Para Jack


Quando Arthur fez nove anos ganhou do amigo um peixinho Betta de presente. Foi uma dupla alegria: pelo peixe, e por ter vindo de um amigo querido - um lembrete da amizade nadando na sala a qualquer hora do dia. Arthur chamou aquele lindo serzinho vermelhíssimo de Jack. Com o passar dos dias, todos nós o adotamos, o terceiro morador fixo não humano da casa, além dos cachorros Roque e Floquinho (há ainda os hóspedes de temporada, normalmente pássaros e corujas que alugam nossas árvores do jardim). 

As últimas semanas foram estranhas para Jack. Não comia há dias, estava trocando a coloração vermelha por algo pálido e desbotado, passando horas quietinho num cantinho do pensamento do aquário. Conversamos com o moço do petshop, tentamos um tratamento para eventuais fungos ou outras ziquiziras, mas no fundo sabíamos que Jack era um senhor de idade avançada. Hoje ele passou horas buscando um pouco de ar na superfície, nitidamente com muito esforço. Quando as crianças se aproximaram para mais uma tentativa de alimentá-lo, ele certamente percebeu que elas estavam ali e se entregou. Desceu ao fundo do aquário e dormiu para sempre.

Arthur ficou cabisbaixo, Amanda, inconsolável. Deixamos que ela ficasse ali perto do aquário pelo tempo que precisou para aceitar a ideia, depois colocamos nosso peixinho numa caixinha e enterramos no jardim, sob sementes de florzinhas cujo nome desconheço. Arthur escolheu flores brancas, Amanda preferiu as vermelhas como o Jack. Espero que cresçam, porque foi esse meu mote de consolo para eles. Jack alimentará as florzinhas.

Nem foi nosso primeiro Betta, mas foi certamente o primeiro com quem as crianças se envolveram de verdade. Blue, que ficou conosco apenas poucos meses, passou rápido por nossas vidas, não criou os mesmos laços que Jack, que sempre espiava nossas refeições ali da bancada ao lado da mesa com aquela cara de professor de história. Agora vai lá, seguir mais uma fase de sua jornada de pozinho de estrela.

*** 

E como a vida é engraçada demais, Amanda havia pedido de presente de dia da criança... um peixe. Queria um amigo para o Jack. Ontem comprei o amigo com seu próprio aquário. Hoje ela acordou ansiosa e logo descobriu a novidade. Chamou-o de Coral e colocou o aquário ao lado do de Jack. Horas depois Jack se despediu. Coral é bem menor que Jack, numa mistura de bege e laranja, lindinho. Como goza de boa saúde, nada o tempo todo, se aproxima de quem o chama, tal como Jack fazia. A gente não vai fugir dos riscos. A gente vai se apegar de novo. Porque sim.

Jack, obrigada. Um beijo, de todos nós. 

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