A Cozinha das Escritoras


Tive mixed feelings em relação ao livro A Cozinha das Escritoras, da italiana Stefania Aphel Barzini (Ed. Benvirá, tradução de Rubia Sammarco). A ideia é tão irresistível - minibiografias focadas na relação que escritoras mantinham com suas cozinhas - que tendo a perdoar os pontos que me desagradaram. 

Livro com listas é o diabo. A gente acaba a leitura e aquela outra lista, a dos livros que gostaríamos de ler, só aumenta. Ou, no caso, a lista das autoras. Das dez autoras e respectivas cozinhas selecionadas por Barzini, cinco me eram desconhecidas - ainda que eu tenha visto A Festa de Babete, nunca li o livro que inspirou o filme nem qualquer outra obra de sua autora, Karen Blixen. E saber quem é Mary Poppins não faz de mim leitora de Pamela Travers. Por essas e outras vontades que Cozinha plantou em mim, mas não só por isso, sou grata pelo livro. Mesmo assim, por mais que eu goste do combo literatura/cozinha e aplauda edições que celebram mulheres, não brindo à visão que a autora parece ter acerca de um certo "mundo feminino" que não sei bem onde fica. A cozinha seria o reino "delas" e só delas. Somente as mulheres conseguiriam captar e dominar seus segredos etc e tal. Ou seja. Precisamos avisar aos muitos homens que arrebentam nas cozinhas por aí - ou cutucar a Barzini: "escuta, cê tem certeza?". Então essa é basicamente a base de meus incômodos - todos os outros derivam dessa ideia meio engessada de uma tal "alma feminina", prato cheio para contradições e equívocos. Numa página, a cozinha como universo "essencialmente feminino", na seguinte a celebração do talento do cozinheiro que trabalhou para Karin Blixen durante o período em que ela morou no Quênia; ou de um outro, indochinês, que fazia "pratos maravilhosos" para Gertrude Stein. Ou ainda: o desejo de Blixen de ter uma vida rica em aventuras como seu pai seria um desejo de "também ser homem". *suspiros*

Os estereótipos de gênero e comportamento naturalmente pulam das páginas no capítulo dedicado a Simone de Beauvoir. Barzini inicia admitindo que não gosta da mulher Simone, que a separa da escritora que "sondou a alma feminina" (encontre o erro). Parece evidente, contudo, que a autora não gostava nada de nada em nada que Simone tenha dito ou escrito - nenhuma surpresa, a essas alturas. E segue o capítulo evidenciando a relação de Simone com a bebida, sua pouca intimidade com as panelas, seu apetite voraz, sua "arrogância intelectual".

Peneirando certa visão engessada, restam várias pequenas delícias. Das maçãs da angustiada Virginia Woolf aos banquetes de Gertrude Stein e seus ilustes convidados do mundo das artes, passando por chás londrinos e pela fome durante a Segunda Guerra, o livro faz um passeio curioso pelos mundos das escritoras. Em alguns capítulos, descreve em detalhes alguns dos ambientes onde de fato as autoras viveram e, bem ou mal, cozinharam. Também fala de suas manias gastronômicas e ressalta a presença do assunto nas respectivas obras - Agatha Christie bem que gostava de matar pela comida (um veneninho aqui e ali); A Cabana de Pai Tomás, da americana Harriet Stowe, é um livro cheio de sabores e aromas do sul dos Estados Unidos: o bacon e as pound cakes, os empadões e as avelãs; e, claro, os poderes sedutores (e revolucionários) d' A Festa de Babete são celebrados, segundo Barzini, por uma autora anoréxica.

Para calar minhas reclamações, o livro traz receitinhas. \o/ Se não conseguimos escrever algo como Mrs. Dalloway ou se, damn it, por mais que tentemos, não criamos um personagem como Poirot, ao menos podemos sujar nossas panelas tentando copiar a geleia de maçã e limão da Woolf ou a omelete da Agatha. Em dias de maior inspiração, podemos tentar a sopa de camarções da Stein - não vai dar pra convidar o Picasso pro jantar, mas a gente chama aquele amigo que gosta de desenhar, dá na mesma. 

No frigir dos ovos (sorry) resta aquele consolo mesquinho em saber que Agatha Christie também deixava queimar  o peixe e que Simone não precisou cozinhar um ovo para balançar Paris e o "mundo feminino". Nota mental para aqueles dias em que o arroz fica grudado ou o bolo desanda - seja você homem ou mulher. 


4 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Melhores resenhas. Que privilégio ler você.

Daniela disse...

Oi Rita,

Eu gostei muito de A Fazenda Africana, da Karen Blixen (ou Isak Dinesen), não lembro sob qual nome que o livro saiu aqui. Se você ainda está na onda de ler biografias, é bem legal. Não é bem uma biografia, mas ela conta sobre a época que viveu na Africa.

Daniela

Lud disse...

Rita,
também me aflijo quando me deparo com esses estereótipos. Às vezes eu estava até gostando do livro, e aí... Vontade é jogar na parede (mas nem posso mais, leitor digital tem esse defeito).

Tina Lopes disse...

meu deus meu deus meu deus mal me contive quando li que você não leu nada da Karen Blixen! corre menina, leia logo A Fazenda Africana ou mesmo o A Festa de Babette, que é de contos. depois me conta.
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. odiei esse livro aí de cozinha.

 
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