As biografias de Doris Lessing



Li os dois volumes da autobiografia da escritora Doris Lessing com o coração aberto. Por saber tão pouco de sua trajetória, tinha expectativas baixas e praticamente tudo em minha leitura foi aprendizado e descoberta. Com uma caminhada tão cheia de curvas como foi a dela, é bom que tenha registrado sua história de vida e nos dado a chance de conhecer um pouco dos filtros com os quais enxergou tanta estrada. Doris morreu em 2013, aos 94 anos de idade, deixando dezenas de livros publicados entre romances e volumes de contos, além de peças para o teatro e os dois volumes de sua biografia. Sua extensa obra passeia por universos vários e vai de textos com temática sócio-política aos mais intimistas e, especialmente em suas últimas publicações, ao campo da ficção científica. Seus prêmios foram muitos e incluíram o cobiçado Nobel de Literatura, em 2007. Do pouco que conheço de sua escrita, contos especificamente, me agradam as descrições ricas em detalhes que me arrastam para dentro das histórias. (Lendo Through the Tunnel, quase tive uma crise de claustrofobia; The Sun Between Their Feet é uma boa amostra de que qualquer tema em boas mãos pode virar uma pequena obra de arte.)

Para leitores familiarizados com os livros de Doris, sua autobiografia deve ser um deleite maior, sem dúvidas. Para mim, foi a apresentação da autora, praticamente. E devo ser sincera, não gostei de tudo que vi - e isso não é exatamente um problema, posto que pretendo ler seus livros, não dividir um apartamento com ela. 

O primeiro volume, Debaixo da Minha Pele, inicia-se com a mudança de sua família da Inglaterra para a Pérsia, atual Irã, logo após a Primeira Guerra Mundial. Lá ela nasceu e viveu até os seis anos de idade, quando então sua família novamente se mudou, desta vez para a antiga Rodésia do Sul, então colônia britânica (atual Zimbábue); o livro segue até 1949, ano em que a escritora se muda definitivamente para Londres, aos trinta anos.

O segundo volume, Andando na Sombra (li ambos em tradução de Beth Vieira, pela Cia das Letras), cobre pouco mais de uma década, de 1949 a 1962, em Londres, incluindo viagens internacionais da autora, relações pessoais e profissionais, sua carreira como escritora já conhecida e respeitada por muitos e, principalmente, suas impressões sobre a atmosfera social e política da Inglaterra numa década fatalmente moldada ainda na ressaca da Segunda Guerra. 

Ao longo dos dois volumes, sublinhando cada linha do texto, está o elemento mais forte em seu projeto autobiográfico: a revisão de suas visões e engajamento políticos, um olhar corajosamente crítico sobre o passado. Esse ingrediente que enriquece o projeto, no entanto, por vezes se perde em doses exageradas do que, por falta de termo melhor, vou chamar de "um certo rancor"; certo arrependimento que flerta repetidas vezes com reducionismos bem simplistas (e isso se aplica inclusive aos pontos nos quais concordo com a leitura que ela propõe, como quando se assombra com os horrores perpetrados por Stálin, por exemplo - durante anos Doris foi ativista comunista e, ao menos nos tempos em que produziu sua biografia, pareceu não se perdoar por isso). 

Doris usa o termo "pacote" para se referir ao que considerava um arcabouço uno e fechadinho nos posicionamentos revisitados em seu texto. Critica a forma como muitas pessoas "compravam" pacotes completos (comunismo, ateísmo e outros ismos, por exemplo), ao mesmo tempo em que ela mesma joga tudo fora, como se o fato de perceber que as pessoas compravam o pacote não tivesse sido suficiente para que ela enfim se dissociasse daquilo. Mas não, lá vai ela enterrando na mesma vala stalinismo e qualquer projeto que flerte  com a esquerda, por exemplo, como se todo mundo que abrisse a boca para criticar a postura imperialista do ocidente fosse fã de Stálin. (Lembro de ler em algum momento que ela reconhece que exagera em alguma simplificação, e parte para outra simplificação no parágrafo seguinte.)

Mas não quero caminhar pelo mesmo terreno. A biografia de Doris Lessing tem pontos que me agradaram muito, e não joguei o pacote fora. Avancei com vontade no primeiro volume, quando a sombra da Primeira Guerra se levanta a toda hora sobre sua vida, na figura do seu pai mutilado e doente, de sua mãe entristecida por outros amores perdidos. Li sem espanto, infelizmente, os relatos sobre o isolamento do povo negro da Rodésia do Sul, privados de tantas liberdades em sua própria terra sob o domínio britânico. E vi com uma alegria quietinha e familiar os pedacinhos de infância que ela quis mostrar e que sempre se revelam tão grandes em narrativas que se pretendam sinceras. Lutei contra todo impulso julgador e mantive meus indicadores abaixados diante da jovem Doris que deixou dois filhos para trás. Tentei enxergar por fora de meus próprios valores e, se não consegui, ao menos mantive mais perguntas abertas do que respostas ou carimbos prontos. Já é uma vitória. E quando ela partiu com o terceiro filho para Londres, peguei o segundo volume e mantive os olhos abertos.

Não acho que Doris tenha adotado postura semelhante, no entanto. Ela foi bem taxativa em seus julgamentos e recusas, e desconfio de quem tem tantas respostas. Vi rótulos demais, certezas demais. Para quem se propôs a criticar as certezas do passado, pareceu-me repetir a mesma postura em outro ponto do espectro. Seja como for, vi coragem, muita. Não é fácil encarar a si própria como ela o fez, não é. 

Quanto a mim, sigo tentando selecionar os biscoitos; e entre convicções rigorosas demais e um punhado bom de ótimos contos, fico com a segunda porção. 

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