Em estado de férias


Voltar de uma viagem de férias e ainda ter uns dias de folga antes de retomar o trabalho é um pedaço do céu. Ter tempo para desarrumar as malas sem alvoroço, recuperar o corpo do voo noturno (até durmo bem em aviões, mas dessa vez não deu), curtir a casa. Com as crianças de férias e o Natal batendo na porta, esses dias em casa têm tido um saborzinho bem bom. 

Passamos pouco mais de uma semana no Nordeste, mergulhados no verão de verdade - o de Florianópolis tem tido cara de outono esta semana, com dias frios de vento forte anunciando chuva. Fico feliz por termos aproveitado bem nossos dias de praia em João Pessoa. Aliás, quase tudo em nossa viagem foi impecável, não sei como vou me recuperar de tanto paparico. Fomos recebidos com muito carinho, os mimos não paravam de nos cercar. Todo desejo gastronômico era prontamente atendido, comemos como reis. Matei saudades da minha canjica - e nem era junho; as crianças tiveram o suco, o sorvete e o feijão que preferem; Ulisses piscava e o copo de cerveja surgia em sua mão, o queijo de coalho assado aparecia do nada em seu prato, o peixe que só o pai dele sabe preparar nos esperava na volta da praia... E nem vou falar das mangas. As mangas do Nordeste (vou falar) são, anotem, as mais doces, mais carnudas, mais mangas que todas as mangas do universo. E eu, amigos, me esbaldei.

Mas eu disse que quase tudo foi impecável. Porque faltou tempo. Conheço gente querida demais por aquelas bandas, visitar João Pessoa e Campina Grande com pouco tempo é realmente um pecado. Volto pra casa sentindo mais saudades de gente que não consegui ver. :-(

***

Vou à minha cidade e visito túmulos. A mesma vida de dias azuis e mar de águas mornas é a da saudade e das conversas que nunca terei.

***

As crianças ganharam instrumentos musicais de presentes da tia: uma guitarra para  a Amanda, um violão para o Arthur. Não sei se vão tocar tanto quando aprenderem quanto têm tocado agora que acabaram de ganhar. O fato é que já temos algumas composições inéditas - hohoho - e acho que de estilo eles estão indo muito bem. ;-)

***  

Meu sobrinho é lindo e muito, muito querido.

***

Voltar das férias de dezembro de 2014 sonhando com as férias de janeiro de 2015, trabalhamos. Estou em estado de graça, mas disso falo em breve. Antes, quero que saibam que mando daqui todos os bons pensamentos de um Natal cheio de risadas, amigos e boas comidinhas. Com a ajuda da Amanda, já providenciei as sobremesas de amanhã. Nham! Boas festas, pra quem é de festas; bom descanso pra quem quer se recolher. Do jeito que for, que seja bom. Feliz Natal!



De: _________ Para: _________


Uma das coisas bacanas da infância é a alegria besta, daquela com gargalhadas emboladas, por causa de coisas pequenininhas. Hoje botei alguns presentes no pé da árvore, onde ficarão até a noite de Natal. É um pouco torturante, reconheço. Uma tentação sem fim, coitadas das crianças. Olham, salivam, pegam, balançam, pedem pra abrir "um só", e eu, carrasca, digo nananina-ninanão. Reconhecendo as embalagens da livraria, Arthur implora pra abrir pelo menos os livros, mas Ulisses insiste que aquilo é na verdade uma vara de pescar, não é livro coisa nenhuma.

Só que não é da alegria de ver os presentes que estou falando, mas das etiquetas. Hoje quando fui preencher as etiquetinhas "de... para...", substituí o "papai e mamãe" por personagens habitantes do imaginário deles. Arthur adorou ver que há um presente para ele vindo de ninguém menos que Harry Potter himself! Morreu de rir ao ver que o Martin McFly, do recém-visto e adorado Back to the Future, também lhe mandou um presente de Natal. Amanda foi lembrada por Elsa e Olaf. Ao ver a etiqueta "De Coelhinho da Páscoa Para Arthur", então, ele me lançou o melhor dos olhares: 

- Ai, mãe, aí você forçou, hein? Agora só falta a Fada do Dente me trazer um presente de Natal.

Fui logo dizendo que não tenho nada a ver com isso, apenas ia passando na rua e me pediram pra trazer essas encomendas e coisa e tal. Foi mais divertido do que abrir os presentes. Adorei e recomendo. ;-)

***

A & A: Eu quis contar aqui pra vocês dois lerem no futuro, caso se esqueçam. Porque foi divertido demais, demais. 

Do que fica


Às vezes acho que a gente cria "coincidências", inventando convergências para dar mais sabor a coisas sem qualquer parentesco ou semelhança. Como quando dizemos: olha, que coincidência, você me beijou pela primeira vez no dia em que fazia três anos que eu tinha passado no vestibular! Pois. Um jeitinho bobo de dar mais graça a eventos desconexos, mas com importância suficiente para querermos alçá-los à categoria "coisas incríveis".

No ano passado, a editora entregou os primeiros exemplares de Contos do Poente no dia 09 de dezembro. O carro do correio chegou no final da manhã. Era o dia em que eu revivia pela terceira vez a cronologia de seu último dia na Terra. A cada dezembro agora é assim. É bem verdade que penso muitas vezes nos momentos que antecederam sua partida em dias aleatórios ao longo do ano, em momentos absolutamente inesperados em qualquer estação, seja enquanto redijo um documento no trabalho, dou boa noite ao Arthur ou escolho tomates no mercado. Mas a cada 09 de dezembro a folhinha do calendário fica mais pesada, e o peito também. Nem sou tão ligada em datas, você bem sabia, mas o dia 09 de cada dezembro me traz você grande de novo. Então amanheço sabendo que eu tomaria café e iria à UTI para o horário das visitas e que eu conversaria com você como se você pudesse me ouvir. E que, momentos depois de eu sair, o hospital nos telefonaria e nós regressaríamos para lá absolutamente perdidos. E que o mundo seguiria girando no espaço, meus olhos arregalados, minhas mãos oscilando à procura das suas tantas vezes, meus filhos crescendo, a vida seguindo, você em mim.

Chega o dia 09 de dezembro de novo e me lembro de que no ano passado o carteiro me entregou os livros do lançamento e eu pensei "bem na hora em que mamãe se foi", como se existisse qualquer relação entre o horário do carteiro e a última batida do seu coração cansado. Uma invençãozinha para permitir importância a qualquer outra coisa no dia nove que não seja o fato de que você não podia mais.  

Em poucos dias irei à nossa antiga casa ouvir os ecos de minha infância. Vou de ouvidos bem abertos, com uma canção no coração. Aprendi que o amor fica. 

Bryson, o tempo e o Escorpião


Antes de ontem à noite estiquei o braço e alcancei a prateleira mais alta da estante, mas não a mais bagunçada, onde estava meu exemplar de Breve História de Quase Tudo, iria emprestar a uma amiga. Levei o livro para meu quarto onde cada membro da família lia ou teclava alguma coisa. Arthur me perguntou que livro era aquele, falei do que se tratava e disse que, olha, você bem que poderia dar uma olhada, acho que você ia gostar e tal. Ele abriu e viu, na primeira página, nossos nomes escritos com minha caligrafia: "Rita, Ulisses e Arthur, 2006". Mostrou à irmã:

- Olha, Amanda, seu nome não está aqui.

A carinha que ela fez cortaria mil corações. E me olhou, inquisidora. Arthur esclareceu:

- Você ainda não tinha nascido quando a mamãe comprou esse livro, né?!
- Você meio que já existia no coração dela - acrescentou o pai, idealizando só um pouco.

Aparentemente, a explicação não foi suficiente. A cara dela não melhorou muito, a recusa em visualizar um tempo em que não estava ali, naquela cama, em nossa muvuca de fim de dia. Aí me dei conta de que Bill Bryson entrou na minha vida antes da Amanda, o que pode entrar para o rol das comprovações da relatividade do tempo. Porque Amanda é mais espaçosa do que o Bill, parece que está aqui há mais tempo do que consigo medir, mesmo levando em conta todos os bons momentos que a escrita dele me dá.

No dia seguinte minha amiga elogiou a edição toda linda, levou o livro pra casa e sugeriu que eu acrescentasse ali, ao lado dos três nomes, um coraçãozinho planejando a Amanda que viria no ano seguinte. Vejam vocês o cordão do puxa-sacos da minha filha.

Enquanto isso, ainda leio Little Women, atrasada, meio fora de tempo. Uma leitura que deveria ter sido feita aos 15 anos, talvez. Mas sigo lendo, meio curiosa, que o tempo é elástico e a menina que fui ainda está aqui. O que não me impede de sugerir ao Ulisses, assim, meio sem querer, que, olha, em alguma época dessas aí em que o povo costuma dar presentes... sabe, não tenho todos os livros do Bryson e tal. Ele mal me escuta, anda com a cara enfiada em Dezoito de Escorpião, livro que lhe dei no aniversário depois de mendigar sugestões de histórias scifi aos amigos. Parece que a sugestão foi das melhores, posto que falo com meu marido e ele nem mais responde, vão vendo. Vou ali fazer uma lista de coisas com as quais quero que ele concorde e ouvir um "tá" desinteressado. Tipo livros do Bryson.
 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }