Para 2016: "O conjunto será, portanto, uma sinfonia em azul e amarelo"


Não é bom quando amigos percebem nossos vacilos e gentilmente nos dão aquele empurrãozinho? Algumas vezes me peguei na livraria lendo a contracapa de Cartas a Théo. Nunca comprei, sempre adiei para "depois". Uma amiga percebeu o vacilo e colocou em minhas mãos um exemplar: "leia". Este post é um agradecimento, mais um.

2015 foi um ano de boas leituras. Alguns livros divertidos, como os de Bill Bryson; boa ficção, como os Fante, minha querida Lygia F. Telles ou Mary Ann Shaffer; passeios por áreas diversas da Ciência, como o imperdível Assim Caminhou a Humanidade, uma das leituras mais envolventes do ano pra mim. Li várias e boas biografias - descobri Doris Lessing e Oliver Sacks - e me emocionei com relatos como o Diário de Anne Frank e o dolorido É isto um homem?; me impressionei a cada página do chocante A Grande Guerra pela Civilização, do jornalista Robert Fisk (ave, Fisk). Entre esses e dezenas de outros, é bom me despedir deste dezembro com um livro que guardarei com carinho por seu conteúdo precioso e por ter me revelado tanto sobre alguém tão admirável. 

É bom e fácil, penso eu, gostar das pinturas de Van Gogh, sorrir diante do laranja vibrante, em pinceladas que, de perto, quando quase encostamos nossos narizes na obra, são pouco mais que o resultado de golpes rápidos sobre a tela, mas que nos calam como mágica quando damos dois passos para trás e percebemos a dança de cores. É bom. É quase automático, talvez. Olhar para essas mesmas pinturas depois de conhecer suas cartas será sempre, acredito, uma experiência tão mais intensa quanto foi envolvente ler seus relatos de artista solitário. Cartas a Théo (Ed. L&PM, tradução de Pierre Ruprecht) tem muito mais do que eu supunha, minha amiga estava certa. Reencontrei o senhor da amendoeira, dos mil amarelos de trigo, dos girassóis e ciprestes, do olhar de dor. Descobri o homem para quem a arte era uma espécie de comunhão com a natureza e com a humanidade. Descobri a profunda solidão de alguém cuja sensibilidade foi sua própria desgraça. 

Sabe-se que apenas um quadro de Van Gogh foi vendido enquanto o artista era vivo; o que eu não sabia era que, se pudesse, ele não venderia mesmo nenhum - mesmerizado diante das cores, rejeitava ideais de fama e prestígio, ainda que torcesse pelo reconhecimento de seus contemporâneos impressionistas. Mas era preciso vender, pobre coitado, e assim pagar o generoso auxílio de Théo, evitar os forçados jejuns, comprar telas e cores - para ao menos pintar sem fome. E, acima de tudo, era preciso conviver com a própria loucura. Como alguém que pertence a dois mundos, Van Gogh via mais de si mesmo e da natureza ao seu redor - e isso nem sempre era bom. E em meio ao tormento, deixou-nos centenas de janelas através das quais podemos tentar compartilhar de seu olhar, de sua percepção do que é o mundo, de onde mora a beleza, do que encanta e acolhe e nos torna possíveis, apesar de nossa inexorável solidão. 

Que 2016 nos venha como seu Van Gogh favorito, colorido e vibrante, ou suave e acolhedor, ou ainda alegre e quase dançante. Ou tudo junto, na sua medida, adicionado de suas próprias cores. Que os meses nos brindem com mais arte no mundo, menos ódio e egoísmo - "não há nada de mais realmente artístico que amar as pessoas" (Van Gogh, setembro de 1888). - Feliz ano novo, pessoas queridas!

***

"Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente." - 1882

"Continuo sempre à procura do azul." - 1883



"...um das coisas mais belas dos pintores de nosso século foi pintar a obscuridade, que apesar de tudo é cor" - 1884-1885



 "...prefiro pintar os olhos dos homens, mais que as catedrais..."
 


"Estou num furor de trabalho, já que as árvores estão em flor e que eu gostaria de fazer um pomar da Provence de uma alegria monstruosa.' - 1888

"Como é belo o amarelo!" - 1888

"E num quadro eu gostaria de dizer algo consolador como uma música" - 1888

 (1889 - único quadro vendido em vida)

"Fiquei doente no momento em que estava fazendo as flores de amendoeira. Se eu tivesse conseguido continuar a trabalhar, você pode deduzir que eu teria outras árvores em flor. Agora, as árvores em flor já quase acabaram, realmente eu não tenho sorte." - abril, 1890

"Dizem que na pintura não se deve procurar nada, nem nada esperar, além de um bom quadro e uma boa conversa e um bom jantar como felicidade máxima..." - maio de 1890, dois meses antes de tirar a própria vida.
 
 (maio 1890)

 (junho 1890, um mês antes de morrer)
***

"E eu me deixarei ir não sem reflexão, mas sem insistir em lamentar coisas que poderiam ter acontecido."



Christmas card


As muitas dores do ano, com suas guerras pequenas e grandes; os muitos mares de lama, simbólicos ou dolorosamente reais; os olhares dos imigrantes; as balas perdidas ou cruelmente direcionadas; nossas perdições, todas elas. Todos os sustos, todas as vezes em que não soubemos o que dizer antes do choro. Para além de tudo isso, ou talvez por causa de tamanho penhasco, quero olhar com atenção para meus filhos brincando. 

E então ver as conquistas do ano, grandes ou minúsculas; ver os sonhos que resgatamos e os novos projetos, loucos e ousados ou mesmo tímidos; cada dia passado às gargalhadas com os amigos, cada brinde; cada passagem comprada, simbólica ou com malas prontas; cada palavra escrita, cada capítulo lido com o coração aos pulos; cada silêncio compartilhado em cumplicidade; cada vez que a receita deu certo, cada novo passinho da Ciência; cada dia em que o amigo conquistou, celebrou, decidiu; cada dia em que o mundo nos revelou um campo dourado aos pés do penhasco.

Para além das celebrações do solstício de inverno transformadas em festa cristã; para além dos ritos, símbolos, versos - eu quero o abraço. Que venha de perto ou em palavras, que venha em minhas saudades, que venha em mensagem ou telefonema, que fique no pensamento, que dance no vento, na rua, em mim. Abraço que nos lembre que não sabemos quase nada, mas que, seja lá qual for o caminho, ele será no mínimo mais divertido se a gente se lembrar de não caminhar sozinho.

Do jeito que for pra você, qualquer que seja o significado do seu natal, que ele seja feliz e grande. Pretextos para desejar um mundo melhor, como não agarrar? 

Feliz natal, queridos. 




"Às vezes parecia que de tanto acreditar..."


Eu nem acreditei quando o moço atendeu o telefone. Em 1992 não havia celulares, o telefone da minha casa no interior do Paraíba era de disco. Cada tentativa de ligação significava girar os sete números na maior velocidade possível (não muito rápido, não tinha como) e torcer muito para não ouvir o famigerado sinal de ocupado do outro lado. Não havia botão de redial. Eu já havia tentado aquela ligação inúmeras vezes, sem muita fé, apenas por teimosia. Vai que o cara da rádio atende. Atendeu. Era minha grande chance. Bastava acertar a resposta e o ingresso seria meu. Eu não sabia a resposta, obviamente, mas resolvi arriscar. Liguei decidida a responder "Marcelo Bonfá", quem sabe teria sorte. Não havia internet, não tinha como "pesquisar no google". O ingresso para o show da Legião Urbana em João Pessoa seria meu se eu acertasse qual dos integrantes da banda era também desenhista. Nunca vou entender porque no último momento decidi mudar a resposta e falar "Renato Russo". A resposta certa era Bonfá. Sem dinheiro para comprar o ingresso, sem autonomia para ir sozinha a João Pessoa, fiquei na vontade. Perdi a única chance de ver de perto a banda favorita dos meus vinte anos.

Anos depois eu soube que no mesmo dia, em João Pessoa, Ulisses ganhou da irmã o ingresso. Nós ainda não nos conhecíamos. Do lado de fora do Espaço Cultural, lugar do show, ele se encontrou com os amigos, mas nenhum deles tinha ingresso. Ninguém tinha grana pra comprar e estavam ali passando vontade enquanto os milhares de sortudos entravam para ver Renato Russo e cia. Ulisses então decidiu vender o único ingresso do grupo e ficar com os amigos do lado de fora, ouvindo dali o que conseguissem. Converteram o valor da venda num garrafão de vinho para brindarem juntos a amizade, a falta de grana e a música que vinha de dentro do caldeirão do show. Um deles botou a garrafa no chão de mau jeito e quebrou a preciosa, o vinho se foi no concreto. Nem Legião, nem vinho, ficaram os amigos. 

Quatro anos depois, Ulisses e eu estávamos juntos, namorando há dois anos, quando Renato Russo morreu. Um amigo nos ligou e nos contou. Fim.

*** 

Então ontem foi incrível. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá estão em turnê para celebrar os trinta anos de criação da Legião. Na passagem por Florianópolis receberam no palco alguns convidados (a atração mais divulgada era a Paula Toller, mas não foi nem de longe a mais legal) e, com André Frateschi no vocal, deram ao público sortudo um presente tão valioso quanto foi ter nossa juventude embalada por aquelas canções. Ulisses e eu, juntos, vingamos o vinho derramado e a resposta errada na promoção da rádio. E berramos que o amor tem sempre a porta abeeeerta.

De cara já gostei: a faixa etária do público era a dos "órfãos" do Renato. As músicas que tocavam antes do show eram de bandas contemporâneas da Legião, dando o clima. Um casal de amigos, com suas histórias de discos preciosos e lembranças pontuadas pela trilha da banda, compartilhou conosco a emoção de ouvir a mesma guitarra, a mesma bateria, berrou junto em cada música. Aí André Frateschi soltou a voz em Será e a gente viu com alegria que a noite seria muito maior do que esperávamos. Frateschi é incrível no palco, tem uma voz maravilhosa e, principalmente, atitude. Nasceu pro palco e honrou a chance de cantar ao lado de Dado e Bonfá. Foi uma imensa e grata surpresa. 

A banda tocou todo o primeiro disco, de hinos como Ainda é Cedo, Teorema e Geração Coca-Cola, e enlouqueceu o público. Entre uma canção e outra, relembrávamos, como se nunca tivéssemos dito isso antes: "caramba, esse era o primeiro disco, eles eram pirralhos de 19, 20 anos!!" Então vieram os convidados, sempre no vocal. Um moça cujo nome não gravei cantou Dezesseis, do disco Tempestade, lançado quando Renato já estava doente. Em seguida, um ótimo cara do Ceará (preciso descobrir o nome dele) arrasou quarteirões cantando a maravilhosa e indefectível Duas Tribos. A voz da Paula Toller encheu o lugar perguntando Quem inventou o amoooorrr, me explica por favoooor!!. Além de Antes das Seis, cantou também a baladinha delicinha O Mundo Anda Tão Complicado. Quando ela saiu, não lamentei muito. O clima rock & roll voltava a mil com o André Frateschi. A partir daí, os três - André, Dado e Bonfá - se revezaram nos vocais. E foi Bonfá quem puxou Pais e Filhos pra gente se lembrar com mais força porque ama tanto o Renato. 

Um dos "problemas" do show era a sequência de hinos. Era tanta catarse que o entusiasmo foi minando minha garganta. Quando os acordes de Índios começaram, saquei o telefone para gravar pro Arthur, que costuma cantar "nos deram espelhos, e vimos o mundo doeeeeente" aos berros no chuveiro. Para mostrar que não tá de brincadeira, Frateschi conduziu Faroeste Caboclo com energia de vulcão, outro momento sensacional. Ainda houve Tempo Perdido, Por Enquanto (ah, que lindo!!), Quase Sem Querer, Há Tempos, Eu Sei. E outras e outras. Despediram-se ao som de Perfeição

Alguém no meio da galera erguia a capa do vinil do primeiro disco. No fundo do palco, um painel em preto e branco exibia imagens de jornais dos anos 80 e 90, além de letras das canções, talvez na caligrafia do Renato. Entre nós, continuamos lamentando sua morte prematura, mas comentamos que ele nem precisaria ter escrito mais nada. Suas canções ainda refletem nosso país (infelizmente, muitas vezes). Sua poesia nunca morreu e a banda que ele fundou foi para milhares de brasileiros uma das maiores alegrias de minha geração. 

Vinte e três anos depois do vinho derramado, Ulisses e eu finalmente entramos, ingressos na mão, e foi (quase) exatamente como a gente achou que teria sido em 1992. Inesquecível. Um dia quem sabe escrevo um conto em que acerto a resposta e os amigos dele conseguem ingressos. A gente entra no show de João Pessoa, Renato canta Se Fiquei Esperando Meu Amor Passaaaar...  quem sabe. Não que precise. É claro que a gente gostaria muito de ter tido essa chance de novo, mas não é esse um dos poderes da arte? A imortalidade? A gente pensou nele o tempo todo.

Obrigada, Renato. Valeu, meninos. 

Redoma

 
Há dias venho montando minha redoma. É transparente, para que eu ainda possa ver o mundo por onde caminho; espaçosa, para que meus amores caibam nela; e silenciosa, para que eu possa ouvir apenas o passado que eu eleger. Um ritual não exatamente escolhido, mas acolhido com inteireza e entrega. Há dias venho me cercando de você, minha proteção e abrigo. Ainda escrevo assim, na segunda pessoa, como se você pudesse me ouvir, porque gosto do poder das palavras e mantenho assim o canal que inventei pra nós, tão verdadeiro quanto os afagos que vinham de sua voz quando habitávamos juntas o mesmo mundo. É 09 de dezembro outra vez, crio meu refúgio como quem viaja em busca de seu abraço - como nos velhos tempos.
 
Minha amiga e eu falamos de você dia desses. Falávamos de perdas, vida e morte, da beleza do cosmos, do absurdo dos átomos, de como nos percebemos pessoas, das buscas, das flores, do tempo, do que é grande, do que não sabemos. Falamos do amor universal e da unidade. Falávamos, e em tudo cabia você. Falávamos, e a redoma se formava, e cada vez mais eu vinha pra cá, onde estou agora, nesse cantinho de mim que você habita. Aqui, onde você ainda segura minha mão.
 
Penso na idade deste mundo tão velho e me encanto com seus incríveis passos muito lentos rumo a belezas impensáveis. Penso no tempo das montanhas. Penso no pó das estrelas e dos longos ciclos sem fim dos átomos em minhas mãos. Aí penso que nossa passagem é tão breve e que talvez seja por isso que nos perdemos tanto. Então a mágica acontece, e cinco anos sem você parecem um tempo difuso em todo o tempo do mundo: misturo tudo, você viva, você lembrança, você sempre. Que o eterno é o amor que faz, mãe.
 
(Que saudade.)
 


Das gavetas e fora delas


Certa vez, quase em outra vida, guardei no fundo da gaveta uma camiseta vermelha e branca. Nunca usava, nunca mexia nela. Somente quando eu arrumava as roupas, tirava a camiseta de lá, limpava a gaveta, selecionava peças que não queria mais, devolvia as outras pro lugar, botava de novo a camiseta no fundo da gaveta. Quando me mudava de casa, o que aconteceu algumas vezes nesse período, botava a camiseta na mudança. Na nova casa, arrumava um cantinho pra ela no fundo do novo armário. É verdade que um dia eu doei a camiseta. Mas não foi culpa dela, nem minha. Ela não estava me incomodando, eu simplesmente achei que era hora. Eu estava enganada, claro. Porque, afinal, um dia a gente se reencontrou, e eu acho que teria sido bacana devolver a camiseta, guardada por tantos anos. Olha, foi quase. Mas eu já havia doado. 

O engraçado é que a camiseta não preenchia espaço nenhum, não substituía você, tadinha. Não era "para eu me lembrar de você", porque, né, hahaha, não precisava. Não era pra nada. Era, talvez, como uma foto. Ou, se eu fosse disso, um amuleto. Não sei exatamente o porquê de eu ter mantido aquela camiseta por tantos anos. Se eu soubesse compor, talvez tivesse feito uma canção; como não sei, guardei a camiseta. Como uma homenagem, se você quiser assim, aos dias em que eu via você, de longe, na faculdade, de vermelho e branco, e não conseguia não sorrir. Como me manter séria ou carrancuda, enquanto o coração dançava? Às vezes eram não mais do que quinze minutos, o intervalo entre aulas, o momento corrido antes que o ônibus da faculdade passasse. É que houve dias em que caminhar alguns metros com você em sua camiseta vermelha fazia parecer feriado.

A gente fala, né: esse vestido é a sua cara. Essa música é a sua cara. Esse restaurante é a sua cara. Na verdade, nada é. Mas a gente entende. Aquela camiseta, meu, era a sua cara. E talvez fosse tão legal porque você tem essa relação eterna com as roupas, essa coisa de usar até a roupa pedir pelamordedeus pra parar de ser usada, então aquela camiseta certamente sabia coisas. De você.

Deixa estar. Você também sabe das coisas. De mim. E, olha só, seu aniversário aí de novo, sua mão na minha, nossa rotina maluca, esses filhos crescendo diante de nosso espanto e entusiasmo. E esse mundo de amor que gaveta nenhuma comporta, ah, Ulisses, que coisa boa. Te amo, viu. E continuo adorando suas camisetas, o que é um sinal sensacional. Feliz aniversário, gatinho. 

  

O Circo de Chaplin com música ao vivo - ou o mundo bom


O Museu de Imagem e Som de Florianópolis promoveu uma sessão de cinema mudo para comemorar os 120 anos do cinema. Vi a chamada no Face e convoquei a galera de casa. Os ingressos gratuitos seriam distribuídos uma hora antes da sessão agendada para as oito da noite. Por volta das 18h40, passamos pela frente do CIC, o centro de cultura onde fica a sala de cinema do evento, e vimos uma fila considerável no hall. Decidi ficar ali enquanto Ulisses buscava as crianças na escola; eu pegaria os ingressos, eles me encontrariam dali a alguns minutos.

Faltando cinco minutos para as 19h, chegou no meu ponto da fila a notícia de que os ingressos haviam se esgotado. Oh, dear. Logo veio uma das organizadoras do evento informando que poderíamos permanecer na área, pois estavam negociando com a banda a possibilidade de uma nova sessão. Que banda? Então, esse era o charme da coisa: seria uma sessão de cinema mudo com trilha sonora ao vivo. A Banda da Lapa, com uma história quase tão antiga quanto a do cinema, embalaria o público enquanto o Chaplin fugiria da polícia e viraria o astro do picadeiro em O Circo. Ou seja, o negócio parecia tão bom que encarei a fila, mesmo sem garantia de ingressos. Minutos depois, veio a confirmação de que haveria uma segunda sessão. Mas era preciso permanecer ali até que o público da primeira entrasse, os ingressos fossem recolhidos e redistribuídos para o paciente público da segunda sessão. Esperamos. O primeiro grupo entrou, recebemos nossos ingressos, fomos jantar e depois retornamos para o filme. Valeu cada minuto de espera.

Alguém que recebeu um dos últimos ingressos nos contou que muita gente, provavelmente em número suficiente para uma terceira sessão, ficou de mãos vazias. Mas a julgar pelo sucesso do negócio, outras sessões do tipo virão. 

Antes de as luzes se apagarem, o público agradeceu com entusiasmo a generosidade dos músicos por fazerem tudo de novo, certamente cansados depois da primeira sessão. Foi um momento bem comovente e de certo modo acolhedor, uma troca de afagos: o representante da banda agradecia o carinho de quem esperou, nós aplaudíamos a gentileza da sessão não programada. Quando o escurinho veio e a música encheu a sala, o mundo lá fora sumiu. Amanda ficou mais contida, absorvendo aquele tipo diferente de cinema. Pra quem nasceu na era das exibições em 3D, penso que a experiência talvez tenha ares de outro mundo. Ou talvez não, e as risadas vieram e o derretimento habitual também. Arthur sentia-se em casa, íntimo do chapéu e da bengala, rindo de se acabar, assim como Ulisses e eu.

Há muito tempo não gargalhávamos tanto. O som ao vivo foi algo absolutamente envolvente, um fonte a mais de prazer. A ingenuidade da trama, o mundo do olhar de Chaplin, o cinema da bondade e da graça, a fome do vagabundo que come o doce da criança e nos mata de rir - foi como se o Chaplin tivesse nos colocado no colo por pouco mais de uma hora, dizendo, "there, there, everything is gonna be fine". Aceitamos e saímos de lá renovando risadas, as crianças satisfeitíssimas; nós nos sentíamos gratos pela oportunidade que abraçamos. Fica fácil ver o porquê de Chaplin ter se tornado o gigante que se tornou. Se nós, moradores desta década, que já vimos tudo quanto é tipo de efeitos especiais em salas iMax, que já nos habituamos às maravilhas do cinema ultramodernérrimo, esquecemos da vida torcendo que o vagabundo conseguisse escapar da polícia, imaginem o deslumbramento reinante nas sessões de 1928... Ou, em outras palavras: a arte, essa velhinha tão porreta.

Vem, mundo, que hoje certamente estou mais leve. 



***

Essa semana completaram-se 15 anos da morte de meu pai. Não era amante do cinema, acho que não. Mas eu apostaria muito alto, se pudesse, que ele teria adorado cada minuto da sessão de ontem. Talvez, ranzinza como só ele, tivesse encontrado defeitos na execução da banda; ou reclamado do ar-condicionado; ou da cara daquele ator; ou de tudo isso e mais alguma coisa. Mas, no fundo, eu acho que ele teria gostado, ainda que não contasse isso pra ninguém, mergulhado naqueles silêncios de cinema mudo que ele tinha.

Pearl Jam, com emoção


Mesmo levando em conta o trânsito normalmente ruim nos finais de tarde nas grandes cidades, estávamos tranquilos: chegaríamos ao aeroporto de Confins por volta das 16h30, quatro horas antes do horário previsto para início do show do Pearl Jam, no Mineirão. Tempo mais do que suficiente para o deslocamento até Belo Horizonte, para deixar as crianças na casa de amigos e seguir direto para o local do show. Mesmo com algum engarrafamento, tínhamos folga. O problema é que para poder encarar o trânsito de BH em noite de show no Mineirão, eu precisava antes conseguir aterrissar em Confins. Num final de tarde com temporal.

Nosso voo já saiu atrasado de Congonhas, mas um atraso sem grandes consequências para nossos planos. A coisa degringolou mesmo quando, prestes a aterrissar em Confins, o piloto arremeteu a aeronave por causa do mau tempo. Rolou certa apreensão, uma circulada aqui, uma desviada da nuvem ali, e lá fomos nós outra vez, tentar descer. Nova tentativa, nova arremetida. Aí já percebemos que o avião começou a se afastar totalmente da área da chuva e cantei logo a bola: vamos descer em outro lugar, Confins deve estar fechado. E fomos para Vitória, no Espírito Santo.

Oh, well. O chato é que o show não era em Vitória, no Espírito Santo. E nada contra Vitória, no Espírito Santo, mas, né? Socorro. Eu não queria Vitória, não queria Espírito Santo, eu tinha ingressos pro Pearl Jam!! Help! Arthur e Amanda choravam, ainda que por razões diferentes: Amanda, porque estava achando aquela a "pior viagem da vida", onde já se viu viajar pra BH onde ela iria ver o tio e o amigo, e chegar em outro lugar onde ela não tem nem tio, nem amigo. O Arthur, por sua vez, chorava de pena desses pais fãs de rock, "mas vocês queriam tanto esse show, não é justo, o que a gente vai fazer em Vitória?!". Pois bem. Não fizemos nada em Vitória, a não ser avisar a quem nos esperava no aeroporto de Confins que, olha, a gente tá em Vitória, que coisa, não? Bom, nem tudo estava perdido. A aeronave foi reabastecida, e logo Confins avisou "pode vir!" - para nosso alívio e o de váááárias pessoas dentro do avião que também iriam ao show; olha que coisa, como tem gente que gosta dessa banda. :-) Enfim. 

Chegamos. Meu cunhado já estava meio verde de tanto nos aguardar no aeroporto, tadinho. Faltava uma hora pro show começar. Confins fica a uma hora de BH. O Mineirão fica a sei lá quanto tempo de onde precisávamos levar as crianças. Olha. Aí começou a segunda parte da emoção. O trânsito. O temporal havia passado, mas a chuva seguia firme e melequenta empatando o bom andamento dos lindos veículos que queriam chegar ao Mineirão. Ou a qualquer lugar na cidade, na real. Por whatsapp recebi os "boletins" de amigos que estavam a caminho do show há horas, presos em engarrafamentos infinitos (eram informações animadoras, tipo "tudo parado"). E nós ainda precisaríamos levar as crianças para a casa de outros amigos antes de seguir para o estádio. Ou seja. 

O que nos salva é que na mesma proporção em que atraio viagens com arremetidas (essa foi a quarta), tenho também amigos que gostam de brincar de anjos da guarda. Minha amiga saiu do conforto da casa dela, numa noite de sexta-feira chuvosa, para encarar o tráfego insuportável e pegar as crianças no meio do caminho e assim aumentar nossas chances de pelo menos ver o bis do show. E assim foi. Entregamos as crianças (Arthur feliz da vida - obrigada pela torcida, seu lindo!), deixamos o carro do cunhado num estacionamento de shopping e pegamos um táxi - não tínhamos mais chance de estacionar no estádio, optamos pelo táxi - já passava das 20h30. Meia hora depois, ainda estávamos no trânsito; por telefone, chegou a notícia: o show tava começando, meia hora depois do previsto, 21h. Próximos ao Mineirão, adivinhem. Tudo parado. Pagamos o táxi e percorremos a pé os últimos metros. Muita gente ainda entrava no estádio, havia alguma fila, mas já estávamos felizes, iríamos ver boa parte do show. Por volta das 21h15, depois de duas arremetidas, uma passada rápida por Vitória, entramos e lá estava Eddie e sua turma e tudo valeu a pena.

Vocês já devem ter lido relatos do show por aí, então nem vou esticar a conversa. Foi tudo aquilo, praticamente três horas de excelente interação com o público, longos recados lidos em português (uma graça), homenagens às vítimas do terrível desastre ambiental de Mariana, lembrança do ataque recente em Paris - com direito a música da Eagles of Death Metal, banda que tocava no Bataclan no dia 13. E, principalmente, muita música boa. Assim: muita. E no fim das contas, foi tudo bom demais. A chuva parou, nós dançamos e celebramos essa banda que já faz coisa boa há mais de vinte anos - e que eu acho a cara do Ulisses. E o Eddie ainda incluiu Black no repertório da noite. \o/

Já perdi coisas mais importantes do que shows de rock por causa do mau tempo em dias de voos meus. De longe piores, sem comparação. Não teria sido o fim do mundo, shit happens. De qualquer maneira, ainda bem, ainda bem, ainda bem que deu. Porque, olha, foi showzaço. 

Cestas e dores


Depois do treino de basquete das crianças hoje pela manhã, fomos ver uma partida do campeonato estadual sub-12, Florianópolis x Criciúma. O time de Floripa estava iluminado e logo abriu uma larga vantagem, para alegria do Arthur que tinha alguns amigos em quadra. Cesta a cesta, a vantagem foi se transformando em lavada e quando, no final do segundo quarto, o placar beirava 50 a zero, comecei a torcer por Criciúma - afinal são crianças e pensei na tristeza dentro do ônibus na volta pra casa, depois os amigos perguntando "e aí?, como foi lá em Floripa?". Bom, eles conseguiram se organizar em quadra e fizeram algumas cestas, ufa. Jogaram um pouco melhor no último quarto, ganharam um tico de confiança, tudo certo. A vitória ainda foi acachapante, 84 a 17, mas não foi de zero, pelo menos. Essa sou eu, pareço que torço pelo basquete, mas torço mesmo é pela alegria. (Avisei ao Arthur: em quadra é outra coisa, sangue nozóio, vai pra cima, etc.) É preciso registrar que no último segundo do jogo um dos menores jogadores de Criciúma lançou a bola do meio da quadra e fez uma liiiinda cesta de três pontos, num daqueles lances que enchem os olhos e o coração de quem gosta de esporte. Coisa. Mais. Linda. :-)

***

Há um mês venho lendo A grande guerra pela civilização - a conquista do Oriente Médio, do jornalista britânico (radicado em Beirute) Robert Fisk. É como um minicurso de História. Cheguei ao final do primeiro terço do livro com a sensação reiterada de que o ser humano está à deriva, pobre pobre humanidade. Devo ter pronunciado a frase "nada pode superar esse horror" cerca de cinco vezes até aqui. Dores à parte, estou saboreando cada página desse tesouro jornalístico. Ainda falta muito para chegar ao fim do livro, mas já recomendo aos berros. Leiamos, todos.

Meme (abandonado) dos livros - dias 07, 08, 09 e 10 ou quase isso

É, amigos, não tá fácil para os blogs. Memes abandonados, posts adiados, tsc tsc. Enfim. Sigamos. Chega de "amanhã eu escrevo" vamos logo resolver isso - ou não.

***

Um livro que mais te ensinou sobre sexo

Não faço a menor ideia. Como disse lá no Face (onde os memes não param), aprendi na prática, hohoho. Mas eis que me lembrei agora das muitas tardes passadas no jardim devorando os volumes das antigas séries de Sabrina, Julia e Bianca, romances receitas-de-bolo com cerca de 200 melosas páginas recheados de encontros, desencontros, cabelos ao vento, amor à primeira vista, corpos bronzeados e quase sexo. As cenas "eróticas" das Sabrinas eram mais insinuações do que descrições, mas a imaginação fazia o resto. Aprendizado ou idealização, tanto faz, não sejamos tão rigorosos... Depois vieram os livros da série Momentos Íntimos, onde a mesma receita
encontros-desencontros-cabelos ao vento-amor à primeira vista-corpos bronzeados-sexo ganhava pitadas generosas de detalhamento. Entre um "sério?!" e outro, bem que "aprendi" uma ou outra coisinha. (Evidentemente, li coisas mais apimentadas depois disso, mas o meme diz "te ensinou", vejam lá.) 

Um livro que faz viajar

Vamos dizer que, em certa medida, todos fazem. Aí vamos dizer que "viajar" aqui é visitar o diferente, o surpreendente; é descolar-se da gente e botar os pés no nunca antes. É nunca mais ser o mesmo, tal qual nos sentimos quando voltamos, desfazemos a mala e nos sabemos novos, expandidos. Vamos então dizer que esse livro é e sempre será Grande Sertão: Veredas. Como escrevi aqui antes: "Foi mesmo como atravessar o Sertão, uma aventura inesquecível."

Um livro pra levar pra praia

A sacola da praia precisa ser leve, os capítulos hão de ser curtos para intercalarmos com os sorvete e o mergulho. Sol combina com sorriso, então sugiro o suculento e refrescante Nu, de botas, do Antonio Prata. Quem foi criança nos anos 80 certamente se esbalda um pouco mais, mas isso não chega a ser uma condição indispensável à diversão. A prosa solta de Prata é uma brisa boa para qualquer geração. Cuidado para não perder a hora e se esquecer do protetor solar.   

E pra terminar, um livro que é um amante...

Ah, essa deliciosa promiscuidade chamada literatura. Quantos amantes cabem em nossas cabeceiras? A imagem da menina sentada na rede, livro no colo, imortalizada no conto de Clarice, se repete ao longo de nossa vida de leitores jamais satisfeitos, eternamente famintos. Amamos, suspiramos, relemos, de novo, de novo, de novo. Um amante como em Felicidade Clandestina, o conto de Clarice, é desejado muito antes de ser possível. Quando ela finalmente o teve, não o leu de imediato, fingia não tê-lo, idealizou-o o mais que pôde. Mas um amante pode surpreender também. Pode nem ser esperado e de repente virar a vida do avesso. Pode revelar prazeres antes inimagináveis. Clarice é tida por muitos como escritora hermética, de viagens absurdas e frases ariscas. Para tantos outros, é a bruxa, a maga que tudo vê. Seu livro de contos Laços de Família me apresentou a ela, e foi como um arrebatamento, um novo amor cheio de fôlego e portas abertas. Faz muito tempo já, mas alguns amantes deixam marcas para sempre.

 

Para Jack


Quando Arthur fez nove anos ganhou do amigo um peixinho Betta de presente. Foi uma dupla alegria: pelo peixe, e por ter vindo de um amigo querido - um lembrete da amizade nadando na sala a qualquer hora do dia. Arthur chamou aquele lindo serzinho vermelhíssimo de Jack. Com o passar dos dias, todos nós o adotamos, o terceiro morador fixo não humano da casa, além dos cachorros Roque e Floquinho (há ainda os hóspedes de temporada, normalmente pássaros e corujas que alugam nossas árvores do jardim). 

As últimas semanas foram estranhas para Jack. Não comia há dias, estava trocando a coloração vermelha por algo pálido e desbotado, passando horas quietinho num cantinho do pensamento do aquário. Conversamos com o moço do petshop, tentamos um tratamento para eventuais fungos ou outras ziquiziras, mas no fundo sabíamos que Jack era um senhor de idade avançada. Hoje ele passou horas buscando um pouco de ar na superfície, nitidamente com muito esforço. Quando as crianças se aproximaram para mais uma tentativa de alimentá-lo, ele certamente percebeu que elas estavam ali e se entregou. Desceu ao fundo do aquário e dormiu para sempre.

Arthur ficou cabisbaixo, Amanda, inconsolável. Deixamos que ela ficasse ali perto do aquário pelo tempo que precisou para aceitar a ideia, depois colocamos nosso peixinho numa caixinha e enterramos no jardim, sob sementes de florzinhas cujo nome desconheço. Arthur escolheu flores brancas, Amanda preferiu as vermelhas como o Jack. Espero que cresçam, porque foi esse meu mote de consolo para eles. Jack alimentará as florzinhas.

Nem foi nosso primeiro Betta, mas foi certamente o primeiro com quem as crianças se envolveram de verdade. Blue, que ficou conosco apenas poucos meses, passou rápido por nossas vidas, não criou os mesmos laços que Jack, que sempre espiava nossas refeições ali da bancada ao lado da mesa com aquela cara de professor de história. Agora vai lá, seguir mais uma fase de sua jornada de pozinho de estrela.

*** 

E como a vida é engraçada demais, Amanda havia pedido de presente de dia da criança... um peixe. Queria um amigo para o Jack. Ontem comprei o amigo com seu próprio aquário. Hoje ela acordou ansiosa e logo descobriu a novidade. Chamou-o de Coral e colocou o aquário ao lado do de Jack. Horas depois Jack se despediu. Coral é bem menor que Jack, numa mistura de bege e laranja, lindinho. Como goza de boa saúde, nada o tempo todo, se aproxima de quem o chama, tal como Jack fazia. A gente não vai fugir dos riscos. A gente vai se apegar de novo. Porque sim.

Jack, obrigada. Um beijo, de todos nós. 

Meme dos livros - Dias 05 e 06


Um livro que te trouxe um olhar novo sobre a vida

A rigor, todo bom livro altera um pouco nossa relação com o mundo, nem que seja acrescentando um pouco mais de poesia ou uma pitada de revolta. Mesmo quando não vamos tão longe a ponto de alterarmos nosso "olhar sobre a vida", não acho exagero falarmos do "poder transformador" da leitura. 

Honestamente neste momento não me ocorre um livro que tenha alterado de uma só tacada minha visão de mundo, mas a lista dos que abrem meus horizontes todos os dias é quase tão longa quanto a lista de livros lidos desde a infância. (Na verdade, o sumo da honestidade para esta categoria do meme seria: o primeiro livro, foi esse o que trouxe um novo olhar.) Minha memória recente, no entanto, destaca um que, se não mudou minha visão de mundo (e não mudou), realçou ainda mais alguns de meus deslumbres mais profundos. Estou burlando as regras, eu sei, mas o que posso fazer se comigo as mudanças não se dão em uma só leitura? A mudança aqui é: de interessada pelo assunto para fascinada por ele. Vale? Falei dele recentemente por aqui, Assim caminhou a humanidade, organizado por W.A. Neves, M.J.R. Júnior e R.S.S. Murrieta. Cabe perfeitamente na categoria "livros com potencial para trazer um novo olhar sobre  a vida". Não foi meu caso, porque o Darwin há muito me deslumbra, mas certamente acrescentou doses generosas de encantamento pela ciência. Leiam.

***

E como me atrasei, já vamos direto ao dia 06.

***

Um livro que você levou até o final só de teimosia
 
O meme está bombando no Face e várias pessoas mencionaram o Código da Vinci, do Dan Brown, nesta categoria. Discordando com força, digo que me diverti horrores lendo Código, mas trago o mesmo autor para a classe da teimosia. Por causa de Código da Vinci, fui à cata dos outros títulos do Brown e posso dizer que teimei mais quatro vezes. Com exceção de Anjos e Demônios, que ainda considerei mais ou menos, os outros foram dureza. Mas li. Podem escolher: Ponto de Impacto, outro cujo título me esqueci e o péssimo Símbolo Perdido - eis meu eleito para o meme. Com Símbolo me rendi e nunca li Inferno, mas posso dizer que, olha, fui teimosa. 

Meme dos livros - Dia 04


Um livro que você indicaria pra um novo amigo

Talvez esta seja a categoria mais festiva do meme. Quase fiz um sorteio. 

Porém calhou de agorinha mesmo eu ter terminado a leitura de Espere a Primavera, Bandini. Um novo amigo receberia de mim a indicação: ah, leia logo, leia agora, é maravilhoso, seguido de mais uma daquelas frases que, se não nos fazem perder o amigo, convencem: você vai adorar, sei que vai, ande, leia. 

No início, eu queria Pergunte ao Pó, o celebrado clássico de Fante. Na livraria, comprei antes A irmandade da uva, minha porta de entrada à sua escrita. Depois, bem no início deste ano, finalmente li Pergunte ao Pó e conheci o protagonista Arturo Bandini, o escritor angustiado, perdido, genial, meio marginal. Há uns dois meses, li os contos de Vinho da Juventude e aí, pronto, achei meu Fante favorito, o que escreve sobre a infância. Vinho foi meu Fante campeão até semana passada. Espere a Primavera, Bandini tomou o topo do pódio. 

Então, aos novos amigos ou amigas diria: leiam Fante; comecem por Espere a Primavera e conheçam a infância de Arturo Bandini. Depois vejam no que ele se transformou em Pergunte ao Pó. De volta ao universo da infância, deleitem-se com Vinho da Juventude. Se quiserem conhecer o livro que Fante publicou depois de duas décadas sem escrever, leiam Irmandade da uva. (Todos os livros de Fante que li foram publicados pela Ed. José Olympio, em tradução de Roberto Mugiatti.) 

Depois, tomando um café ou um vinho, eu e o novo amigo/amiga trocaríamos ideias e diríamos coisas como aff, como escrevia aquele Fante, hein. Desgraçado.

 ***

Este post é dedicado a Tina Lopes, que também está participando do meme no blog chamado... Pergunte ao Pixel. Foi Tina quem primeiro me fez curiosa em relação a Fante. Sou grata a ela por simplesmente ter falado dele e me deixado curiosa. Encaro como um presente de amiga, dos bons.

Meme dos Livros - Dia 03


Um livro que é um soco no estômago

Já levei alguns "socos" de livros. Vasculhando a memória para o meme me lembrei de alguns lidos há muitos anos, como Brasil: nunca mais, ou há nem tanto tempo, como Half of a yellow sun - livros com leitura dolorosa, com paradas necessárias para fechar os olhos, lamentar. Acho, porém, que o soco mais recente veio de É isto um homem, de Primo Levi, pelas razões que citei no post que escrevi quando acabei o livro.


Cito aqui, mas sigo na mesma postura: nem sei se indico. Como escrevi antes:
 
'Dizer "leia" é quase como dizer "fique triste". Como fazê-lo? Diferente de ler sobre batalhas de campo, operações de inteligência militar, acordos políticos ou mesmo o relato singular de Anne Frank, qualquer coisa sobre a Segunda Guerra, diferente de ler tudo isso, ler as memórias de guerra de um sobrevivente de Auschwitz é ver a guerra de seu pior ângulo. É desolador.' 

Um baita soco, indeed.

Meme dos Livros - Dia 02


Um livro que devia ser filme


Livro é livro, filme é filme, mãe é mãe, a gente sabe. Mas quem resiste? E quando a história quase salta das páginas e dança na nossa frente como sonho dirigido por Nolan? Por que não aplaudir um Leo DiCaprio na pele daquele personagem incrível que nos acompanhou por dias ou semanas no sofá, na espera do consultório médico, na fila do pão, por que não? Pois. 

Bem que eu acho que iria me encolher na sala do cinema, lencinho na mão, nariz ruidoso, enquanto Anna cuidava do pequeno Janeczek em Porto Alegre, aquela espera longa e dolorida pelo retorno de Jan. As cenas seriam lentas, talvez, um ambiente meio dark, um foco no recanto da sala, um pequeno contraste na réstia de sol; em seguida, tomadas externas do quintal quente, Anna esperando, com medo. Seriam as cenas para a gente recobrar o fôlego entre uma e outra batalha testemunhada por Jan, as fugas relembradas por ele. Um pouco Porto, um pouco a Polônia sitiada, rasgada, invadida. Tenho cá pra mim que Uma Ponte para Terebin ficaria lindo na telona. Não seria a primeira vez que Leticia Wierzchowski teria sua obra em outros planos, ela que nos deu A Casa das Sete Mulheres. Taí, eu queria ver Terebin no cinema, tem tudo pra ser lindo. Livro querido, que li com o coração.

(Hum, poderia ter Chopin na trilha, por que não? Ele também viu sua Polônia sangrar, também chorou e fugiu... só dando ideia, Nolan, vamos conversar.)


Meme dos Livros - Dia 1



Um livro que é um abraço

A resposta ao primeiro dia de desafio foi instantânea: A sociedade literária e a torta de casca de batata, de Mary Ann Shaffer. A primeira coisa que fiz ao começar este pequeno post foi revisitar o que escrevi sobre esse livrinho precioso há pouco mais de um mês, quando o li. E eis que encerrei assim aquele post:


"Às vezes a literatura nos engrandece com obras que praticamente nos desnudam e nos definem. Há obras que nos divertem, há as que nos ensinam e revelam tanto. E há os pequenos abraços, que podem vir em formato de um livrinho que mais parece uma caixinha de cartas velhas. Às vezes, é só deles que precisamos." 

Porque foi mesmo assim que me senti lendo as cartas, telegramas e bilhetes que compõem a história de Sociedade Literária, abraçada. Um livro carinhoso sobre a guerra, com foco no que não sucumbiu ao terror: a humanidade dos personagens, a capacidade de enxergar de verdade a dor do outro e em seguida transformar o olhar em afago. A capacidade de entender o significado da ausência, das perdas. Sociedade é um livro sobre uma ilha ocupada pelos nazistas e sobre alguns habitantes dessa ilha, ocupados pelo amor ao próximo. Uma história sobre a descoberta da literatura, também, mas muito mais do que isso, sobre a descoberta do poder da empatia. 

Para ler como quem corria para o portão, recebia aquela carta tão esperada e, finda a leitura, fechava os olhos e apertava o papel junto ao peito, num abraço de corpo e palavras.

Ácaros, temei!


No melhor estilo naftalina de ser, Renata Lins cantou a bola e a Luciana ressuscitou uma brincadeira boa dos tempos em que a gente vivia a navegar pelos blogs. Não que eu tenha deixado de lê-los (como poderia, enquanto há blogueiras como a Fal?), longe disso. Mas é inegável, sei lá se para o bem ou para o mal (talvez para os dois), que o Facebook sugou muito da energia que abastecia inúmeros blogs. Pois bem, vamos sacudir os ácaros esta semana. Quem quiser, é só chegar: vasculhe a memória, espane a estante e, entre um espirro e outro, consulte o google ou o sebo mais próximo. Meme de livros, oba! \o/ 

A ideia era brincar por uma semana, mas a Luciana é espaçosa, numa semana não cabe. O ~desafio~ é:


  1. Um livro que é um abraço
  2. Um livro que devia ser filme
  3. Um livro que é um soco no estômago
  4. Um livro que você indicaria pra um novo amigo
  5. Um livro que te trouxe um olhar novo sobre a vida
  6. Um livro que você levou até o final só de teimosia
  7. Um livro que mais te ensinou sobre sexo
  8. Um livro que faz viajar
  9. Um livro pra levar pra praia
  10. E pra terminar, um livro que é um amante...
***
Um livro por dia. Como é comum escrever posts sobre minhas leituras, os leitores usuais do blog vão ouvir ecos de postagens recentes, certamente. Mas eu quis brincar mesmo assim. Começamos amanhã, terça, dia 06/10.

Quem topou tirar o pó dos blogs, por enquanto: a Niara (Pimenta com Limão), a Renata Lins (Chopinho Feminino), a Tina (Pergunte ao Pixel), a Renata Lima (Agruras e Delícias) e a própria Lu, claro (Borboletas nos Olhos). Vamos? 
 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }