San Andrés - uma semana num pedacinho do Caribe



Cerca de meio ano atrás, quando Ulisses se animou para comprar as passagens para a ilha colombiana de San Andrés, eu meio que dei de ombros e disse "beleza". Não é que eu não quisesse dar uma passeada por uma ilha no Caribe, é só que estávamos prestes a embarcar em outra viagem e minha cabeça estava mais para ornitorrincos do que para mares de sete cores. Então compramos as passagens e quase não pensei mais no assunto. Quando a data foi se aproximando, ao invés da ansiedade costumeira que antecede viagens de férias, me vi pensando mais na aterrissagem no pequeno aeroporto da ilha do que nos mergulhos em águas mornas - e vi que agora sou oficialmente uma pessoa que tem medo de voar, ou mais especificamente, medo de pousar em aeroportos pequenos. Obrigada, Congonhas, pela graça alcançada.

Botei o medo na mala e embarcamos rumo a Bogotá num voo de seis horas de duração. A conexão de noite inteira prometia ser cansativa, mas acabou sendo bem suave. O excelente serviço de um hotel próximo ao aeroporto, com traslado e café da manhã incluídos, foi um mimo no meio da viagem. Fizemos a reserva no balcão de informações do aeroporto, o traslado nos pegou cerca de dez minutos depois e logo estávamos de banhos tomados e confortavelmente instalados até o horário do voo para a ilha caribenha na manhã seguinte. Antes de seguirmos para o aeroporto, o hotel nos mostrou que, ei, estávamos na terra do bom café - o que foi um bônus, porque a gente nem tava se lembrando disso.

O voo de duas horas para San Andrés foi tranquilo com aterrissagem idem, ainda bem. Eu já podia curtir as férias e me concentrar no medo dos barcos, mas isso é outra coisa. Vumbora ver a ilha.

Escolhemos um hotel com cara de pousada, com os pés na areia. Foi muito bom ver que "nossa praia" era bem tranquila - o movimento ficava praticamente por conta dos hóspedes do hotel e dos clientes de um restaurante vizinho. Como os hóspedes estão quase sempre rodando pela ilha e o restaurante não fica cheio todos os dias, era comum a praia ficar praticamente deserta. Se você vai à praia procurando agito e muvuca, a "nossa" não era a melhor pedida. Para nós, que viajamos querendo paz e sossego, foi perfeito.

Os fundos do hotel, nosso quintal por uma semana.


No caminho para o hotel, vi que a ilha parecia maior do que eu a imaginara. Um taxista nos falou que cerca de 150 mil pessoas moram em San Andrés, mas a internet nos diz que os moradores são cerca de 80 mil. 80 ou 150, tive a impressão de lugar lotado, o que para mim valorizou ainda mais nosso cantinho. De cara, vimos que o trânsito é, digamos, uma alegria: salve-se quem puder, "contramão" é um conceito vago, o bom da vida é buzinar e capacetes para motoqueiros devem ser proibidos. Nada que a vista da janela do quarto  não apague de nossa memória rapidinho.

Sacada dos ventos uivantes.

Foram sete dias de ventos fortes. Os coqueiros se agitavam dia e noite e eu sempre tinha a impressão de que uma tempestade poderia se aproximar a qualquer momento. Durante toda a semana que passamos lá, nem por cinco minutos vi o céu completamente azul. Mesmo com o tempo "aberto", o horizonte era sempre coberto por uma densa nebulosidade, como dá pra ver nas fotos aí de cima. Ainda assim, a cor do mar não nos decepcionou. A combinação de verdes e azuis é mesmo linda e a fama é justa.



Os fortes ventos arrastavam nuvens pesadas rapidamente, e os dias eram sequências intercaladas de tempo aberto, tempo nublado, vai chover, opa, abriu, lá vem o sol, nublou de novo. O tempo inteiro, o mar sempre lindão. Ulisses não levou o kite dele, mas bem que sentiu vontade que eu sei.


Em meio à quietude de nossa praia, meu entusiasmo pelos passeios mais tumultuados era prejudicado - vejam que viajei com o intuito de morrer de preguiça. Mas já que estávamos ali, coisa e tal, tomei mais um suco de fresa e fomos ver qual era. Creio que fizemos os principais passeios que há para se fazer por lá: um mergulho com snorkel aqui, um passeio de barco ali, bate-perna pelo centro - San Andrés é zona franca e o comércio é bem agitado - ou um gole do famoso café, outro mergulho acolá. Eu gostei de todos os passeios que fiz, com exceção de um tour guiado por uma taxista que nos levou à pior atração turística de todos os tempos, uma exposição baseada na vida de um suposto pirata que teria circulado por aquelas bandas sei lá quando. Detestei tanto o troço que vou poupá-los dos detalhes, até porque fiz questão de esquecê-los. As crianças, pelo menos, se divertiram, mas nem isso me faz perdoar a taxista.

Bem próximo a San Andrés, há outras ilhotas. Uma delas, Rocky Cay, fica tão pertinho que seguimos para lá nadando ou caminhando pela maré baixinha. Adorei. Não há nada para se ver lá que já não se veja do lado de cá da caminhada, mas nadar naquela água de uma ilha a outra vale a brincadeira. Muitas de nossas fotos nessa viagem foram feitas com as câmeras à prova d'água das crianças, então não reparem na qualidade. As lentes estavam sempre engorduradas de protetor solar, um filtro não muito bom. :-)
  
Amanda e eu, Rocky Cay ao fundo.

Talvez a atração mais badalada em San Andrés seja o passeio combinado à ilha de Johnny Cay e ao aquário natural. A travessia até o aquário leva uns vinte minutos, quando tive a chance de sacar da mochila meu medo de barcos pequenos. À medida que o barco avançava rumo ao aquário, nosso deslumbre com as cores do mar ia aumentando e me ajudava a engolir o medo. A transparência da água é incrível.  Na minha modesta opinião, o aquário seria uma atração top de linha se os organizadores do lugar reduzissem um pouco o número de pessoas por dia. A ilhota onde os barcos atracam para que possamos mergulhar é minúscula e a mistura de turistas, barqueiros, guias, vendedores, mais turistas... quebra um pouco o encanto. Com metade da galera, teríamos curtido mais, certamente. Acho uma pena. Mas a gente se jogou na água mesmo assim.

Antes do mergulho, um rápido passeio num barco com fundo transparente deixava ver a animada população da área. 



Oi, qual é?

Olhe onde pisa.


Depois do aquário, a ilha de Johnny Cay, com suas praias lotadíssimas, me fez querer voltar pro hotel. Mas antes, iguanas.

Moradoras de Johnny Cay.

Em outro dia visitamos um ponto de San Andrés chamado West View, e lá, talvez pela profundidade bem maior que no Aquário, o festerê de peixes foi mais animado. Ulisses, que já mergulhou em Noronha, disse que you know nothing, Jon Snow, mas a gente adorou.







***

Nós gostamos bastante de nosso passeio por San Andrés, mas nem toda a beleza natural do lugar nos impediu de lamentar o que certamente poderia ser bem melhor. Há uma certa desorganização generalizada nos pontos turísticos mais celebrados que não chega a estragar os passeios, mas deixa a desejar, sim. O embarque para as ilhas vizinhas, as saídas dos barcos, as filas inexistentes onde a presença delas resolveria tanta coisa, a superlotação das ilhotas, isso nos fazia dar suspiros de vez em quando. Em um dos pontos de mergulho mais legais, o acesso é por uma escada de metal encravada nas rochas. Beleza, dá um friozinho na barriga na hora de descer que faz parte da aventura. A escada é estreita, se há alguém subindo, outro não pode descer. Mas a falta de educação de alguns turistas é impressionante; e como não há qualquer sistema para organizar a galera, haja paciência para conseguir acesso à escada. Uma segunda escada resolveria o problema, mas organização não parece ser o forte dos responsáveis pelo turismo em San Andrés. Uma pena. 

Todo turista paga uma taxa de acesso à ilha quando entra. Há voos diários vindos das principais cidades da Colômbia. É muita gente. Fica a impressão de que esse dinheiro podeira ser mais bem administrado, mas talvez haja outras prioridades. A ilha enfrenta problemas sérios de acesso à água potável, e li que a população local  acaba sofrendo mais com isso do que os turistas, já que a rede hoteleira parece ter preferência nos racionamentos. Ainda assim, a água que saía na torneira do nosso hotel era salobra, passamos uma semana salgados, hohoho. De um modo geral, achamos as ruas sujas e mal conservadas. Para todos os males, o mar era a cura.


No quesito comida, quem gosta de peixes e frutos do mar se esbalda. Nem sempre os pratos são maravilhosos, mas via de regra comemos bem. Nossas queixas têm mais a ver com o serviço de nosso hotel do que com as vezes em que comemos fora dele. Para quem não é fã de peixe, é fácil encontrar opções de massa e carnes, o que salvou a Amanda - ela gosta de nadar com os peixinhos, não de comê-los.

No quesito custo/benefício, achei a ilha cara. As diárias dos hotéis combinam com a água, são salgadinhas, e os serviços são bons, mas não excelentes. Eu estava no maior clima pousada pé na areia, mas mesmo assim preciso ser honesta e dizer que a porta da frente do quarto emperrava, a da sacada só trancava com reza forte, a janela nunca trancava. Não reclamo da potência da água em respeito aos moradores da ilha. O café da manhã era simplérrimo, o que absolutamente não me incomoda, desde que o custo seja justo. Talvez os preços se justifiquem pela dificuldade de levar os produtos até a ilha. Talvez. Os taxistas nativos, sempre a bordo de carros muito velhos, confirmavam nossa impressão de custo de vida alto e eles cobravam - sem taxímetro - de acordo com a lua. Daqui pra lá, tanto; se lá for um pouquinho mais pra lá, um pouco mais caro, ou não. Um outro taxista pode discordar e cobrar bem mais caro pelo mesmo trecho, e assim vai. Somente quando pegamos táxi em Bogotá, com taxímetro, pudemos ver quão caros são os de San Andrés.

Feitas as reclamações, digo que adoramos. Curtimos nossos dias de preguiça gloriosa esparramados na praia, tomando coco fresa ou um suquinho colorido, vendo a brincadeira das crianças (com outras crianças do hotel, inclusive, agora é um vai e vem de emails para a Colômbia, vão vendo) e babando com aquele mar lindão. Reforçamos, Ulisses e eu, nossos votos de batedores de perna con mucho gusto.

Para mim, uma frase dita pelo Arthur enquanto caminhava/nadava rumo a Rocky Cay definiu o espírito dessas férias: "nunca fui tão bem tratado, mãe; esse mar, que coisa boa"!



Gêiser maluquinho.





Ah, amigo, não bagunça meu castelo, né. 







Um cantinho do Caribe, check. E ainda teve um tiquinho de Bogotá, conto já. 



4 comentários:

Daniela disse...

Ai, que post mais gostoso!! Ser obrigada a tirar férias em janeiro me afasta dos destinos de praia (pq o calor do nordeste em janeiro, ou valha-me Deus, do Rio ou do RS não passa jamais pela minha cabeça), mas morro de vontade de conhecer o Caribe, México, Croácia, Grécia....

Tina disse...

Adorei o relato mas estou embasbacada com o tamanho da Amanda!

Luciana Nepomuceno disse...

Você estraga todos os lugares pra mim. Porque leio e penso: eita, que lugar sensacional, aí depois penso: que nada, sensacionais são eles, daí qualquer lugar, com eles, vai parecer bom...

Rita disse...

Dani, eu tenho visto relatos sobre a Croácia internet afora e, ai, que vontade!

Tina, num tá grandona?

Lu, e Lisboa?? Hein? O que dizer de Lisboa? Que quero tanto conhecer, mas né, vai ser com seus posts impressos, no bolso, na mão e na alma. <3

Bjs!!

 
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