Voltei, de novo


Voltei de Sydney abraçada ao Down Under, do Bill Bryson (Ed. Black Swan) que, como falei anteriormente, foi um jeitinho de prolongar as férias. Acabou resolvendo também outro quesito, o o-que-fazer-nas-horas-vagas-do-Carnaval. Como minhas crianças já estão em idades que não demandam mais nossa atenção full time (eles já brincam e brigam sozinhos horas a fio), um feriado prolongado sem viagem ou grandes pretensões de samba no pé resulta em muitas horas livres para leitura. Dediquei todas ao Bryson. Então ontem, de novo, voltei da Austrália. Cheguei cheia de planos de voltar pra lá.


Se você pretende visitar o lar dos coalas num futuro próximo e me pedir um diquinha que seja, darei duas: fique longe do vegemite e leia o livro do Bryson antes de ir. A primeira dica evitará caretas de nojinho; a segunda tem potencial para influenciar seu roteiro de viagem e, caso não seja pra tanto, ao menos renderá boas risadas e um tanto bom de história. 

A primeira edição de Down Under foi lançada em 2000, lá se vão quinze anos. Naturalmente não compraríamos um guia de viagem publicado há quinze anos e sem revisão desde então. Mas quem se importa, Down Under, claro está, não é um guia de viagem. Cabe certinho na categoria Travel Writing com pitadas generosas de História e informações científicas, bem no estilo Bryson - quem leu Breve História de Quase Tudo sabe do que estou falando.

Apesar de Bryson não descrever todos os cantos do país - e como poderia? - é como se a Austrália inteira estivesse ali. Das ruas vibrantes de Melbourne à solidão do deserto, da vista inacreditável da baía de Sydney à atmosfera sem graça da planejada Canberra, do burburinho de Gold Coast aos bares empoeirados nas beiras de estrada do Northern Territory, das mansões de Perth às cinco ruas de Alice Springs, da simpatia quase onipresente aos péssimos serviços da rede hoteleira de Darwin (pelo menos é o que ele nos conta), do charme de ser um país moderno e organizadíssimo ao trauma social (e impressionante) dos aborígenes, tudo salta página depois de página nesse livro que me deixou com tanta vontade de cruzar dois oceanos outra vez e ver o que não vi, rever o que vi; e me encantar de novo.

Ulisses deve estar feliz da vida por eu finalmente ter terminado o livro. A cada duas páginas eu parava a leitura e enchia o saco do coitado: "escuta essa: bla bla bla!! hahahaha, não é o máximo?". Ele, companheiro, balançava a cabeça: "un-hum." Ulisses adorou Sydney, é todo elogios. Mas outro lado da viagem ainda não saiu dele: é longe. Então quando insinuo possível retorno, enquanto Amanda dá pulos de alegria, ele olha pro teto e suspira. E estou cheia de insinuações de possíveis retornos.

Se eu tivesse lido Down Under antes de viajar em janeiro, é possível que tivéssemos transformado nossa escala em Perth em um parada de verdade. Eis aí uma das cidades que nem considerei visitar e que, agora, virou desejo. É um dos pontos em que o livro de Bryson dá um banho no meu guia de viagem, por exemplo. Enquanto meu guia apresenta notas curtas sobre as pequenas localidades que se espalham pelo litoral sudoeste da Austrália, Bryson nos deixa com água na boca, gritando "quero ir!". O Vale dos Gigantes, para citar um caso apenas, é praticamente invisível em meu guia, mas rendeu as melhores páginas da reta final do livro, em parte graças àquele tipo de informação em que Bryson normalmente se esmera. Não é apenas um parque com árvores grandonas, como meu guia sugere, é um parque único no mundo. Lendo Bryson aprendemos que a vegetação do sudoeste da Austrália contém árvores que por muito tempo a ciência acreditava estarem extintas. Aparentemente o isolamento do continente permitiu que a evolução tomasse seus próprios caminhos por lá, pelo menos em relação ao timing de algumas espécies - mas não só nele, vide ornitorrincos. O olhar de Bryson, portanto, vê mais do que um parque bonito, vê uma floresta anacrônica, com árvores e flores que, a rigor, nem "deveriam" mais existir. E, claro, o tal Vale dos Gigantes parece mesmo ser lindão, com o tal Tree Top Walk, uma passarela erguida sobre as copas das árvores imensas que promete um passeio de tirar o fôlego. Isso ao sul de Perth. Ao norte, Bryson nos diz que a costa tem beleza impressionante ainda praticamente inexplorada pela indústria do turismo. É nessa região onde cientistas e turistas mais insistentes podem apreciar nada menos do que  os estromatólitos, a estrutura que, no momento atual da Ciência, é tida como candidata à primeira estrutura orgânica a habitar a Terra. Há 3,5 bilhões de anos. E lá estão eles, na costa da Austrália, esse país realmente incrível. Para os cientistas, é como uma valiosa viagem no tempo. Para nós, turistas deslumbrados, é o que justifica tantas horas de voo. 

Quem quero ir? Tá lá o Ulisses olhando pro teto.


1 comentários:

Francisco Santos disse...

Gosto muito de Bryson.

 
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