Da poesia de vocês


Futebol só passa pela minha vida a cada quatro anos. Acho um dos esportes mais apagadinhos nas Olimpíadas, sem a graça da ginástica ou a emoção ponto a ponto do vôlei. Não torço por nenhum time, não sei de nada dos campeonatos estaduais ou nacionais, quem joga onde, que time comprou quem. Não conheço as caras dos jogadores, não sabia mais do que dois nomes da seleção brasileira no dia do primeiro jogo, contra a Croácia. 

Aí a Copa começa, futebol fica bonito como ginástica e vejo até Irã e Nigéria. E acho lindo de ver a Holanda, vibro com a Argélia (vai, Argélia!), dou pitaco nos impedimentos, visto camisa, grito, torço - e, principalmente, fico boba com vocês que têm um time de coração e sofrem todo ano, meu, vocês são de ferro. Porque, olha, não dou conta. Sou candidata a pior torcedora de todos os tempos. 

Torço por esse time aí, o Brasil. E torço por vários outros, com menor grau de envolvimento. Observo cada lance se o jogo estiver interessante e o Brasil não estiver em campo. Com a seleção brasileira é um pouquinho diferente. Sempre acho que tudo vai dar absolutamente errado, nunca boto fé. Basta o adversário cobrar um tiro de meta e já vejo a jogada deles se desenrolando toda linda e trazendo perigo. Vejo gols toda hora. Antes de começar o jogo, tenho certeza - assim, certeza - de que vamos perder. E é assim quando tudo vai bem; agora imaginem quando o Brasil joga do jeito que jogou hoje, completamente desorganizado, com uma arbitragem atrapalhando ainda mais a nossa vida e com jogadores apagados, errando tudo tudo tudo. 

Vejo muito pouco do que joga o time adversário. Quando eles pegam na bola, escolho uma das opções:

a) fecho os olhos
b) vou ao banheiro
c) vou buscar água/vinho/cerveja/suco para alguma visita
d) vou ver o que as crianças estão fazendo
e) vou olhar o mundo lá fora
f) me escondo atrás de alguém
g) etc

Sou a covarde. Os amigos me ajudam, gritam "vem, Rita" quando o Brasil recupera a bola. Mas hoje recuperar a bola significava passar aperto, anyway. Ou seja, contra a Colômbia, na sexta, tenho certeza de que vamos perder. Assim, certeza. A possível boa notícia é que o sufoco de hoje talvez tenha me vacinado. Não vou esperar mais nada do próximo jogo, pelo menos até o início da partida. ;-)

***

Vaiar o hino do país cuja seleção é sua adversária é tosco. É de uma grosseria tamanha, mesmo que você ache que o hino não tem importância alguma. Na boa, é podre.

***

Decisão por pênalti é requinte de crueldade. Sinto pena de todo mundo: do cara que erra e do goleiro que toma o gol. Optei por não olhar para a cara do chileno que perdeu o último. Na boa, povo, como vocês dão conta de passar por isso todo ano, sofrendo pelos times de vocês todo final de semana? Socorro.

***

Um lado de mim se encanta e entende tudo, esse amor aí de vocês. Sei do poder que o futebol tem para tantos povos, tantas infâncias. É lindo o drible, a bola matada no peito, o passe preciso, o balé dos goleiros. Há poesia no menino de vinte e poucos anos que faz malabarismos com a bola no pé e levanta a multidão na arquibancada. Não é meu mundo, não quero os campeonatos, mas acho que vocês sabem mais do que eu. Fico com a avalanche de adrenalina a cada quatro anos, escolhendo outra seleção para torcer se o Brasil sucumbir, vibrando com as pinturas dos craques e das torcidas na tela da TV. Tá de bom tamanho, tá bem grande.

***

A rodinha de amigos trocando passes no meio da sala durante Colômbia e Uruguai poderia ser todo ano, dou conta disso aí (sem bolas aéreas, para evitar acidentes, sabe como é).

***

E tem também a rodinha de amigos na internet. O twitter e facebook me dão mais saúde com tantas gargalhadas. As melhores mesas redondas, os melhores especialistas de boteco e os melhores técnicos estão nas minhas TLs. Isso pode ser sempre, dou conta também. 



Numa noite igual a esta


Minha noite não tem fogueira, nem forró ou canjica. Não há cheiro de fumaça no bairro, não ouvi Gonzagão, não arrastei o pé. Os amigos vieram ver o jogo, trouxeram bolo e papo, gritamos gol, as crianças fizeram criancices, nem fiquei melancólica. Houve uma vez um São João, barraquinhas e muvuca, não agora. Amanhã não é feriado no sul do país, vou trabalhar sem ressaca ou pés doloridos porque não vou passar a noite dançando. Mas lá num cantinho do espelho vejo as tranças, o vestido, o arraial. E o sorriso vem com as voltas dos dançarinos de quadrilha e mais ainda com as voltas que o mundo dá. Não há de ser nada. Vou olhar pro céu, meu amor, mesmo assim. E daqui vou sorrir por saber quão linda a festa deve estar.

Feliz São João, meu Nordeste querido. 

20, 10, 42


Mais medrosa.
Mais corajosa. 
Mais tolerante?
Menos paciente diante dos intolerantes.
Lendo mais. Escrevendo e apagando. Lendo de novo. Alimentando gavetas.
Dançando muito menos, que pena.
Vivendo a maternidade como uma fonte infinita de medos, alegrias e aprendizado.
Ouvindo mais.
Tentando falar menos, juro.
Pedalando um tiquinho.
Sentindo tanta saudade. 
Achando que a vida ainda vai trazer tanto.
De mãos dadas com ele.
Pedindo colo.
Feliz pelos meus filhos, para muito além de qualquer dogma ou clichê que ronde a maternidade. 
Gostando muito de ficar em casa.
Colecionando perguntas.
Desconfiando de quem sabe todas as respostas.
Tomando mais vinho do que gostaria a minha nutricionista.
Achando que o Freud explica.
Engordando planos, esses lindos que me levam por aí em balões coloridos.

Chego assim aos 42. Meu queixo continua caindo de vez em quando, meu peito abriga saltos ornamentais e minha capacidade de deslumbramento segue aparentemente infinita. Ou seja, a mesma menina, só que de cabelos pintados.

(Chego também comemorando o fato de que há 20 anos conheci o Ulisses, há dez passamos a viver juntos; e há dois minutos, ou ontem e também antes de ontem, e no mês passado, e há 75 dias, várias e muitas vezes, nos olhamos e tivemos a mesma certeza.)


***

Bato na porta do quarto dela e entro sem fazer muito barulho para não atrapalhar a brincadeira do momento. Ela nunca percebe, distraída de tudo, afogada na fantasia. Sussurro pertinho dela que seria assim seu mundo lá na frente, ela nem ouve. Não faz diferença, ela não acreditaria. Mas sempre insisto: volto lá e conto tudo para a garota que fui. Não para mudar os passos, não - afinal, foram eles que me trouxeram aqui, ao que sou, com cada susto. É apenas para vê-la, quem sabe, nem que fosse por um segundo, abrindo um olhão arregalado de euforia. Ia ser engraçado. 

O motivo


Tem o feriado, mas não é por isso. O Chile ganhou da Espanha, mas também não é esse o motivo. Alguém diria que é porque gosto de chuva e hoje a chuva voltou com seu tamborilado na janela, mas não, não; é outra coisa. Também há que se levar em conta que hoje li uma reportagem sobre uma manifestação de rua gigante em que aparentemente não houve violência policial - um oásis, praticamente, mas confesso que não é por isso, não. As crianças andam especialmente amorosas e generosas nos abraços, como se estivessem me dando colo toda hora, mas... não. Nem é porque consegui acertar aquela sequência no piano, nem porque o livro que estou lendo é absolutamente envolvente. Também não. Nada disso explica essa minha cara ou esse calorzinho no peito. É só porque você tá voltando pra casa.

Beleza, por que moras na tristeza?


"As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. 
Usamo-las por pura ilusão."
(pai de Halla e Sigridur)

Muito, muito tempo atrás, na semana passada, quando a Copa ainda não havia começado, terminei de ler A Desumanização, de Valter Hugo Mãe (Ed. Cosac Naify). E já se passaram eras, mas ainda me lembro que minha leitura foi picadinha em muitos lotes de poucas páginas, porque a rotina andava - e ainda anda - meio congestionada. Durante algumas semanas, o livro me serviu de escape do engarrafamento de horários apertados. E foram bons escapes, pequenas doses de ei, a poesia está aqui, pode respirar. A história que a menina Halla conta tem aquela tristeza larga causada pelas grandes perdas, mas tem também o afago do olhar igualmente largo de quem pressente as funduras do mundo. O cenário de fiordes e fendas infinitas da Islândia me pareceu costurado sob medida para os conflitos dos personagens do livro: há os penhascos das saudades, os ecos dos desejos, os mundos vastos, dentro e fora de nós.

A relação de Halla com sua irmã gêmea morta, Sigridur, permeia a narrativa com delicadeza, mas também com certo grau de crueza. A ideia da morte sempre trazida pela imagem da irmã enterrada - não por imagens etéreas de almas ou espíritos - coloca o leitor cara a cara com a dor de uma menina que percebe que algumas estradas são mesmo muito áridas: a semente não germinaria, sua irmã não viraria flor; tampouco o mundo seguiria o imaginário que criaram juntas enquanto partilharam a infância. É a lembrança de Sigridur, do lado de lá da vida, que, em certa medida, abre espaço para o crescimento de Halla, para suas rupturas e reencontros, inclusive com a morte, e a descoberta das alternativas mais inesperadas.

O texto de Hugo Mãe é a história que Halla vê e conta, mas é também um sensível relato dos dramas da linguagem (desde que Benedito Nunes nomeou seu livro sobre a obra de Clarice "O Drama da Linguagem", nenhuma expressão melhor me ocorre para falar do eterno jogo de esconde-esconde que é o reino doido das palavras; mas divago). Cabe principalmente ao pai de Halla (pelo menos em minha leitura) dar voz a esse conflito tão angustiante quanto inspirador. É ele, o pai poeta, quem escuta a filha e dá a ela palavras de presente. ("O meu pai põe palavras nas mãos e elas começam a piar e são iguais às andorinhas.") E enquanto fala da linguagem, Hugo Mãe a manipula como um artesão talentoso, com cuidado e sabedoria, e com reverência pela sua arte. Um tesourinho de livro. Triste como um adeus, mas lindo, lindo.


Suspension of disbelief (ou: a Copa)


Eu me lembro com muita nitidez de euforia que cercou a Copa do Mundo de 1982. Não seria capaz de recitar a escalação da seleção brasileira, porque minha relação superficial com futebol não abre espaço entre meus neurônios para tal façanha; mas eu me lembro do Sócrates, do Zico, do Falcão, do Júnior. Acho que o goleiro se chamava Valdir Peres. E me lembro muito bem do nome Paolo Rossi, o jogador italiano que acabou com nossa alegria com três gols em uma única partida. Eu tinha 10 anos e me lembro da sequência dos gols no 3x2 que nos eliminou na copa da Espanha: Paolo Rossi, Sócrates, Paolo Rossi, Falcão, Paolo Rossi. Eu me lembro que enquanto chorava no quarto senti um pouco de culpa porque eu achava o Paolo Rossi bonito. :-)

Naqueles tempos, minha mãe fazia lanche, empurrava as cadeiras para caber mais gente, abria a porta da casa para parentes e amigos. Jogo da copa? Lá em casa. Eu ganhava camiseta e bandeira. O vinil do Luiz Ayrão tocava sem parar. Até hoje, como bem me fez lembrar a Renata Lins outro dia no Facebook, a canção do canarinho de mala e viola na Espanha me aperta o peito. Não pela seleção - esse choro foi todo naquele dia; mas pela aura que a música me traz: minha casa cheia, a festa organizada por minha mãe, a alegria um tanto ingênua que o esporte nos proporciona.

Em 1986, a festa de meus 14 anos seria depois do jogo do Brasil. Mas Zico perdeu o pênalti durante o tempo regulamentar, e a seleção perdeu a disputa por pênaltis que se seguiu. Fiquei ali com os presentes, vendo os amigos irem embora cabisbaixos, a mesa de lanche um pouco remexida, meu aniversário estragado.

Ainda demoraria duas copas para sermos tetra e outras duas para chegarmos ao penta, mas nenhuma das copas que se seguiram às da década de 80 habita minhas lembranças com tanta nitidez. Com exceção da celebração pela classificação para a final em 1994, quando conversei com Ulisses pela primeira vez, e da divertida experiência de ver um jogo do Brasil na copa da França, as copas mais recentes são coadjuvantes. Mal me lembro onde foi a copa de 2006. De onde deduzo que a competição passa, ficam as lembranças do festerê e do chororô. 

Vai começar o único momento em que olho para campos de futebol. Meu filho tem 9 anos, será talvez a primeira copa da qual se lembrará no futuro. Minha mãe não abrirá a casa, não conheço "a música da copa" (há uma?) e acho que consigo dizer o nome de uns quatro jogadores, no máximo. Suspeito, contudo, que, quando a bola rolar, vou reviver um pouco a suspension of disbelief que copas e olimpíadas sempre me trouxeram. Talvez não com a mesma empolgação, mas em algum lugar do meu vasto mundo invisível espero encontrar aquela menina chorando com culpa no quarto. Os tempos são outros e a festa agora tem outros barulhos. Mas vou convidá-la pra brincar de novo, vamos ver se ela aceita.

***

Em alguns aspectos, #nãovaitercopa. Sobre isso, a Camila se expressou lindamente, pra variar.


Um amor


Nossa relação tem sido assimétrica desde o princípio. Como se ele tivesse percebido de imediato, no primeiro momento em que me coloquei em sua frente, que ele estava a anos-luz de mim. Para o bem ou para o mal, ele mantém-se impassível, elegante, classudo, fazendo sua parte para me manter o mais confortável possível. Nós dois sabemos, contudo, que ele deve ter percebido desde o início. A frase clássica, caso ele se permitisse tais arroubos simplórios, seria "sou muito areia pro seu caminhãozinho, querida, get a life". Desnecessário ressaltar que ele jamais expressou qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, admito que os pontos altos em nosso relacionamento são mérito dele, a mim cabendo as teimosias, os arroubos, os momentos de desânimo, a falta de noção. Ele, sempre generoso, me oferta harmonia, possibilidades, crescimento. Eu tento receber. Há quem diga que um amor assim não pode render bons frutos. Como manter minha autoestima se é evidente que jamais serei digna de ostentá-lo como companheiro à altura? Como não sucumbir quando é preciso reconhecer minhas limitações em contraste à sua beleza, seu potencial, ao impacto que ele sempre causa no ambiente onde está? Sequer tenho coragem de ficar ao seu lado em público, certa do absurdo. Sei que não é sua intenção, mas preciso admitir que ele me humilha. Eu insisto, mas há dias em que ele se revela em toda sua complexidade, expondo minha pequeneza, minha falta de talento. Acontece que já estou nessa relação há tempo suficiente para saber que não se trata de uma paixonite. É uma forma qualquer de amor.  E por isso me nego o recolhimento e opto pelo prazer possível. Vai ser assim, eterno enquanto durar, o piano e eu, numa relação aparentemente impossível, com uma dor que me enche de alegria em cada tentativa. Vejam vocês que não há mesmo razão nas coisas feitas pelo coração. 

Junina



"Não se admire se um dia 
um beija-flor invadir
A porta da sua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai, que saudade d'ocê.
(...)
E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Ocê caía no choro
Eu chorando pela estrada
Mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é d'ocê"


A festa junina da escola das crianças foi regada a chuva e vento frio, num dia que me lembrou demais os junhos de minha adolescência. Em anos bons, chovia nessa época do ano. Ainda que as noites frias não fossem tão frias como as deste sul por onde ando agora, o clima mais ameno contribuía para o charme de nossas quadrilhas coloridas. Ando saudosa. Eu aceito o pinhão que me servem aqui e tenho carinho pelas tradições que forjam agora o que será a memória de meus filhos depois. No entanto, o mês de junho é sem dúvida o período do ano em que minha pele forasteira mais se arrepia. A maior parte das canções nas apresentações de hoje eram sertanejas e não fazem soar sino algum em minha cabeça. Mas aqui e ali escapa um forró ou cantiga dos quintais nordestinos, e olhar pro céu, meu amor, e ver aquele balão multicor ainda traz água aos meus olhos. Sou como o viajante choramingando pela estrada, meus pensamentos beijando os junhos do Nordeste.

***

Amanda queria saber o que significa "paralelo". Desenhei duas retas paralelas e expliquei do jeito que deu. A certa altura, falei:

- Se você prolongar essa daqui atéééééé o infinito, e fizer a mesma coisa com essa daqui, atéééééé o infinito, elas nunca vão se encontrar.

Depois tentei tornar a coisa mais concreta:

- A gente usa muito essa palavra pra falar de ruas. Tipo [desenhei duas ruas paralelas]: se sua casa é aqui, e sua escola é nessa outra rua, você pode dizer que sua casa fica na rua paralela à rua da escola!
- Mas aí eu nunca vou chegar na escola!!

Verdade. :-/

Lá na lua



Amanda, 6 anos, tentando ajudar o irmão de 9 a superar uma pequena tristeza passageira:

- Naquele dia que eu tava chateada também, sabe, naquele dia? Então, pra esquecer eu pensava que tava chupando um cupcake de chiclete!! E aí eu fazia uma bola enooooorme e voava, ela ficava imensa, ia lá na lua. 
- E você se sentia melhor, Amanda? - perguntei.
- Não. Mas aí eu pensava de novo no cupcake. De chiclete, sabe? Com uma bola enoooorme...

Enfim, só pra vocês saberem. Aparentemente a técnica não funciona muito bem, mas dá pra fazer uma bola enoooorme e ir lá na lua.

Dos pretextos


Por volta das quatro da tarde o dia escureceu como se o relógio da noite estivesse adiantado. Um sono persistente, companheiro do dia inteiro, já vinha fazendo a tarde parecer longa demais, de modo que aquele céu beirando o negro foi quase crueldade. Eu, que vinha pensando no meu edredom, me lembrei com mais nitidez do vinho da noite anterior e quis muito que não fosse apenas chuva, mas noite mesmo, com tudo o que ela tem de melhor, ou seja, pijama. Claro que não foi assim, e o resto da tarde se arrastou cada vez mais escuro e pesado. Quando a noite finalmente chegou, o trânsito que vi da janela fez minha cama parecer um tanto mais longe. Ainda haveria o estacionamento da escola das crianças, o jantar e as resenhas do dia, uma ou outra tarefa demandando auxílio. Juntei forças, encarei o trânsito, o estacionamento, a chuva. Não fui a mãe mais animada, mas mesmo assim compartilhei com eles nossas impressões daquelas horas tão longas. O banho ressuscitou um pouco a fé em meu corpo, arrumei forças para ler uma linha ou duas, digitar um par de sílabas. Sobrevivi como que rastejando de preguiça e culpando meu amigo vinho. Inventei um monte de desculpas para o espichar das horas, devo mesmo ter enganado um ou dois distraídos. Cá pra nós, é claro, você sabe, é tudo saudade.

Poentes e um certo narrador


Hoje a Joana Faria divulgou seus novos cartões de visita contendo ilustrações feitas por ela. Uma ótima forma de cativar futuros clientes sortudos. Entre as gravuras escolhidas, está lá uma das que ilustram o conto Bagagem, em Contos do Poente (espiem lá, a de guarda-chuva na mão). Minha menina corajosa serelepando por aí. :-)

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Alguém me perguntou como encomendar exemplares de Contos do Poente. As vendas continuam pela internet, através do e-mail contosdopoente@gmail.com. Aí ao lado, na direita do blog, você pode ver as livrarias onde encontrá-lo também. Todos os contos são ilustrados pela Joana. :-)

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(Escrever é longe, às vezes. E a estrada nem sempre é clara, ensolarada. Ainda assim, quero a caminhada, nem que seja na lama, com frio e carregando nos dedos aquele sentimento dolorido de solidão infinita. E um espelho. Quebrado.)

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Falando em frio, você viaja quando o inverno lambe o outono. Nunca antes vi um timing mais equivocado. 

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O Arthur devorou em dois dias o delicioso Os Gêmeos Templeton Têm uma Ideia, de Ellis Weiner, com ilustrações de Jeremy Holmes e tradução de Fal Azevedo (Ed. Rocco). O livro é uma graça, história e ilustrações funcionam muito bem. O ponto alto, contudo (nisso Arthur e eu concordamos), fica por conta do narrador. Ou melhor, o Narrador, em maiúsculas, como ele gostaria. A história é contada em tom de conversa com o leitor por um debochado narrador que se acha o último biscoito do pacote: o Professor Templeton é um inventor às voltas com as chantagens de Dean D. Dean, ex-aluno colecionador de péssimas notas, que tenta a todo custo roubar os louros de uma de suas invenções; inconformado com as negativas que recebe do ex-professor, Dean D. Dean acaba envolvendo a família Templeton numa grande confusão e colocando em perigo a vida dos filhos do Professor, os espertíssimos gêmeos John e Abigail. Enquanto conta a aventura vivida pelos gêmeos Templeton, o Narrador desafia o leitor a decifrar enigmas, adivinhar partes da história ou desenvolver tarefas como "escreva sua resposta em forma de opereta". Cada capítulo é encerrado com algumas "perguntas muito importantes" que fizeram o Arthur rolar de rir. E xingar o tal Narrador, claro. Amanda também curtiu até onde leu, mas achei o livro sob medida para crianças com idade próxima à do Arthur, 9 anos. Superdica que a Fal me deu. Se eu fosse vocês, correria atrás. Divertidíssimo.

  

Cuidado, pessoas


Na saída da trilha Amanda viu uma placa alertando sobre animais peçonhentos. Mas estranhou muito porque, de passagem, leu "pescoçudos".

- Por que ter cuidado com animais pescoçudos?
- Hehe, é peçonhento, amor.
- Hein? 
- Não é pescoçudo, é peçonhento.
- Ah. Sei. É o bicho que morde a pessoa, né? "Pessoento." Entendi.
- :-D

***

Hoje teve sol, céu azul, cheiro de mato. E teve junho chegando. Estivesse eu no Nordeste, já teria comido algumas canjicas, minha cozinha já teria cheiro de canela; estivesse eu em outros tempos, minha mãe já teria reclamado por antecipação das fogueiras que virão; estivesse eu sintonizada em outras faixas, o forró já ecoaria invadindo os ouvidos. É bom ver que esses filminhos da memória são vistos daqui, de onde e quando estou, também cercada de outros elementos que me fazem sorrir e me sentir igualmente eu - eternamente em mutação, como manda o figurino. 

Mas, ah, quem estou querendo enganar? Eu queria canjica, sim. 

 
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