Maior


Ontem numa mesa de amigas surgiu um papo sobre um aplicativo que calcula que idade aparentamos ter. Entre pizzas e risadas, resolvi ver o que o tal tinha a dizer sobre mim. Com informações colhidas no meu perfil do Facebook, a sentença foi maluca: 23 anos. Vibrei como se isso fosse uma vitória, mas logo avisei que, pera lá, vai que é a idade mental? Seria um consolo para as amigas que tiveram a idade lançada muitos anos à frente no calendário, mas a verdade é que tudo não passava de papo furado, ninguém deu muita bola pro negócio. Hoje, quando me lembrei do tal número 23, pensei: no way, não há o que se comemorar. De qualquer ângulo que se olhe, eu não iria querer voltar. 

Aos 23 anos eu já havia conhecido Ulisses e, com ele, esses pulos no peito com os quais convivo há mais de vinte. No entanto, ainda não havia criado minhas asinhas pequeninas e com elas conhecido lugares e palavras que ampliaram minha visão de mundo para além da minha calçada de maneira tão enriquecedora. Não tinha lido, visto, dançado, traduzido, escrito, vislumbrado tanta coisa. Aos 23 eu certamente era feliz (ou vamos dizer: animada, que definir "ser feliz" costuma dar trabalho), mas se soubesse da missa do futuro um terço, seria mais ansiosa que sorridente - tanta coisa para além do horizonte que eu enxergava dali. Arthur. Amanda. Aos 23 eu não sabia que Chopin tinha tanto poder, nem tinha chorado diante de um Monet. 

Ainda assim, sejamos justos com os 23, eles tinham lá seu charme vindo exatamente do não saber. Das possibilidades aparentemente infinitas, daquela satisfação besta que a juventude às vezes carrega no bolso da calça jeans. É bom que não haja um pódio, então posso olhar para os 23 e acenar daqui, vinte anos depois, e dizer "hey, beleza? já caiu na real?", sem rancores. Agora, se fosse uma competição (e já que o Ulisses veio junto de lá pra cá), eu ergueria no centro do ringue o braço suado e vitorioso desses 43. Eles chegam com mais rugas, tinta no cabelo e mais calos na alma, mas com asas maiores, nem que seja no coração. Que a vida é tão maior que os números que insistimos em dar pra ela.

***

A saudade sorri do canto da sala e diz: ah, Rita, você voltaria, sim. Nem que fosse por um breve momento, para receber o abraço dela. A saudade sabe das coisas. Ao menos brinquemos: faz de conta, mãe, que a gente se fala amanhã.   


3 comentários:

Juliana disse...

Que lindeza de post!

Feliz aniversário, querida!

Anônimo disse...

Sem palavras pra definir tanta beleza, Rita!

Feliz aniversário... que a vida continue a surpreendê-la com coisas maravilhosas! Grande beijo! Hilda

Luciana Nepomuceno disse...

Por um momento eu quase simpatizei com esse aplicativo, só por causa do seu post.

 
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