Pergunte ao Pó - começando o ano com livrão


Fazia algum tempo que eu queria ler Pergunte ao Pó. Procurei por ele algumas vezes em livrarias de minha cidade, sem sucesso. Fui adiando a compra pela internet, li outro livro do mesmo autor, gostei, mas não amei, e fiquei com cara de paisagem esperando que o livro caísse em meu colo. Aí ele caiu. Veio pelas mãos de um amigo em dezembro passado: mostrou-me sua coleção de Fante e me emprestou . Na época eu estava lendo um romance estadunidense água com açúcar, escrito no século XIX, cheios de lições de boas maneiras - Little Women, de Louisa May Alcott, que, suponho, eu teria gostado mais se o tivesse lido aos quinze anos; agora, achei engraçadinho, no máximo. Aí o livro do Gregorio Duvivier aterrissou em nossa árvore de Natal e lá fui eu reler algumas de suas colunas, conhecer outras. Dia desses larguei o livro no meio (tô voltando pra ele hoje) e decidi ler Pergunte ao Pó, finalmente. Que coisa boa. 

Gostei de tudo no livro. Da temática, porque o mundo da literatura é sempre um tema caro pra mim. Da narrativa vibrante, firme e, ao mesmo tempo, poética na medida de encantar sem deixar cair o tom sarcástico de suas frases afiadas. Um protagonista-narrador que ri de si mesmo e revela sem pudores seus traços menos honrosos ou mais iluminados - Bandini é um encanto, Bandini é um covarde, Bandini é um gênio, Bandini é um hipócrita. Gostei dos personagens, todos - Arturo Bandini, seu lindo, a sedutora e/ou frágil Camilla Lopez, a melancólica Vera Rivken. Gostei demais da trama, um livro que pode facilmente ser tomado em um único gole. A história simples tem as viradas necessárias para se manter ágil e o ritmo certo para virarmos a página que leva ao capítulo seguinte sem nenhuma vontade de largar o livro. Fante é aquele cara que escreve tão bem que nos mata de ódio, sabe?

Em algumas passagens de Pergunte ao Pó parei e voltei. Reli o capítulo anterior para ver como a atmosfera foi construída para a chegada do evento do capítulo que eu acabara de ler. Reli várias passagens pelo puro prazer de apreciar a prosa tranquila, como se não existisse outra maneira de se dizer aquilo. Parágrafos definitivos em sua simplicidade, serenidade. Assim:

"Não me lembro. Talvez uma semana tenha se passado, talvez duas semanas. Sabia que ela voltaria. Não esperei. Vivi minha vida. Escrevi algumas páginas. Li alguns livros. Estava sereno: ela voltaria. Seria à noite. Nunca pensei nela como algo a ser cogitado à luz do dia. As muitas vezes em que me encontrei com ela, nenhuma foi de dia. Eu a esperava como esperava a lua."

A história de um jovem escritor em início de uma carreira que pode nunca sequer acontecer, deslumbrado com o mundo editorial, inseguro e orgulhoso a um só tempo, essa história poderia ser banal, piegas, insossa. Nas mãos de Fante, a vida maluca do pobre Arturo Bandini ficou irresistível.

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A edição que li tem tradução de Roberto Muggiati, publicada pela Editora José Olympio. O prefácio, um presentinho à parte, é de Charles Bukowski, que se derrete mais do que eu: 

"Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim."

Acho que comecei bem minhas leituras de 2015, um ano que certamente terá mais Fante. 

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A outra viagem começa na semana que vem. O frisson da criançada no momento é com a ideia de atravessar o planeta. Hoje Amanda me perguntou por que cargas d'água a gente não aproveita que já vai atravessar o mundo e não volta pelo outro lado e dá logo a volta completa de uma vez. Falei que a ideia é ótima, mas a passagem vai e volta pelo mesmo lugar. Ela achou meio sem graça. Mas vai mesmo assim. :-) 

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