Um menino de Floripa


Fiquei sabendo da autobiografia do Guga Kuerten por acaso. Tempos atrás, entrei num shopping center de Floripa para comprar pão no mercado e vi a fila gigantesca de leitores/fãs na porta da livraria, esperando o autógrafo na noite de lançamento. Durante anos torci muito por ele, adorei quanto tive a chance de vê-lo disputar uma Davis em Floripa, acho graça do jeitão de menino simpático, jogadão, cabeludo, tudo certo, mas dificilmente eu compraria sua biografia. A lista de pendências na minha cabeceira anda proibitiva e, por mais que eu goste de tênis (e gosto muito), um livro recheado com sets e torneios não me parecia muito atraente no momento. Mas o Arthur não tá nem aí pra minha pilha de livros ao lado da cama e me deu Guga, um Brasileiro (ed. Sextante) de presente há uns meses - comprou com a mesada dele, na feira de livros da escola. Como não ler? Essa semana decidi que iria de algo leve que me salvasse do banzo que me acometeu depois de ler É isto um homem?. Comecei achando que a parte mais legal do livro seria a dedicatória que o Arthur fez pra mim na primeira página. Ainda acho que essa é a parte mais fofa, mas tive lá meus bons momentos lendo sobre o Guga, sim.

Não sei como foi o processo de escrita do livro, se o próprio Guga relata suas façanhas e tropeços, ou se um ghost writer atuou ali. Sei que se a intenção era dar à voz narrativa um "jeitão Guga", o negócio funcionou perfeitamente. Ler o livro é como ouvir uma entrevista dele, ou imaginá-lo batendo papo na praia, contando casos.

No início pensei que fosse me entediar com as descrições ponto a ponto das partidas, porque é por aí que a narrativa começa - o duelo contra Kafelnikov pelas quartas de final do torneio de Roland Garros de 1997, o primeiro dos três que o consagrariam. Mas o livro equilibra bem os momentos-quadra com os relatos da caminhada que o levou a cada grande torneio. Lá pelas tantas, eu bem que tava curtindo os break points e tie breaks, a ponto de sofrer de novo com aquela histórica final de 2000 em Roland Garros contra Magnus Norman - onze match points!!! Lembro que quase desmaiei de tanto torcer na sala do apartamento onde morava. Pois agora, 15 anos depois, sabendo do resultado, sofri nervosa ao longo de cinco páginas, como se a história do jogo pudesse mudar. Não mudou, ele foi bi mesmo. Meu jeitinho.

Para além dos torneios, Guga fala de sua infância, da perda prematura do pai, seu incentivador desde o berço; do eterno treinador, Larri; da falta de estrutura para treinar nos anos 80 e 90, dos torneios que não jogava por falta de patrocínio, dos bens que a família vendeu para tentar garantir uma temporada no juvenil; dos primeiros torneios na Europa quando ia da estação de trem para o hotel a pé para não gastar com ônibus e sobrar para o biscoito; do bom tênis, do tênis ruim, dos treinos infinitos; do irmão que nasceu com paralisia cerebral e dividiu com ele a infância e as alegrias de chegar em casa com troféus brilhantes; da reviravolta que Roland Garros causou, das fortunas absurdas que circulam no meio; do nascimento do Instituto Guga Kuerten, ao qual se dedica atualmente; da subida ao topo, de ser o número 1 do mundo em Paris ao som de Alléz, Gugá; da descida; do quadril, das cirurgias, da prótese, da vida que segue. E agora, do torneio criar dois filhos:  "Comparada com o que vem pela frente, ganhar de Agassi, Sampras e Federer pode ter sido a parte mais fácil do caminho." 

Enfim, conversa pra uns cinco sets. Leve, como eu queria. 

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Quase chorei lendo o post, deu aquela travada na garganta e tudo. Gosto imensamente dele, do jeitão mesmo, dos jogos, das alegrias que me deu. E gosto imensamente de ler suas resenhas. Das alegrias que me dá.

Rita disse...

Algumas passagens são bem emocionantes, Lu. Cê ia chorar bem, desconfio. :-)

 
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