Na infância (dos contos) de Fante


   "Como minha irmã defenderá seu novo namorado! Seu rosto vai ficar rosado, seus braços se retesarão e seus dentes brancos morderão as palavras. (...) 
   Direi:
   - Por que não o traz aqui para conhecer seu pai e sua mãe? Talvez isso ajudasse.
   E ela vai olhar as quatro paredes vazias e o mobiliário rígido e as janelas sem cortinas, os pisos sem tapetes que ficaram cinzentos com o tempo e as frestas entre as tábuas forradas de cisco.
   Não direi nada. Ninguém vai falar, mas ao redor da mesa haverá quatro pessoas que sentem a grande dor da pobreza e meu pai, cujas esperanças são desesperos, se sentirá profundamente magoado." 

(Trecho de "Lar Doce Lar", 
talvez meu conto favorito em O Vinho da Juventude, 
de John Fante - Ed. José Olympio, tradução de Roberto Muggiati)

***

Não mais o escritor Bandini, perdido, hipócrita, adorável, gênio. O alter ego de Fante em Vinho da Juventude é o menino Jimmy Toscana. O mundo é o da infância do autor, a escola, os amigos, os irmãos, a mãe calada, o pai pedreiro casca grossa. O mundo do dinheiro contado, da presença sufocante da igreja plantando a cota diária de culpa, dos olhares terríveis das freiras quase não humanas (será?), dos arroubos fantásticos do fim da infância. 

Há algo nas narrativas construídas sobre pontos de vista da infância que mexe comigo para além do que consigo nominar. Talvez por isso, daquilo que li até agora, seja esse meu volume favorito de Fante. Ao estilo afiado que tanto me agradou em Pergunte ao Pó, acrescente-se o olhar ingênuo, ainda que repleto de intuições e sensibilidade, que por alguma lamentável razão costumamos deixar nos primeiros anos de nossas vidas. E por ter infância, Vinho da Juventude tem certezas inabaláveis, tem um senso de justiça dolorido diante do absurdo mundo dos adultos, ou simplesmente uma melancolia que nos cala - porque a gente acaba se lembrando, né? Em algum momento a gente se lembra. 

Fante, seu sapeca. 


2 comentários:

Marcia disse...

Esse trechinho aí de cima me apertou o coração. "(...) cujas esperanças eram desesperos". Como pode alguém escrever bem assim, tão profundamente dolorido e certeiro...? Fiquei com vontade de ler mais.

Tina Lopes disse...

Acho que já comentei lá no Facebook mas continuo aqui. Esse trecho é matador demais. Já quero esse livro, não li ainda. Fante tem exatamente o tipo de texto que eu amo, seco, simples, e ainda assim lindo. Faz parecer tão fácil.

 
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