Inferno



"Assim como a nossa fome não é apenas a sensação de quem deixou de almoçar, nossa maneira de termos frio mereceria uma denominação específica. Dizemos "fome", dizemos "cansaço", "medo" e "dor", dizemos "inverno", mas trata-se de outras coisas. Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres que viviam, entre alegrias e tristezas, em suas casas. Se os Campos de Extermínio tivessem durado mais tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem, e ela nos faz falta agora para explicar o que significa labutar o dia inteiro no vento, abaixo de zero, vestindo apenas camisa, cuecas, casaco e calças de brim e tendo dentro de si fraqueza, fome e a consciência da morte que chega."

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Não sei se recomendo a leitura de É Isto um Homem?, do italiano Primo Levi (Ed. Rocco, tradução de Luigi Del Re). Dizer "leia" é quase como dizer "fique triste". Como fazê-lo? Diferente de ler sobre batalhas de campo, operações de inteligência militar, acordos políticos ou mesmo o relato singular de Anne Frank, qualquer coisa sobre a Segunda Guerra, diferente de ler tudo isso, ler as memórias de guerra de um sobrevivente de Auschwitz é ver a guerra de seu pior ângulo. É desolador.

Normalmente aprecio meus momentos de leitura como ilhas de sossego, mas hoje apreciei a muvuca doméstica ao meu redor enquanto seguia pelos últimos capítulos, coração na mão. Não pedi licença ou me tranquei no escritório para mergulhar na leitura; pelo contrário, me sentei no topo da escada, perto da bagunça das crianças. Interrompi a leitura mil vezes e assim evitei o choro que já havia me visitado alguns capítulos antes. Queria chegar ao final, mas cada parágrafo dolorido foi mais bem digerido dessa maneira. Talvez em outro dia, outro momento, eu buscasse meter a cara no livro esquecida da minha vida, mas hoje não. Hoje acho que me escondi do livro.

E ainda assim. 

Levi foi preso pela Milícia fascista em dezembro de 1943, aos 24 anos de idade, quando se organizava para combater o regime de segregação contra os judeus. Mesmo integrando um grupo que ele descreveu como inexperiente, desorganizado, isolado, Levi foi preso, interrogado e enviado a um Campo de Concentração ainda na Itália. Em fevereiro de 1944, foi deportado e transferido para Auschwitz, o inferno. Do momento em que Levi entra no trem que o levaria ao campo de extermínio ao dia em que os russos chegaram a Auschwitz, um ano depois, cada pequena descrição da rotina dos detentos escravizados é um retrato de desumanização. Não tenho vontade de citar nenhum exemplo. É tudo dor, fome, abandono, morte, violência, desespero, saudade, tristeza, sede, frio, doença, humilhação, escárnio, sujeira. De forma absurda, cada um dos eventos que se sucedem até janeiro de 1945 consegue superar o anterior numa mórbida escala ascendente de horror. 

Para mim, as conexões com o Diário de Anne Frank, que li recentemente, foram inevitáveis. No final daquele livro, quando o diário é interrompido por causa da prisão da família Frank, há um relato sucinto do destino de cada um dos integrantes das duas famílias do esconderijo que ficaria famoso. Alguns deles foram mandados para Auschwitz depois de descobertos. Ler sobre a última execução na câmara de gás de Auschwitz do ponto de vista de quem presenciou a "seleção" dos condenados e saber que nela estava um dos integrantes da família que se abrigou com os Frank me trouxe à memória os planos que aquelas pessoas faziam antes de serem descobertas. Da mesma maneira, Primo Levi por pouco não se juntou aos milhares de presos exaustos e famintos que deixaram o campo sob temperaturas negativas na chamada Marcha da Morte. Levi não seguiu rumo à morte quase certa por fuzilamento ou exaustão nos deslocamentos do final da guerra, mas naquela Marcha estava Peter van Daan, o garoto que ocupou o coração de Anne Frank em seu esconderijo.

Levi sobreviveu (viveu até 1987) e seu relato é necessário e valioso, e para além da tristeza que ele nos causa talvez o mundo aprenda alguma coisa. E até acho que aprendemos. Aí penso na Síria, hoje. Ou no racismo que, no fim das contas, foi o combustível fundamental do que veio a se tornar aquela guerra. E penso que somos uma espécie estranha, fazendo do mundo esse lugar esquisito. 

1 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Esse livro é um daqueles que me fez quem sou. E que me habita em pequenos sobressaltos de dor quando eu quase esqueço.

 
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