De médico e louco, todo mundo tem um pouco - Sacks tinha um tanto bom


A chuva começou por volta do meio-dia e se prolongou pela tarde de um sábado desenhado sob medida para minhas preguiças. Ela ainda está aqui molhando o domingo, me cercando com lembranças de uma menina que secretamente adorava a chuva. Não que eu precisasse esconder de quem quer que fosse meu carinho pelas tempestades, eu simplesmente não conseguia dizer o quanto gostava delas. Ainda sorrio por dentro cada vez que, andando pela casa em meio a quaisquer afazeres, ouço o gotejar nas telhas, vejo a água caindo em fios finos pela janela. Não fosse pelo cachorro apavorado com as trovoadas, minha madrugada ao som da chuva forte seria mesmo tão perfeita. 

A semana passada foi quebrada por viagens a serviço tanto minhas quanto do Ulisses, e portanto esse final de semana tem o gosto bom de todo mundo junto, valorizado pelas ausências forçadas nos últimos dias. E mesmo naqueles momentos em que não estamos fazendo algo juntos, saber o outro do lado, ao alcance da mão, basta para o aconchego em vários níveis. 

E assim, entre cafés, filmes com pipoca, videogames, violão e gibis, me joguei numa poltrona e, ouvindo a chuva, avancei na leitura do último livro de Oliver Sacks, sua biografia, Sempre em Movimento (Cia das Letras, trad. Denise Bottmann). 

Não li nenhum dos famosos relatos de casos médicos de Sacks, para mim ele foi sempre o cara da história de Tempo de Despertar - o filme, não o livro. Quando sua biografia foi anunciada, um grupo de amigos falou o quanto tinha gostado de alguns livros dele e acabei ficando curiosa. Procurando um presente para Ulisses, vi Sempre em Movimento. Enquanto ele lê outra coisa, furei a fila, claro.

Assim, fui apresentada ao escritor, ao médico e ao homem de uma só vez. E encontrei algo diferente de minha expectativa criada pela aura de Tempo de Despertar (não exatamente por lembranças do filme, que vi na época de seu lançamento, há muitos anos, mas por ecos em torno do nome de Sacks) - esperava um cientista catedrático, cercado de unanimidades. Encontrei um aventureiro cheio de arroubos e conflitos, um profissional itinerante e controverso, um pesquisador que insistia na importância de realmente enxergar seus pacientes, e um homem tímido de muitos medos e de algumas importantes coragens.

A biografia de Sacks foi publicada pouco antes de sua morte, no mês passado. Do alto de seus mais de oitenta anos, escreveu com o conforto de quem tem muito a dizer. Desde a infância na Inglaterra até se tornar o médico-escritor reconhecido em tantos países, a vida de Sacks, a julgar por seu relato, foi sempre marcada por altos e baixos realmente dignos de nota - para qualquer lado que se olhe. Sua vida pessoal foi moldada em parte pelas lembranças amargas do colégio interno para onde foi mandado durante a segunda guerra, acrescidas dos conflitos na adolescência (e na vida adulta) advindos de sua orientação sexual, e ainda pela condição de um de seus irmãos, vítima de esquizofrenia. Sua caminhada profissional testemunhou e se beneficiou de importantes avanços na neurociência e foi indubitavelmente marcada pelo sucesso de suas publicações com seus estudos de caso (notadamente Tempo de despertar e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu), sem falar em embates que lhe custaram empregos e posições acadêmicas ambicionadas por muitos.

Sempre em Movimento tem dois lotes de fotografias ilustrando os mundos do esportista, do cientista, do famoso escritor. Entre as personalidades fotografadas, o neurocientista Gerald Edelman - que Sacks considerava um gênio por sua proposta de "Darwinismo neural" - Robin Williams, de quem se aproximou na época das filmagens de Tempo de Despertar, amigos e colegas que o influenciaram de alguma maneira.

Sacks foi muitos. Motociclista apaixonado por velocidade, levantador de peso, amante da água (dizia-se mais feliz nela do que na terra e nadar era outra de suas paixões) e da música, fascinado por química e biologia. Sem a disciplina indispensável ao universo dos laboratórios, encontrou na clínica o seu lugar. Lendo sua história, parece-me que foram sua sensibilidade e capacidade de empatia que enriqueceram sua contribuição para a ciência e a medicina, pois permitiram trocas relevantes com grandes cientistas, alimentando a discussão com casos concretos e relatos pormenorizados - Sacks era um escritor incansável, anotava tudo e deixou milhares de registros, diários, notas, além de mais de dez livros publicados.

A impressão que tive ao longo de minha leitura foi de honestidade. Sacks era, acima de tudo, um aprendiz da condição humana, um investigador da mente que mantinha, acima de tudo, a sua própria mente aberta. A imagem que ficou foi a de um homem solitário, sempre com um caderno de notas na mão. E que quando erguia os olhos do papel, enxergava, de verdade, pessoas. Parece comum, mas não é. 


2 comentários:

Ana Paula disse...

Fiquei com vontade de ler.

Lud disse...

Puxa, também fiquei.

 
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