A fada


"Era apenas um som anônimo, perdido na tarde." 
Frase que encerra Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles, Ed. Rocco). 

Enquanto a casa dormia, lá estava eu largada na poltrona, respiração quase suspensa e olhar fixo no piso do escritório, sem me mover para não fazer barulho - quem sabe assim conseguiria esticar o livro. Quem sabe se eu não me mexesse ele não se acabaria. Agora que eu já havia relido as orelhas, a contracapa, alguns parágrafos; agora que Virgínia crescera e eu não saberia mais de seu destino; agora que, mais uma vez, Lygia havia me deixado assim, meio sem rumo, meio maravilhada, num silêncio de reverência. 

Acordei de ressaca.

Tanta gente já havia me indicado, os críticos todos gritaram de cima dos telhados. Mas eu não havia lido ainda, às vezes fico meio surda. Agora li e quis botar Virgínia no colo, ou pegar sua mão, abrir a ciranda e deixá-la entrar, lançar um feitiço e fazer desaparecer todos os monstros da rejeição. Ler a primeira parte do livro, a infância de Virgínia, foi uma dor. Sofri como se a conhecesse - se eu pudesse correria até sua casa, entraria depressa e olharia bem em seus olhos: vai passar, querida. Cheguei à segunda metade do livro tomada de angústia. Ler o restante foi deixar que o alento se aproximasse devagar, foi acreditar. Durante todo o tempo, deixei que o vento que soprava da escrita da Lygia me embalasse, o balanço mais bonito do mundo.
  
Passei o dia relendo o livro dentro de mim enquanto trabalhava, enquanto comia, enquanto tomava banho. Releio a história que tatuei em minha cabeça e em meu coração como um dos livros mais doloridos e lindos que já li. Um livrinho, com menos de 200 páginas, será um sopro na estante. Será, quando eu colocá-lo lá. Porque ainda não. Vou mantê-lo na cabeceira ou na bolsa por mais uns dias, para olhá-lo devagar de vez em quando. Dentro dele mora Virgínia, que precisa tanto de carinho. 

Lygia, obrigada. Sua linda. Você é uma fada. 

3 comentários:

Juliana disse...

deu vontade de reler.

margaret disse...

Vou reler, linda e querida Rita.
Seu terno comentário me instigou.
Afinal, eu o li há tanto tempo e, confesso, não percebi ou não capturei tamanha belezura. Bjs

Luciana Nepomuceno disse...

nhoim

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }