Letrinhas e plaquinhas


Uma amiga querida me deu um livro e emprestou outro. O emprestado ficou meses na minha cabeceira, esperando pacientemente na fila. O presenteado foi direto pra estante porque julguei que só iria lê-lo daqui a muito tempo. Daí não achei o que queria na livraria e enquanto esperava o carteiro catei o dito cujo na estante - julgar errado, trabalhamos. Era Memórias de Adriano, da Marguerite Yourcenar, autora que eu nunca tinha lido, livro que eu dificilmente compraria. O que posso dizer é: que bom que a livraria não tinha os outros, que bom que ganhei de presente, que bom que decidi experimentar. O desconforto inicial de ler um livro de "memórias" escrito muitos séculos depois do biografado ter passado por esse mundo logo deu lugar ao conforto de uma história bem contada (li em português, tradução de Martha Caldenaro, Ed. Saraiva de Bolso). Lá pelas tantas me desarmei e não era mais a Marguerite, mas o Adriano do Século II, o humanista que descreve seus negócios de imperador romano, reflete sobre o legado que deixaria para o mundo conhecido da época; o pacifista que freou a expansão do império, o homem triste que fala de seu envolvimento com o jovem Antínoo. História, amores, batalhas, a fé no homem. Ao final do livro, a cereja do bolo: as notas da autora sobre sua pesquisa fazem valer, por si só, a experiência de Memórias de Adriano. Comentei com amigos que queria isso em todos os livros: um saboroso making of, um passeio guiado pela autora pelos becos da escrita. Prazer em conhecê-la, ainda que com tremendo atraso, Marguerite.

Como ainda não era o dia do carteiro, passei a mão no outro que estava na cabeceira. Como consegui dormir com tanto barulho, por tantos meses? Era Entrevistas (Ed. Rocco), uma coletânea de conversas com Clarice Lispector datadas do final da década de 60, meados da de 70, quando ela, já escritora consagrada, trabalhou como jornalista por necessidade financeira. São entrevistas originalmente feitas para as revistas Manchete e Fatos&Fotos, várias delas já publicadas também no livro De Corpo Inteiro. As escolhas feitas por Clarice e o evidente respeito dos entrevistados pela entrevistadora renderam conversas suculentas, ainda que breves. São mais de 40 entrevistas com escritores, artistas e esportistas brasileiros - além de um rápido papo com o poeta chileno Pablo Neruda. Minhas favoritas misturam escritores e outros artistas do naipe de Erico Verissimo ou Chico com outros de cuja obra ou carreira eu tão pouco conhecia ou conheço, como a pintora Djanira ou o pianista Jacques Klein. Rubem Braga, o escultor Bruno Giorgi e a diva Lygia F. Telles também me fizeram adorar esse livrinho. E pensar que esse povo todo tava batendo papo bem no meu ouvido, por meses, e eu nem tava dando bola.

Aí o carteiro chegou e, por falar na Lygia, trouxe a própria. Finalmente vou ler Ciranda de Pedra, abracem-me. \o/

***

Enquanto isso, Amanda...

pinta os cartõezinhos...

passa papel contact...

 e prende no palito com fita adesiva.


Planta as sementinhas...

e voilá. Agora é só esperar e torcer.



Nossa hortinha deve ser a mais sem noção do planeta. Tem couve-flor competindo com chicória na mesma jardineira, avaliem. Sem falar na jardineira só com florzinhas admiráveis que ninguém vai comer. Mas a gente se diverte. E torce. 

2 comentários:

Clara Lopez disse...

Você sempre escrevendo tão bem, Rita, e ainda não disse de modo decente como gostei de seus contos, do livro todo, alías - li há tanto tempo e ele ainda pisca na minha cabeça, é forte e bom seu texto, e sua literatura.
um abraço,
vera

margaret disse...

Confesso que aguardei ansiosamente seu comentário sobre Memórias de Adriano. Um dos meus livros favoritos. Um dos pouquíssimos que reli e o reli mais de 2 vezes. Rsrs Bjs, querida Rita.

 
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