunda sessão. Esperamos. O primeiro grupo entrou, recebemos nossos ingressos, fomos jantar e depois retornamos para o filme. Valeu cada minuto de espera.

Alguém que recebeu um dos últimos ingressos nos contou que muita gente, provavelmente em número suficiente para uma terceira sessão, ficou de mãos vazias. Mas a julgar pelo sucesso do negócio, outras sessões do tipo virão. 

Antes de as luzes se apagarem, o público agradeceu com entusiasmo a generosidade dos músicos por fazerem tudo de novo, certamente cansados depois da primeira sessão. Foi um momento bem comovente e de certo modo acolhedor, uma troca de afagos: o representante da banda agradecia o carinho de quem esperou, nós aplaudíamos a gentileza da sessão não programada. Quando o escurinho veio e a música encheu a sala, o mundo lá fora sumiu. Amanda ficou mais contida, absorvendo aquele tipo diferente de cinema. Pra quem nasceu na era das exibições em 3D, penso que a experiência talvez tenha ares de outro mundo. Ou talvez não, e as risadas vieram e o derretimento habitual também. Arthur sentia-se em casa, íntimo do chapéu e da bengala, rindo de se acabar, assim como Ulisses e eu.

Há muito tempo não gargalhávamos tanto. O som ao vivo foi algo absolutamente envolvente, um fonte a mais de prazer. A ingenuidade da trama, o mundo do olhar de Chaplin, o cinema da bondade e da graça, a fome do vagabundo que come o doce da criança e nos mata de rir - foi como se o Chaplin tivesse nos colocado no colo por pouco mais de uma hora, dizendo, "there, there, everything is gonna be fine". Aceitamos e saímos de lá renovando risadas, as crianças satisfeitíssimas; nós nos sentíamos gratos pela oportunidade que abraçamos. Fica fácil ver o porquê de Chaplin ter se tornado o gigante que se tornou. Se nós, moradores desta década, que já vimos tudo quanto é tipo de efeitos especiais em salas iMax, que já nos habituamos às maravilhas do cinema ultramodernérrimo, esquecemos da vida torcendo que o vagabundo conseguisse escapar da polícia, imaginem o deslumbramento reinante nas sessões de 1928... Ou, em outras palavras: a arte, essa velhinha tão porreta.

Vem, mundo, que hoje certamente estou mais leve. 



***

Essa semana completaram-se 15 anos da morte de meu pai. Não era amante do cinema, acho que não. Mas eu apostaria muito alto, se pudesse, que ele teria adorado cada minuto da sessão de ontem. Talvez, ranzinza como só ele, tivesse encontrado defeitos na execução da banda; ou reclamado do ar-condicionado; ou da cara daquele ator; ou de tudo isso e mais alguma coisa. Mas, no fundo, eu acho que ele teria gostado, ainda que não contasse isso pra ninguém, mergulhado naqueles silêncios de cinema mudo que ele tinha.

4 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Obrigada por você ser na minha vida. Muito. Tanto. Você nem suspeita.

Lud disse...

Oi, Rita! Será que você pode contar quais são os livros preferidos da Amanda? Queria comprar um livro para uma sobrinha de 8 anos e ambiciono um título bem legal, com uma protagonista feminina, mas sem princesas e fadinhas (a não ser que sejam princesas e fadinhas hardcore, rs).

Já fiz uma pesquisa básica na internet, claro, mas estou encontrando só personagens principais masculinos. Tem o "Estátua", do Steve Barlow, com a Persy, mas está esgotado pra tudo quanto é lado =(.

Beijos e muito obrigada!

Rita Paschoalin disse...

Oi, Lud!
Será que ainda dá tempo de te responder? Não sei se vc já comprou, mas lá vai. Amanda está mergulhada em Hogwarts, lendo os livros do Harry Potter. Bom, Potter tem Hermione, né, que é a personagem feminina bacanérrima da história. Não é a protagonista, mas é quase. Eu não me ligo muito em comprar livros com personagens femininas, exatamente. Amanda lê de tudo, com ou sem personagem feminina interessante. Os livros até são "do Arthur" ou "da Amanda", mas transitam muito entre os dois sem qualquer controle.

Acabei de perguntar pra ela que livros são os favoritos, ela respondeu, nessa ordem: Harry Potter, Clube da Tiara (uma coleção que você não vai querer de jeito nenhum, já que não quer princesas na parada) e o livro de piadas, hahaha. :-P

Ou seja, não te ajudei em nada e ainda demorei pra responder. Sorry. :-)
(O que ela curte meeeeesmo, também, é a bicharada: livro de, sobre e com bichos é com ela.)

Beijos!
Rita

Lud disse...

Ajudou, sim, Rita! É HP na cabeça! =D

 
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