Americanah


Hoje cheguei ao fim de Americanah, livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (Ed. Fourth Estate). Já que não deu para acampar como eu pretendia, por motivos de marido-escalado-para-trabalhar-no-finde, pude ao menos me jogar nas páginas finais do livro que me acompanhou nas últimas semanas.

Não foi uma leitura com o coração na mão, como foi o incrível Half of a Yellow Sun, primeiro livro que li da Chimamanda; foi mais uma conversa tranquila sobre uma história de amor possível, sobre questões raciais diluídas no cotidiano do imigrante nigeriano nos EUA e a construção da própria identidade, e ainda sobre como nosso lugar no mundo (dado ou construído) forja a visão que temos dele. Uma conversa honesta, por vezes sublinhando pontos que nem deveriam mais ser pauta em nosso mundo, mas que infelizmente ainda precisam de protagonismo.

A simpatia com Ifemelu foi imediata, já nas primeiras páginas, enquanto ela espera seu cabelo ser trançado em um salão de Nova Jersey. Ali, enquanto as cabeleireiras, também imigrantes, arrumam suas tranças e compartilham suas ansiedades de expatriadas, Ifemelu relembra sua história nos anos que antecederam sua partida de Lagos, o início de seu relacionamento com Obinze, a ida para os EUA e a maneira como a mudança de país a colocou frente a frente com a questão racial de um jeito que ela jamais vivenciara em sua terra natal. Ifemelu não é modelo de valentia, nem nos é apresentada como a heroína redentora dos imigrantes. Ela é mais uma que experimenta as dores de quem deixa sua terra e precisa a duras penas conquistar cada pedacinho de seu espaço em outro país. O que a engrandece e nos inspira são seus insights reveladores sobre as pessoas que a cercam e seu relacionamento com elas. Gostei bem. 

No início do livro já sabemos que ela pretende voltar. Americanah é também sobre o modo como enxergamos nosso país quando regressamos de um lugar idealizado ou culturalmente distante daquilo que deixamos pra trás quando partimos. E, mais uma vez, Ifemelu não está imune aos incômodos, ao deslocamento. E, de novo, sua autocrítica e sensibilidade nos inspiram.

(Gostei de ter lido Americanah depois de ter lido Yellow Sun. É bom ler sobre o país em tempos posteriores à guerra dos Biafra, tema de Yello Sun. Infelizmente há outros horrores por lá atualmente, bem sabemos.)

Chimamanda, que já mora no meu coração, não me decepcionou. Pudesse, passava café e convidava prum bolinho. Uma linda, essa menina. Recomendo. 
  


3 comentários:

Flávia disse...

Li Americanah ano passado, gostei bastante. Tive uma sensação parecida com a sua. Foi o primeiro livro da Chimamanda que li. Estou com Hibisco Roxo esperando a tese dar uma trégua para começar. Mas me falaram que Half of a Yellow Sun é o melhor dela. Está também na fila das próximas aquisições. Só espero que a tese acabe logo para poder voltar a essas leituras não obrigatórias e cheias de prazer.

K disse...

Nao chamaria Ifemelu para um cafe nao mas o Obimze sim. A fase em que ela morou nos EUA me diexou um pouco irritada. Os americanos nao se arrumarem para uma festa e sinal de superioridade? Usar cabelo trancado e usar o afro natural? Nao concordo. E ela nao gosta de cachorro. Mas confesso que no final minha simpatia tinha aumentado.

Rita disse...

Flavia, recomendo muito Yellow Sun. Boa sorte com a tese.

K, eu falei que convidaria a Chimamanda, não a Ifemelu. :-)
E eu nao sei dizer se trançar é "natural". Acho que sim, pensando um pouco. Pentear é natural? Rabo de cavalo? Trança? Bom, acho que o lance do cabelo é bem trabalhado no livro, com o lance da escravidão aos produtos químicos. Gostei. E confesso que nem me lembro dessa passagem a que vc se refere sobre a roupa de festa. Sorry. :-)

Beijocas!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }