Tranças


Quase não me reconheço dormindo mais cedo. Normalmente ativa e serelepe após as 22h, agora sou sequestrada pelo sono já às 23h, livro aberto e despencado de um lado, marca-páginas de outro, o irresistível cafuné do travesseiro em minha orelha. Eu, que faço mil lanchinhos à meia-noite, agora dei pra dormir sem aquele meu chazinho ou meu chocolatinho ou o que estiver ao alcance na madrugada da geladeira. Não sei onde vou parar dormindo com as galinhas, como diria minha mãe. Seja lá qual for o motivo dessa mudança em meu relógio biológico, espero que passe logo. O dia me engole sem mastigar, preciso da noite para regurgitar ideias. Ou revisitá-las. Alinhavá-las. Arrematar meu mundo que precisa e quer continuar noturno, também. Será a idade? Ou coisas de fevereiro? Será o barulho do mundo? Shhhh, silêncio, quero acordar.

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Hoje a Fal arrumou a gaveta. Fui espiar a minha e vi: a agenda velha com números de pessoas de quem não me lembro mais; marca-páginas; fone de ouvido; a carteira velha com cartões velhos de milhas que nunca me levaram a lugar nenhum porque usei outras; moedas de outros mundos; a caixa do relógio que não tenho mais, como pode?; o celular velho e mudo; o papelzinho; lá no fundo, coberto de pó, um plano - mas aí já era outra gaveta, ainda mais desarrumada, pobre de mim.

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Vou passar uma receita para vocês jogarem no lixo, anotem: certeza daquelas bem plenas, sabe? Pois bem, misture com aquele pacotinho de arrogância que vem com a certeza de que a sua certeza é a mais esperta. Tempere com uma vontade louca de escrever no Face. Pronto. Pode jogar fora. 

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Da série frases que quero amar pra sempre, da linda Chimamanda Adichie: "...her illusions so strong they could not be fended off by reason... " Acho que dá pra descrever o mundo, o universo e tudo mais. 

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Meu conto Sonata foi publicado na Revista Plural, edição nov/dez 2014. As companhias são ótimas, a capa ficou um mimo, sou só gratidão. 

"Lembro que fiquei ali, como se o fio de sangue que brotava da minha mão pequena de menina fosse uma música tocando baixinho, eu ouvindo aquele tiquinho de vida vazando, o coração aos pulos com o som que saía de mim e me cercava dizendo o que eu já intuía: a vida às vezes se quebra"






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Hoje Amanda não queria as tranças, mas só me avisou quando já estavam prontas. E foi pra escola carregando suas longas tranças como se fossem dois sacos de cimento. Quando chegamos ao colégio, emburrou a cara, disse que estava com vergonha, parecendo "uma menininha". Ora, falei, comassim, mas não é isso que você é? Ela me explicou melhor, fazendo um gesto com as mãos que dizia que ela estava parecendo muuuito menininha, não uma menina grande e enorme de gigantescos 7 anos já. Segundos depois de eu sugerir que, se as tranças realmente estivessem incomodando, eu poderia desmanchá-las, ela se encontrou com a amiga. De tranças. E as duas ficaram no pátio, saltitando e rindo da coincidência de penteados, tocando uma nas tranças da outra, alheias a mim. Como duas menininhas, coisas mais lindas. 


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