Das gavetas e fora delas


Certa vez, quase em outra vida, guardei no fundo da gaveta uma camiseta vermelha e branca. Nunca usava, nunca mexia nela. Somente quando eu arrumava as roupas, tirava a camiseta de lá, limpava a gaveta, selecionava peças que não queria mais, devolvia as outras pro lugar, botava de novo a camiseta no fundo da gaveta. Quando me mudava de casa, o que aconteceu algumas vezes nesse período, botava a camiseta na mudança. Na nova casa, arrumava um cantinho pra ela no fundo do novo armário. É verdade que um dia eu doei a camiseta. Mas não foi culpa dela, nem minha. Ela não estava me incomodando, eu simplesmente achei que era hora. Eu estava enganada, claro. Porque, afinal, um dia a gente se reencontrou, e eu acho que teria sido bacana devolver a camiseta, guardada por tantos anos. Olha, foi quase. Mas eu já havia doado. 

O engraçado é que a camiseta não preenchia espaço nenhum, não substituía você, tadinha. Não era "para eu me lembrar de você", porque, né, hahaha, não precisava. Não era pra nada. Era, talvez, como uma foto. Ou, se eu fosse disso, um amuleto. Não sei exatamente o porquê de eu ter mantido aquela camiseta por tantos anos. Se eu soubesse compor, talvez tivesse feito uma canção; como não sei, guardei a camiseta. Como uma homenagem, se você quiser assim, aos dias em que eu via você, de longe, na faculdade, de vermelho e branco, e não conseguia não sorrir. Como me manter séria ou carrancuda, enquanto o coração dançava? Às vezes eram não mais do que quinze minutos, o intervalo entre aulas, o momento corrido antes que o ônibus da faculdade passasse. É que houve dias em que caminhar alguns metros com você em sua camiseta vermelha fazia parecer feriado.

A gente fala, né: esse vestido é a sua cara. Essa música é a sua cara. Esse restaurante é a sua cara. Na verdade, nada é. Mas a gente entende. Aquela camiseta, meu, era a sua cara. E talvez fosse tão legal porque você tem essa relação eterna com as roupas, essa coisa de usar até a roupa pedir pelamordedeus pra parar de ser usada, então aquela camiseta certamente sabia coisas. De você.

Deixa estar. Você também sabe das coisas. De mim. E, olha só, seu aniversário aí de novo, sua mão na minha, nossa rotina maluca, esses filhos crescendo diante de nosso espanto e entusiasmo. E esse mundo de amor que gaveta nenhuma comporta, ah, Ulisses, que coisa boa. Te amo, viu. E continuo adorando suas camisetas, o que é um sinal sensacional. Feliz aniversário, gatinho. 

  

1 comentários:

Anônimo disse...

Baita linda e original declaração de tudo de bom - parabéns, Ulisses, ela é dez mil!
Vera Queiroz

 
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