A caixa de cartas


Mary Ann Shaffer terminou de escrever A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata aos 73 anos. Havia trabalhado como editora, bibliotecária e livreira, mas nunca havia publicado um livro pra chamar de seu. Quando o fez, caprichou. Infelizmente, porém, tão logo conseguiu vender os direitos de publicação descobriu que estava com câncer. Impossibilitada de fazer os ajustes pedidos pela editora, coube à sua sobrinha, Annie Barrows, escritora, lapidar a obra. Mary morreu pouco tempo depois, deixando uma história linda de presente para nós.

Eu não fazia ideia do que se tratava, além de que era um romance epistolar; segui às cegas dicas de amigos cujos pitacos costumam ser certeiros. Na minha lista de coisas valiosas da vida, ter amigos com bons pitacos literários tá ali no topo, portanto recomendo.

De cenário, Londres e a ilha britânica de Guernsey, no Canal da Mancha. O ano é 1946, quando a Segunda Guerra não tinha acabado de virar a esquina e sua presença ainda emoldurava a vida de muita gente. A história vai e vem em cartas, telegramas e bilhetes empurrados por baixo da porta, com muitas vozes - e eis aí uma das riquezas desse livrinho tão especial - um mosaico de dores e alegrias, despedidas e risadas, humor e compaixão.

Juliet Ashton é uma escritora londrina às voltas com turnês literárias e artigos para jornais. Quando recebe a carta de um certo Dawsey Adams, morador de Guernsey, surge uma nova amizade que influenciará não só seus projetos literários, mas também sua vida pessoal e a leitura que faz da guerra. Dawsey havia encontrado o endereço de Juliet anotado em um livro que pertencera a ela e a escreve na esperança de conseguir outros livros do mesmo autor. A correspondência se intensifica e, para além do interesse em comum pela literatura, as cartas começam a revelar para Juliet histórias da ocupação alemã em Guernsey e do impacto que teve na vida dos moradores da ilha. Logo, intermediada pela amizade com Dawsey, Juliet passa a se corresponder com outros moradores de Guernsey, as vozes do livro se multiplicam e a gente se vê lá, torcendo por aquela gente. 

Ao longo de todo o livro, certa dose de humor circunda os relatos mais tocantes, as lembranças mais doloridas dos tempos da ocupação. Num mesmo dia Juliet pode receber uma carta que nos ensina o destino das crianças da ilha durante a guerra e um bilhete atrapalhado de seu pretendente americano. Essa alternância no tom das cartas não se faz obstáculo à nossa empatia com aquelas dores. Pelo contrário, confere leveza e humanidade, nos permite experimentar o mesmo tipo de alento que aquelas pessoas procuravam diante de perdas tão absurdas. 

O livro avança carta após carta e descobrimos que, no meio das sombras da ocupação, havia um grupo inusitado de amigos que um dia fingiu se reunir para leituras e assim driblou o toque de recolher imposto pelos alemães (e repartiu a carne clandestina); para sustentar a mentira, nasceu a Sociedade Literária que ajudaria a manter a sanidade durante a guerra e transformaria a vida de Juliet depois dela. Juliet, Dawsey, a adorável Elizabeth e seu Christian, Isola, John Booker e todos os demais integrantes da Sociedade Literária e Torta de Casca de Batata nasceram da imaginação de Mary Ann Schaffer, mas suas trajetórias ecoam as trajetórias reais de muita gente durante a guerra. O pano de fundo histórico é real, está lá, no bairro bombardeado em Londres, no trabalho forçado na ilha, nos destinos dos que foram feitos prisioneiros, nas minas plantadas nas praias, nos rádios clandestinos, na comida escondida, nas redes secretas de solidariedade e compaixão.

Li devagarinho, virando as páginas com cuidado, como se fosse mesmo abrir a próxima carta ao invés de simplesmente virar uma página. Me apaixonei por vários personagens, ri das bobices de vez em quando, chorei, chorei. Eu não queria dizer isso, mas preciso ser honesta e confessar que o final me decepcionou um pouco - eu queria dizer que é um livro perfeito, ser parcial e não ver os defeitos, defender como os apaixonados. Espero que isso não desestimule ninguém a conhecer essa história, mas a verdade é que achei que o final destoou um pouco demais, carregou no humor, talvez. Mas perdoei, em nome dos momentos preciosos que tive nesses últimos dias. 

Às vezes a literatura nos engrandece com obras que praticamente nos desnudam e nos definem. Há obras que nos divertem, há as que nos ensinam e revelam tanto. E há os pequenos abraços, que podem vir em formato de um livrinho que mais parece uma caixinha de cartas velhas. Às vezes, é só deles que precisamos.

***

Li a tradução feita por Léa Viveiros de Castro e publicada pela Ed. Rocco. 
   


1 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Eu vi esse livro andando nas conversas de vocês, pra lá e pra cá, mas ainda não tinha tido vontade. Um livro que é um pequeno abraço: agora tive vontade. Muita.

 
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