Quantos tons?


Minha TL nunca esteve tão recheada de indiretas e xingamentos velados - ou escancarados mesmo. É desmiolado quem votou na Dilma, é esquerdopata quem não quer o impeachment, é coxinha sem noção quem fala que não aguenta mais tanta corrupção. Morreu o meio termo, escafederam-se todas as possibilidades de troca, apagaram-se as nuances. Em alguns ambientes físicos, fora da rede, há um certo desconforto quando alguém que não foi às ruas no domingo entra na sala. É um petista, só pode; cuidado. (risos)

Quanto mais vejo vídeos e leio textos e análises várias sobre as passeatas dos dias 13 e 15, mais feliz fico de não ter cogitado participar de nenhuma delas. Da primeira, por razões que a Eliane Brum tocou muito bem em partes de seu texto publicado no El País essa semana - um texto com pontos que ainda me parecem meio nebulosos, mas com outros que me parecem certeiros (como o porquê de o PT ter perdido as ruas nesse momento). Da segunda passeata, a mais animada, pelo tom difuso e carregado do ódio da moda, o que prega que o antipetismo é nosso pastor e nada mais nos roubará. Desapareçam com o PT - como seria isso, exatamente? - e tudo o mais se resolve. Ou: vamos tratar uma corrupção de cada vez (pelo menos deve pensar assim quem usou a camiseta que diz não ter nada a ver com isso, afinal votou no PSDB). (risos)

Sabemos que parte do Fora PT significa destituir a Dilma do cargo para o qual foi eleita há alguns meses. A consequência rápida e rasteira é uma só: se não junto minha voz aos brados de impeachment, deve ser porque digo amém a todo gesto esquisito do governo. Olha, eu acho graça do maniqueísmo que sublinha essa postura. Como se não fosse possível dizer todo dia, ao ler algumas notícias envolvendo a Dilma, "assim não dá pra te defender, mulher!", mas nem por isso me sentir tentada  a ir às ruas ao lado de quem pede, em 2015, intervenção militar. Nesse país, com a nossa história.

Eu não sei com que conforto algumas pessoas dividiram as ruas no domingo com quem pede intervenção militar, num protesto que usou bonecos simulando enforcamento do ex-presidente e da atual (as definições de "protesto pacífico" foram atualizadas). Talvez com muito desconforto, algum desconforto, um tico de vergonha. Talvez não. Sei lá eu. O que percebo em alguns é o orgulho de ter ido às ruas pelo fim da corrupção praticada única e exclusivamente pelo PT. Quanto a mim, sei que é verdade que eu sentiria muito desconforto por ter participado do evento do dia 13 - há vídeos que mostram pessoas sendo pagas para estar ali, sem ao menos saber do motivo da manifestação. Aí vejo o vídeo editado pela TV Folha sobre a passeata da Paulista no dia 15 e sinto náuseas; vergonha não define; eu viveria para sempre embaixo da cama se tivesse dividido a mesma rua com um carro de som pedindo a volta dos militares ao comando do país. Deve haver outras formas de se lutar contra a corrupção. Incluindo a do PT. (Sei de pessoas que vão argumentar que ei, você está tentando deslegitimar minha ida à passeata. Não, amigo. Nem todo mundo que foi às ruas no dia 13 recebeu dinheiro. E você tem direito de pedir o que quiser, ao lado de quem for. Eu tenho direito de sentir arrepios.)

Aí agora há pouco minha amiga me mostra a carta empolgada dos militares, "O dia em que o Brasil mudou!". E fico pensando no outro amigo que minimizou a relevância dos "casos isolados" que pediram intervenção militar na Paulista. (sem risos)

Enfim, nada é preto no branco. Eu posso achar lindo o povo nas ruas e morrer de vergonha do que ele pede lá. Entre a tal cegueira governista e o batuque das panelas existem muitas cores. Bem que o título daquele filme que empolgou tanta gente há tão pouco tempo podia inspirar as conversas em torno do momento político do país. São quantos tons mesmo? Ou só serve pro sexo?


4 comentários:

Daniela disse...

É isso aí, Rita, estou no mesmo barco. Não iria jamais a uma manifestação em que parte pede a volta dos militares e apoia o viés religioso e conservador do presidente da Câmara. Mesmo eu achando que o PT já deu, não tem como estar lado a lado com esse pessoal. Democracia é isso, a gente tem que aguentar mesmo quando não concorda com quem ganhou. Senão parece criança: a se não concorda com a brincadeira diz que não brinca mais.

Anônimo disse...

Sempre se expressando da maneira que eu gostaria mas não consigo, não tenho tanta habilidade com as palavras.
Post excelente! Como sempre!
Um abraço! Ana Carolina.

M Mawkitas disse...

Eu acho essa oposição de dois pólos extremamente burra. E sinro falta de um meio termo sim, de encontrar pessoas com quem conversar de forma menos psicótica sobre o que vem acontecendo no país. Pelo seu texto, não concordamos em muitos pontos, o que é normal, mas anda raro a gente conseguir discordar sem que alguém queira nos jogar de uma janela ou chamar de coxinha ou defensor de petralhas.

Leosantiago disse...

Só acho que se a manifestação do dia 15 tivesse fracassado, o governo iria se sentir totalmente confortável em seu discurso dissimulado de que tudo é só uma consequencia do sistema político eleitoral.
Nas manifestações pelas diretas haviam manifestantes de várias matizes ideológicas que, naquele momento, julgaram ser relevante estarem unidos por uma causa comum.
A Presidente deveria sim ser investigada por sua culpa (negligência, imprudência ou imperícia) nos prejuízos causados pela administração da Petrobras, pois foi a responsável pela condução do setor energético desde o 1º dia do governo Lula. A maioria da população entende que ela sabia do que ocorria, mas alguns pensam que o resultado da eleição teria o condão de blindá-la de uma investigação.
Fui a manifestação para pedir apuração dos fatos, e não tenho qualquer vergonha disso.

 
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