Super Jack


O passeio de Jack é interrompido pelo amigo que avisa: "seu pai está em apuros!". Jack saca sua capa mágica e voa rapidamente para resgatar o pai que despencara num penhasco. Jack salva o dia.

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Jack está lá todo feliz na sua aulinha de inglês. Até que de repente, crash, a parede se quebra e entra o terrível e destruidor Capitão Gatilho. Gente, o Capitão Gatilho, ninguém esperava por essa. O temido vilão destrói a sala de aula, o professor se esconde embaixo da mesa, mas o Jack não se abala. Ele sabe que não pode falhar. Mesmo sendo atingido pelo Gatilho, num piscar de olhos ele toma sua poção mágica e, tchan-ans, é o Super Jack! Não há chances para Gatilho. (O professor foge.)

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Ainda no prelo, vem aí a primeira edição do Super Jack, a revista em quadrinhos do Arthur. :-)

Ouvi informações privilegiadas, direto do pessoal envolvido na edição (pessoal envolvido na edição = Arthur): o exemplar deve custar um real. E morram de inveja, eu vou ganhar o meu inteiramente grátis. As primeiras encomendas já chegaram. Mas é sempre bom lembrar: a qualquer momento a editora pode interromper seus trabalhos por motivos de força maior, como um brinquedo irresistível ou um cineminha com os amigos. Aguardem e confiem. 

Bordado de luz


Quando os dias parecem estar tão cheios que não consigo dar aquele telefonema que já era urgente há três semanas; e nem consigo me sentar para aquela conversa com a amiga que tá no outro lado do mundo, porque ligar o skype parece uma tarefa demorada demais. Quando as horas estão tão absolutamente preenchidas que me sinto uma heroína com cabelo ao vento e ar triunfante porque, ei, consegui buscar o remédio na farmácia. Quando a leitura, que está ótima, se arrasta porque não quero, não quero, não quero ler aquilo com pressa, quero ler devagar, e devagar não tem pra hoje. Quando a amiga interrompe meu quase galope no estacionamento para oferecer um carinho e fazer um elogio, e eu agradeço apressada, porque, veja bem, estava atrasada - como se estar atrasada esses dias não fosse tão banal quanto as nuvens desse outono que insiste em se despedir cinzento, e como se aquele carinho não fosse tão precioso. Quando leio correndo aquele texto ótimo, mas não consigo comentar porque, no exato segundo em que acabo o texto, meus pensamentos me atropelam. Quando compro o pão correndo. Quando me dou conta de que, depois que as crianças dormem, as palavras se misturam em minha cabeça com os acontecimentos do dia e se embaralham de tal maneira que se parecem novelos de mim, eu emaranhada, misturada - e minha escrita são riscos de criança. Quando no silêncio da casa tarde só o piano paciente me entende, ele que contém os barulhos certos e todo o tempo do mundo. Quando ele não está. Quando as mensagens na caixa de email se acumulam para um dia, quem sabe.

Quando minha filha de seis anos se sente desconfortável na escola e não estou lá para ser abraço e voz.

(Quando meu bloguito completou seu quinto aniversário no mais retraído silêncio, porque havia peito inquieto. #ontem)

Quando olho ao redor e vejo os muitos pontos de luz que permeiam meus dias, eu me lembro de quando eu era criança e algo ruim ameaçava meus devaneios. Eu fazia de minha cama meu refúgio e tentava dormir, numa tentativa (eficiente) de fazer as horas mais duras passarem mais rápido. Eu dormia tardes inteiras. Mas hoje não. Hoje sigo aos saltos de ponto de luz em ponto de luz. Tenho agulhas mágicas e vou fazer um bordado bem lindo. Ou quem sabe um cachecol longo como as conversas das crianças - elas que iluminam tanto. É isso. Quando o mundo parece muito, tento bordar.

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(Não é pelo aniversário do blog, mas poderia ser. Tá rolando promoção nas vendas online de Contos do Poente - sem frete para pedidos feitos até o dia 30/05. ---> contosdopoente@gmail.com)


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Mesmo que eu tenha dedicado menos tempo a ele nos últimos meses, este blog ainda é uma sala de que gosto muito. Não é luxuosa, com tapete fino e vasos lustrosos. É uma sala até bem modesta e que, de vez em quando, junta um pouco de pó. Mas o pó dá pra limpar - e gosto tanto da vista que se abriu nesses cinco anos. 

Obrigada a vocês todos pela companhia. Sempre.

Verão sem sorte


Vou ficar velhinha, toda saudosa, rindo de frases pronunciadas na primeira infância dos meus filhos. Aliás, já comecei. Já reviro posts mais ou menos antigos, colecionados nesses quase cinco anos de blog (um bebê temporão, nascido numa época em que tanta gente já nem aguentava mais ouvir falar em blogs - o que reflete bem a dona dele, um tanto lerda para perceber que a chuva já tá caindo faz tempo), e já dou minhas risadas saudosistas agora mesmo. 

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Hoje Amanda me contou toda empolgada uma historinha da Magali. E lá pras tantas surge a expressão "clima de azaração" (não era Turma da Mônica Jovem, era Magali criança mesmo). Ela:

- E eu nem sei o que é "clima de azaração"! É o quê? Um... verão sem sorte??

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Arthur me manda bilhetinhos em código Morse. Anexo ao bilhete, vem a tabela para a devida decodificação. Olho, tiro uma dúvida aqui, outra ali, e a mensagem se revela:

"Mas eu não quero dormir." - antigas tecnologias para antigas demandas. (Foi dormir do mesmo jeito, apesar de descolar um tempinho extra pra ler na cama, pelo esforço em copiar a tabela e tal.)

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Enquanto ele enche folhinhas com pontos e traços, Amanda classifica o mundo. Divide uma  folha de papel com uma tabela em formato de estrela (mais ou menos como se fosse a bandeira do Reino Unido) e preenche os espaços com tipos de bichos, tipos de árvores, tipos de flores, etc. Minha célula preferida tem os "tipos de pessoas": adultos, crianças, bebês, adolescentes e sementes. :-)

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Guardo bilhetinhos deles, bonitos como papel de bala. Alguns são gravuras com recadinhos espalhados entre os desenhos. Outros são declarações de amor, do amor visto de lá, do lago tranquilo da infância boa. A pasta onde moram é um outro tipo de blog, feito de papel colorido, traços sinuosos e o olhar que só é possível nas crianças e, talvez, nos poetas. Tijolinhos de alegria. 

Quer trocar?


Meu álbum de figurinhas favorito era o Bem Me Quer. Eu e todas as minhas amigas éramos absolutamente fascinadas pelas meninas com roupas florais, seus cabelo cacheados espalhados sob chapéus enormes, cercadas por gatinhos, florzinhas, passarinhos. Passava horas em meu quarto folheando as páginas quase soltas do álbum, lamentando as figurinhas que faltavam, desejando ter dinheiro para comprar milhões delas. Lembro que anos depois do enorme sucesso do Bem Me Quer lançaram um semelhante, na mesma linha "meninas fofinhas", mas não cativou meu coração da mesma forma. Foi minha tia quem meu deu esse segundo álbum, e acho que ela deve ter gostado mais das figurinhas do que eu, porque já me deu o álbum com metade das figuras coladas, o que, admito, foi motivo de desapontamento segundos depois da euforia por ganhar o presente.

Meus filhos costumam perder o entusiasmo com as figurinhas lá pela metade do processo, algo que meu bolso agradece. Amanda, por exemplo, gosta do álbum no primeiro dia. Pede, insiste, ganha, abre envelopes, cola, fecha, não conta, não confere, esquece. Leva figurinhas repetidas para a escola e a) distribui entre os amigos, b) esquece no fundo da mochila, c) perde. Arthur é um pouco mais metódico e, via de regra, até que avança bem enquanto o assunto render entre amigos ou enquanto ele não conseguir aquelas figurinhas mais desejadas. Depois, gaveta, figuras espalhadas por aí, página virada sem apego. 

O tal álbum da copa está tendo uma história diferente. Começou na linha "todo mundo vai colecionar, vai ser divertido". Eu, como ex-colecionadora empolgada, disse sim, tudo bem, vamos comprar. Aí vi: mais de 600 figurinhas. Seiscentas. Whaaat? Socorro. Bom, com tanta figurinha, o início empolga, as repetidas são poucas em comparação às muitas fotos dos jogadores que rapidamente se multiplicam pelas páginas. Mesmo assim, o bolinho de repetidas logo virou um bolão. Explicamos ao Arthur que continuar comprando seria jogar (mais) dinheiro fora e que com muitas figuras repetidas é hora de meter a cabeça no melhor dessa história, o troca-troca. 

Uns amigos nos disseram que a galera andava se reunindo na praça do centro da cidade para trocar figurinhas. Resolvemos circular por lá e ver qual era. Passamos horas na praça, numa manhã ensolarada e deliciosa de sábado, conferindo tabelinhas de números e manuseando dezenas de bolinhos de figurinhas de pessoas que não conhecíamos. Olha, não parece, eu sei, mas acreditem, foi divertido. Fiquei impressionada com a quantidade de gente desocupada colecionadora como o Arthur, hehe. Arthur conseguiu trocar cerca de 80 figurinhas em negociatas com várias famílias. Vi mais adultos do que crianças. Alguns tentavam disfarçar, "é para meu filho", outros anunciavam que estavam colecionando dois do mesmo álbum, porque, olha, lançaram o com capa dura. Jesus. Enfim, minha lista de "nunca diga dessa água não beberei" só aumenta, passei uma manhã de sábado trocando figurinhas de fu-te-bol numa praça da cidade. Ou, em versão mais ampla: passei uma manhã de sábado interagindo com várias pessoas bem humoradas, rindo de si mesmas, conversando de igual para igual com crianças felizes e um pouco ansiosas, sentadas no chão, como num animado piquenique com estranhos.

Se vai ter copa, num sei. Mas a infância é uma delícia.  

A voz de quem dá voz


Umas das primeiras matérias que li da Eliane Brum foi a entrevista com a psicóloga Debora Noal, publicada na coluna que Eliane mantinha no site da Época (se ainda não leram, recomendo fortemente que o façam). Foi certamente essa a matéria que me fez prestar atenção nela. Acostumei-me a ler seus artigos e, mesmo quando não concordo com um ou outro ponto em seus argumentos, normalmente encontro um texto que me parece muito honesto, fruto de investigações e reflexões feitas por alguém que sabe ouvir e, acima de tudo, sabe olhar e ver o outro. Para nossa sorte, seus textos são campeões de compartilhamentos nas redes sociais.

Ainda não conheço seus livros de ficção, mas sei que as colunas da Eliane muitas vezes compõem um oásis de racionalidade na loucura espantosa de alguns portais e matérias que de jornalísticas só têm o rótulo. Eliane escolhe bem seus temas e a eles se dedica com zelo, muitas vezes iluminando pontos que outros nem percebem (ou não querem perceber).

Seu lançamento mais recente é um livro autobiográfico que ela descreve como "a história da minha vida com as palavras". Quando fui buscar meu exemplar de Meus Desacontecimentos (Ed. Leya), esperava um livro mais, digamos, robusto. Ao invés disso, segurei quase um livreto, pequeno, fininho. Acho que fantasiei que, tendo sido escrito por alguém que faz tão bom uso das palavras, sua história com elas necessariamente ocuparia muitas páginas. Já a caminho do estacionamento, li a contracapa. "De quantos nascimentos e mortes se constitui uma vida? De quantos partos uma pessoa precisa para nascer? Com quantas palavras se faz um corpo?" E fui embora namorando a capa linda.

Quando leio um livro escrito por alguém cuja voz conheço, ouço a voz da pessoa lendo o livro para mim. Foi assim, como quem assiste a uma entrevista no youtube, que li/ouvi Eliane me contar o lado de sua vida que escolheu nos revelar. E, olha, gostei tanto. A priori, não se trata exatamente de uma história extraordinária. Todos temos nossos mortos, nossos medos, nossos parentes esquisitos ou que consideramos especiais; muito de nós tivemos algum grau de conflito com nossos pais em algum momento de nossa adolescência, e os que tivemos a sorte de crescer dentro de uma família ouvimos casos dos antigos, fantasiamos nossos antepassados e suas aventuras em tempos mais difíceis do que os nossos. A diferença está, como não poderia deixar de ser, no olhar e no encanto diante do poder da palavra. 

Para Eliane, a palavra é a luz com a qual ela ilumina os mundos. Sem ela, é tudo escuridão. E eu bem que poderia ter lido outras tantas páginas com mais pedaços dessa história, mas vi que ela assinalou muito bem nas 142 páginas do livro o poder que o uso da palavra escrita exerce em sua vida. Aquele livro fininho que busquei na livraria ficou mais e mais robusto à medida que o li. E o extraordinário foi saltando de dentro das simplicidades. É verdade que eu quis mais: fala mais daquele professor; fala mais do pai; fala mais dos escritos da infância. Talvez seja o hábito de terminar as colunas dela desejando que ela escreva mais, ou escreva outra, sobre aquele outro assunto.

Como os livros foram portais para a criança Eliane, Meus Desacontecimentos é uma via de acesso à voz da mulher por trás das matérias que me acostumei a ler na internet. Nelas, Eliane normalmente dá voz ao outro. Em seu livro, é ela que se mostra,  em uma narrativa com muitos pontos de luz. Ao final, brindei: Ave, Palavra.  

O Professor


Comecei a ler O Professor (Cristovão Tezza, Ed. Record) com a avidez de quem considera O Filho Eterno imperdível. Filho Eterno foi o primeiro livro que li de Tezza e me manteve pensativa por dias, da maneira que, acredito, deve acontecer com muitos dos que se entregam ao livro. Quando fiquei sabendo do lançamento de O Professor, salivei. Bom, expectativa muitas vezes mais atrapalha do que ajuda. Não posso dizer que me decepcionei, mas alguma coisa desandou em minha leitura e, na reta final do livro, lamentei um pouco a perda da empolgação com que avancei pela primeira metade das páginas.

Sou fã de carteirinha de narrativas que lançam mão do chamado fluxo da consciência, a sucessão de pensamentos, às vezes desconexos, atropelando as falas, enroscando as ações dos personagens. Acho que me reconheço nesse formato de escrita, eu que vivo emaranhada em devaneios e tantas vezes me esqueço da caneta balançando na mão, tendo abandonado a lista de compras e iniciado uma longa viagem pelos planos para o dia seguinte misturados a rápidas lembranças de pequenices antigas. Fluxo da consciência em literatura me parece, portanto, realista, em uma roupagem que me agrada e reflete bem minha (nossa) forma de se relacionar com o mundo e com nossas próprias narrativas. O tempo da história em O Professor é um curto espaço de horas; o das histórias intercaladas é difuso, feito de reflexões e lembranças, nossa máquina do tempo. Para mim, essa estrutura é o ponto forte do livro. 

Heliseu tem setenta e poucos anos e é um professor de filologia aposentado. No dia em que será homenageado pela universidade, acorda agitado e inicia o ritual matinal de banho, café, jornal. Enquanto tenta articular um esboço de discurso para agradecer a homenagem, revisita em sua memória episódios marcantes de sua vida profissional e pessoal: a morte da esposa, o caso com a aluna, a relação difícil com o filho, as birras do meio acadêmico.

Tendo lido apenas dois de seus livros, olho para Tezza como quem mira um gigante. A sensibilidade sem pieguices d'O Filho Eterno é deslumbrante. Em O Professor, a maestria com as palavras na primeira metade me proporcionou quase uma hipnose, nem vi as páginas sendo viradas. Até que algumas repetições começaram a me soar barulhentas, outras alusões me pareceram cruas demais, e acordei. Talvez eu precise me despir do papel de tiete d'O Filho Eterno para ser capaz de assumir meus desgostos em O Professor. Ainda não consigo elaborá-los bem, mas sei que passam pela sensação de "já sei disso", ou pela reta final que, talvez, faria mais jus ao livro se tivesse sido mais econômica.

***

Mas se eu disser que estou refletindo muito sobre o livro, minto. Mal virei a última página, agarrei-me com Meus Desacontecimentos, da Eliane Brum. Volto já. 

Minha memória e eu


No meio da tarde da última sexta-feira meu marido ficou sabendo que precisaria viajar a trabalho. Por causa disso, precisei alterar os planos do final do dia, já que ele não poderia mais esperar o final da aula de futebol do Arthur no início da noite. Eu participaria da homenagem às mães na turma da Amanda no final da tarde e de lá seguiria com ela para uma festa de aniversário onde, mais tarde, Arthur e o pai nos encontrariam. Sem Ulisses, passei a bolar alternativas. Essa pequena desorganização nos nossos singelos planos de fim de sexta ocupou minha mente por alguns minutos, ladeada pelo desconforto causado pela ideia de que, de novo, Ulisses iria viajar. Foi o que bastou para eu me esquecer completamente da rápida tarefa agendada para o meio da tarde.

Meia hora antes da apresentação da Amanda fui para o colégio das crianças, já vendo sinais de que o trânsito nas próximas horas não seria para os fracos. Sem vaga no estacionamento da escola, dei mais uma circulada e deixei o carro a cerca de cem metros de lá. Participei da homenagem, afofei a filha, fui afofada, essas coisas. Um casal de amigos, que também ia à festa, levou Amanda com eles, e eu pude ficar no colégio acompanhando o futebol do Arthur. Quando Amanda seguiu para a festa, decidi levar meu carro para o estacionamento da escola, agora mais vazio com o fim das homenagens às mães. Achei a vaga maravilhosa. Eram 18h15min, mais ou menos. Quando eu estava manobrando o carro, o telefone tocou. Fui encaixando o carro na vaga e pensando "oba, deve ser o Ulisses dizendo que já desenrolou tudo lá em Blumenau e tá voltando!". Desliguei o carro e peguei o telefone. Não era o Ulisses. Era o pet shop. Era minha pequena tarefa do meio da tarde, esquecida para sempre. Pegar o Floquinho no pet shop. 

Contexto: o pet shop fica perto da minha casa. Eu havia deixado o Floquinho lá para aquela que provavelmente será a última tosa antes do inverno. Eu diria à minha chefe no meio da tarde "vou fugir por 20 minutos para pegar meu cachorro, volto já". Mas Ulisses disse que ia viajar e eu me esqueci do Floquinho. Eu esqueci o meu cachorro no pet shop. Podem jogar as pedras.

[intervalo para vocês jogarem as pedras]

Eu não podia reclamar de nada, estava absolutamente sem razão. Mas a moça resolveu me ligar às 18:15. Ela não me ligou às 16h, ou às 17h. Ela me ligou a quinze minutos de fechar o lugar. Só que eu não estava em casa, estava no colégio das crianças, bem mais longe. Em qualquer horário, eu até poderia chegar lá em cerca de 15 ou 20 minutos. Mas não às 18h15min de uma sexta-feira. Naquele horário, com aquele trânsito, eu precisei de uma hora para cobrir o percurso. Antes de sair do colégio, precisei encontrar uma alma salvadora para levar o Arthur ao local da festa depois do futebol (obrigada, Cláudia!!) e só então pude sair voando para o... para a esquina. Foi só chegar na esquina e ver o tamanho do desafio que seria cruzar meia cidade naquela trânsito. Entre a escola e o pet shop liguei para eles cinco vezes. Morta de vergonha e de medo de que eles desistissem de me esperar e fechassem a loja com meu cachorro engaiolado. A gerente me acalmou dizendo que ficaria lá até as 19h, que eu fosse tranquila. Mas, né, eu sentia a raiva na voz dela. Eu estava completamente errada na história, nem podia gritar "mas por que cargas d'água vocês não me ligaram mais cedoooooo?". Enfim. Cheguei às 19h17min. Recebi os olhares gelados dos donos do pet shop, o olhar feliz do Floquinho (tadiiiiinho!!) e o levei para casa. Aí finalmente fui para a festinha de aniversário, onde o Arthur me esperava para me contar que tinha feito seu primeiro gol. Que eu perdi porque me esqueci do cachorro.

Mais tarde Ulisses voltou. No dia seguinte comprei uma florzinha e escrevi um cartão com pedido de desculpas; fui ao pet shop provavelmente pela última vez porque nunca mais terei cara de deixar o cachorro lá, ainda morta de vergonha, entreguei a flor e, voltando pro carro, finalmente chorei. Meu jeitinho.

***

Na tal homenagem às mães na turma da Amanda, recebi um livrinho para escrevermos juntas "nossa história". Todo bonitinho, com espaço para anotarmos nossa receita favorita, nossas músicas preferidas, os filmes de que mais gostamos, qual a melhor viagem. Achei uma delícia. Ontem ficamos os três, Arthur, Amanda e eu, preenchendo os livrinhos (Arthur me deu um igual) e eis aí uma lembrancinha que guardarei para sempre. 

Eu já havia participado da homenagem da turma do Arthur durante a semana. No final de uma celebração religiosa, eles cantaram bem lindo. Foi legal e tal, mas torço o nariz para a homenagem às mães vinculada a uma celebração religiosa que, acredito, só faz sentido para as famílias católicas (era uma missa). Bom, como ninguém tá reclamando, já que a grande maioria das famílias parece ser católica, vou feliz ver meu filho cantar e tudo certo. Mas. O padre disse durante a homilia que certo cientista russo havia estudado todas (todas) as civilizações do mundo e descoberto os quatro preceitos que fazem o mundo funcionar direito, algo assim. Dentre eles, o último e que foi anunciado com mais ênfase, defende a ideia de que quando a mulher "cai em desonra", a civilização sucumbe. Anotem aí, mulheres. Só as mulheres.

Na boa. Fico boba. 

***

Minha mãe valorizava bastante o Dia das Mães. Entrava no clima, gostava de ganhar presentes, adorava as cartinhas que eu fazia na infância. A data tinha valor pra mim na medida em que tinha valor para ela. Agora, recebo os afagos com alegria porque meus filhos curtem o barulho e porque, ora, vumbora fazer festa, brindar no almoço, dar mais beijinhos. Mas optamos aqui em casa por fugir do ritual quase obrigatório de dar presentes. Ninguém precisa se preocupar com isso e o dia fica com cara de dia nacional do abraço prolongado. As lembranças que tenho de minha mãe e que me acompanham silenciosas todos os dias, às vezes nas situações mais insuspeitas ou nas gargalhadas que eu mais adoraria compartilhar com ela, não se fazem mais dolorosas ou melancólicas hoje. Mas fica aquela coisinha de um telefonema demorado a menos. Fica, sim.



Quebra-panelas e a galáxia dos gibis


Na minha infância, festa de aniversário tinha quebra-panelas.

Os adultos vendavam a criança com uma tira de pano e a faziam girar em torno de si mesma para deixá-la tonta e desorientada. A seguir, entregavam a ela um cabo de vassoura com o qual deveria acertar uma panela de barro, quebrando-a em mil pedaços e liberando as balas escondidas. Notem que ao redor da criança vendada e armada com um cabo de vassoura havia outras crianças ávidas pelas balinhas que seriam liberadas a qualquer momento e, por isso, arriscavam suas próprias cabeças. Porque, claro está, uma criança tonta e com os olhos vendados dificilmente acerta a primeira paulada no alvo. A brincadeira era sempre barulhenta, com a plateia dividida entre os que tentavam orientar a criança rumo ao pote de balas e os outros, mais sádicos, que ludibriavam a pobre aniversariante gritando "aqui, aqui!!", fazendo-a dar uma paulada na parede ou árvore mais próxima. 

Quebra-panelas era uma brincadeira para ser feita no quintal da casa, num tempo em que as festas infantis eram sempre feitas em casa, regadas a guaraná, bolo e brigadeiro enrolado pela mãe. Por causa de uma tarefa escolar da Amanda, precisei revirar velhas fotos. E lá estou eu, em meu vestido longo laranja bordado com um cavalo branco, venda nos olhos, cabo de vassoura na mão, rumo ao pote. Acho que nunca quebrei a cabeça de ninguém, mas me lembro que costumava ficar longe nos aniversários alheios, só por precaução.

Na boa, onde a gente estava com a cabeça quando fazia essa brincadeira? Certamente não diante do cabo de vassoura. Sem falar que as balas eram catadas e disputadas aos tapas entre cacos de panela quebrada.

***

Em outras fotos, estou sentada com o mesmo vestido, laço de fita na cabeça, ninando minha boneca de plástico. Ao fundo, minha penteadeira onde eu ostentava alguns brinquedos: uma minigeladeira (com ovinhos e forminhas de gelo dentro), um miniliquidificador, um minifogão, uma cadeirinha de balanço com uma minúscula boneca e, claro, a boneca "chuveirinho" em sua banheira que eu enchia d'água e, acionando um botão, fazia o chuveirinho funcionar de verdade - a glória (vide google)! Estão lá ainda a Família Barbapapa em isopor, meu pianinho onde eu só tocava "do-re-mi-fá - fá - fá; do-ré-do-ré - ré - ré..." e um pequeno berço desmontável para meu boneco Feijãozinho. Meu quarto era simples e bem pequeno, mas colorido e razoavelmente confortável. Por não ter janelas, minha mãe fazia questão de que eu mantivesse a porta sempre aberta - mas e as brincadeiras em que eu conversava sozinha? Eu dava um jeito e fechava a porta "só um pouquinho". Todo um reino. Eu poderia ter escrito o Guia das Meninas Tolas da Galáxia. 

***

A galáxia da Amanda é a dos gibis. 

- Amanda? (repete 3x)
- Humm?
- Larga o gibi e entra no chuveiro.
- Tá.[nada acontece]
- Amanda? (repete 2x)
- Oi? Falou comigo?
- *suspiro triplo carpado* Falei: vá tomar banho. Depois você termina o gibi. 
- Tá, só um pouquinho.
[passa um pouquinho]
- A-man-da!
- [bufa de irritação e vai pro chuveiro, deixando o gibi aberto na página interrompida, virado para baixo, sobre a tampa da privada]
[~Banhus infinitum~]
- Deu, flor, sai do chuveiro. 
- Me ajuda a me secar?
- Ok. [Aí ela pega o gibi e vai lendo enquanto passo a toalha, fazendo manobras com os braços para conseguir enxergar a história e mal contendo uma irritaçãozinha porque, né, estou lá passando aquela toalha que tá atrapalhando o gibi.]
- Larga o gibi e põe o pijama. (repete 3x)
- Tá. Mãe, sabe o que o Penadinho falou? Olha aqui...
- Agora escova os dentes. [repete 67 vezes; nesse meio tempo, ela já mudou de gibi e fala alguma coisa sobre o Mingau, gato da Magali]
Na sequência, preciso ser firme:
- Não, deixa eu terminar de passar o fio
Seguem os boas noites, os beijinhos, as cosquinhas, alguma birra, dependendo do dia. Mas sempre, invariavelmente, naquele segundo em que minha mão se ergue rumo ao interruptor, ouço o mantra:
- Posso ler um pouco?:-D
- Pode, só uma historinha.
- Iêba!

Todo dia.

***

Todo mundo vê todas as séries de TV. Não consigo acompanhar mais do que uma e meia. Vocês não almoçam?

***

Se eu viajasse no tempo e dissesse àquela menina da foto que, olha, um dia a Copa vai ser no Brasil e, a um mês do evento, seu entusiasmo vai ser zero, ela olharia de volta e soltaria uma sonora gargalhada. 

***

Muitas mazelas, tanta coisa pra arrumar, dor ali na esquina. Eu sei. Mas a história das meninas sequestradas na Nigéria derrubou meu queixo.

*** 

Só a escrita salva. Mas, por via das dúvidas, acho que vou retomar a terapia. Ou ler uns gibis na galáxia da Amanda.

Fante e outros furadores de fila


Terminei a leitura de A Irmandade da Uva (Ed. José Olympio, tradução de Roberto Muggiati), primeiro livro que li do estadunidense John Fante (autor do celebrado Pergunte ao Pó). O que eu queria mesmo era ler Pergunte ao Pó. Na falta, e por preguiça de procurar em outros lugares, acabei pegando Irmandade. A tradução de Brotherhood of the Grape foi lançada no Brasil no ano passado como parte das homenagens pelos 30 anos da morte de Fante

A história de Irmandade começa quando o escritor Henry Molise recebe um telefonema do irmão. Depois de ouvir as últimas notícias sobre a mais nova crise na família, Henry se vê forçado a interromper sua rotina e viajar para tentar impedir (ou entender) o iminente divórcio dos pais. Meio a contragosto, ruma para sua pequena cidade natal, já antecipando o desconforto de desenterrar antigos conflitos. De fato, Henry logo se depara com o despeito dos irmãos, a inimizade da sogra, os dramalhões da mãe e o alcoolismo do pai. Imigrante italiano, Nick Molise, pai de Henry, é um pedreiro orgulhoso, frustrado por nenhum de seus três filhos homens ter adotado seu ofício como profissão. Aos 75 anos, passa mais tempo bêbado do que sóbrio e, entre um caso extraconjugal e outro, deixa praticamente tudo que ganha na mesa de jogo. Para Henry, a visita se transforma em chance única de revisitar sua relação com seu velho pai cuja saúde se deteriora a passos largos. 

Que o leitor não espere reconciliações emocionadas ou sons de violino; a escrita é ácida, o mundo dos Molise é barulhento. Com alguma dose de humor, Fante expõe a decadência de relações familiares construídas com frustrações e rancor. Daqui de meu lugarzinho insignificante, acho que ele erra a mão de vez em quando (confesso que cheguei a achar alguns trechinhos meio piegas), mas passa rápido. Daí, contudo, não se infira que o livro carece de momentos tocantes, mesmo ternos, ou que não há beleza nas descrições dos conflitos encarados por Henry e Nick. É bela, por exemplo, a melancolia de Nick ao passear pela cidade mostrando aos filhos os prédios que ergueu com pedras fortes, quase eternas, em contrapartida à sua frágil condição humana. 

Nenhuma passagem do livro chegou a me comover, nenhum momento me arrancou risadas. Ainda assim, li com admiração pela escrita madura uma história que se desenrola com tanta naturalidade que parece ter acontecido com aquele pessoal ali da esquina.  

Vi que o livro original foi lançado após um longo intervalo de 25 anos sem publicar nada, pouco antes de Fante ficar completamente cego por causa do diabetes. Para alguns críticos, Irmandade mostrou como ele continuava em forma mesmo sem publicar durante tanto tempo. Para mim, Irmandade não fica como livro marcante, imperdível, mas serviu como cartão de visitas à escrita solta de Fante e aguçou minha curiosidade em relação a Pergunte ao Pó, sempre referenciado como grande divisor de águas em sua carreira.

***


Fante furou a fila dos livros que atualmente habitam minha cabeceira. O quinto volume das Crônicas de Gelo e Fogo segue ali, confiante. Enquanto as cabeças vão sendo cortadas e a traição come solta sem que eu vire as páginas para conferir, vou incluindo outras leituras na categoria "ai, preciso ler isso agora". Martin pode esperar. 

Ter lido o tocante Filho de Mil Homens me fez ir correndo comprar A Desumanização, de Valter Hugo Mãe. Seria ele o próximo da lista, não fossem os comentários de quem andou lendo o novo livro de Cristovão Tezza, O Professor. Eu já andava cheia de vontade de conferir o livro do autor do emocionante O Filho Eterno (se você ainda não leu O Filho Eterno, pare o que estiver fazendo e leia, aliás) e resolvi não esperar mais. Espero ler O Professor, Desumanização e ainda um livro de contos do Tchekov, Treze Contos, antes da chegada pelo correio de meu esperado exemplar de Half of a Yellow Sun, da nigeriana Chimamanda Adichie - livro que virou objeto de desejo depois de ler comentários de leitores pela rede. A qualquer momento, porém, largo tudo para ler o novo livro da jornalista Eliane Brum, Meus Desacontecimentos, assim que conseguir comprá-lo. Ou furo a fila outra vez com aquele livro imperdível que vocês vão me indicar, quem sabe.

Loud and clear


Hoje você faz nove anos! Bem numa segunda-feira... Bom, um aniversário numa segunda-feira corrida é um ótimo pretexto para a gente passar o final de semana celebrando antes e o resto inteiro da semana celebrando depois. \o/ Nós bagunçamos o calendário e seu aniversário tem sido "por esses dias". Acho merecido. Uma coisa que vou guardar com mais nitidez na memória quando pensar "nesses dias do seu aniversário": sua alegria genuína. Em meu coração, estou celebrando sua alegria. Ver você crescer com escolhas boas e festejá-las, eis aí um motivo para eu sorrir largo por muito tempo, meu amor.

Deixa eu contar uma coisinha: quando você era um bebezinho todo fofo, eu olhava e pensava: poxa, passa tão rápido, e essa é a fase "mais bonita". É uma delícia ver um bebê aprender a andar, claro que é. Mas aí você foi crescendo e fui aprendendo, para meu deleite, que viver com você pode ser uma deliciosa sequência de fases incríveis. Você substituiu as quedas de bumbum pelos joelhos ralados, enquanto vou apreciando a beleza de ver você se transformando todo dia.

O mundo é esquisito às vezes. Há um dito corriqueiro que expressa uma preocupação razoável de muitos pais e mães: que mundo deixaremos para nossos filhos? Eu muitas vezes penso nisso, Arthur, mas queria que você soubesse que a pergunta reversa ocupa mais meus pensamentos. Penso muito no tipo de pessoas que tentamos ser para o mundo. Eu vejo sementinhas dessa consciência em você, quando você também, em seu pequeno universo, se preocupa com o outro. Eu queria que você soubesse que isso faz de você um carinha incrível.

Mas divago! Hoje é seu dia, quer dizer, esses dias todos aí que escolhemos para festejar você são seus! E hoje, especialmente, vou deixar tocar no carro, mil vezes que seja, aquela música que você gosta de cantar bem alto. Vou liberar o videogame por horas e horas e horas. Vou deixar você botar menos feijão no prato, dormir mais tarde, fazer a tarefa depois. Hoje você nem precisa tomar banh... não, aí já é demais. Posso até tirar o dia para estragar você um pouquinho, mas o mundo continua precisando de pessoas cheirosas e limpinhas, ora. 

Meu gatão, eu sou a mãe mais babona do mundo, é uma vergonha. Sorry, não consigo evitar. Quando tento, lembro do seu abraço, de quando você me procura pra dizer que me ama, do tanto que você é generoso e carinhoso e descabelado. Quer dizer, gatinho. ;-) Eu tenho muita sorte nessa vida. Ser sua mãe chega a ser um exagero dessa sorte. Amo você, Arthur. Muito, prestenção.


Feliz aniversário, filho. Aumenta o som aí!

Homeopatia, anjos e borboletas


Não acredito em milagres, astrologia, anjos ou fantasmas. Não tenho religião, não acredito em reencarnação, minha fé no além ficou no passado e sucumbiu a meia-dúzia de perguntas, cujas respostas inventadas substituí com tranquilidade por "não sei, e tudo bem não saber; não saber é um jeito possível de viver; não preciso explicar tudo". Etc. Convivo bem com amigos e familiares das mais variadas crenças, fico boba quando escuto alguns absurdos em nome da fé ("deus não aceita a homossexualidade" etc.) e toco o bonde. Tenho amigas que admiro um tanto que nem consigo dizer e que fazem mapa astral. Além disso, na hora do lazer dou de ombros para a coerência e morro de medo de filmes como Atividade Paranormal. Depois da sessão, passei dias com medo de ir à cozinha sozinha, como se tivesse 13 anos de idade, tempo em que li e vi O Exorcista e quase passei mal de susto.

Fui uma adolescente com o pé no misticismo, achava-me uma pessoa espiritualizada e a toda hora via sinais de vibrações energéticas por aí. Tinha pirâmides no quarto, fui Rosa Cruz e achava que a reencarnação era a resposta para todos os males do mundo. Depois passei a achar que o mundo é isso aí mesmo, fruto das ações humanas e efeitos naturais. As respostas desenhadas pela História e pela Ciência me fascinam muito mais e pelo menos aí, na Ciência, temos as evidências irrefutáveis de que o entendimento muda, de que ninguém sabe tudo e de que descobertas incríveis sempre estarão ali, na esquina, nos esperando - pelo menos enquanto a gente não destruir todas as esquinas. Teorias são contestadas e novas evidências aqui e ali às vezes bagunçam o coreto, num diálogo dinâmico e em eterna construção que faz muito sentido pra mim e que, me parece, refletem muito melhor a eterna e fascinante dança do universo em perene transformação. Há quem veja aí a transformação da Ciência em um tipo de deus. Longe disso. Parte do fascínio que tenho pelo conhecimento científico vem de seu caráter dinâmico. Quando um grupo de físicos contesta uma teoria há muito celebrada, onde uns veem evidências dos segredos divinos, eu vejo a beleza da evolução do pensamento científico. Volto sempre a imaginar o assombro que teorias como o heliocentrismo trouxeram para os viventes do tempo em que acreditávamos que nosso pequenino planeta habitava o centro do universo - uau, já pensou?

Tudo isso para dizer que, olha só, voltei à homeopatia, hahahaha. Li uma vez uma coluna em um grande jornal em que o colunista, que admiro por sua clareza de ideias em muitos campos, fazia chacota da homeopatia. Eu, leiga e completamente por fora da forma como os medicamentos homeopáticos são produzidos, não consegui refutar nenhuma de suas afirmações e fiquei ali engolindo as evidências que ele listava como típicas de efeito placebo. Como rebater aquilo? Como afirmar com convicção que uma ínfima quantidade de certa substância, diluída infinitas vezes, mantém qualquer propriedade de cura contra males tão palpáveis como alergias e falta de ar? Não consegui. No entanto, à medida que lia as convicções do jornalista, ia me lembrando da alegria que foi ver o Arthur, com 1 ano de idade, se libertar dos antibióticos em série, interromper as amigdalites, virar uma criança que "quase não fica doente". De novo, foi bom lançar mão do bom e velho "não sei, só sei que foi assim". Porque foi bem assim. Depois de alguns anos, abandonei até a homeopatia porque não quis mais dar medicamentos a quem nunca ficava doente. Não tive a chance de tentar a homeopatia em situação semelhante com a Amanda, porque quando a grande pneumonia chegou, aos 11 meses de idade, uma febre altíssima e um quadro que evoluiu violentamente em poucos dias me fizeram correr para o hospital e torcer muito para que os antibióticos surtissem efeito. Como se vê, homeopatia tampouco é minha religião e corro para onde enxergar maiores chances de reverter um quadro desfavorável.

Agora, com quase nove anos, Arthur tem rinite, Amanda, dermatite atópica. Ambas condições são, segundo as medicinas homeopata e alopata, parentes próximas da asma e de outras complicações respiratórias. Como venho de uma família em que a asma é uma velha conhecida, sinto arrepios. Aí a homeopatia realmente me parece bem mais atraente do que os corticóides e sprays nasais. Voltei a administrar gotinhas e bolinhas na rotina do Arthur, esta semana começo o mesmo com a Amanda. Se os sintomas diminuírem, vou de "só sei que foi assim". Vamos acompanhar. Iniciei essa conversa no Facebook e vários amigos comentaram as benesses da homeopatia em suas vidas e na de seus filhos, outros associaram o efeito placebo à suposta ação dos medicamentos. Resta-me observar, com um pé na dúvida e outro na torcida. Encaro, basicamente, como uma tentativa de ministrar menos medicamentos invasivos e cheios de efeitos colaterais e cumulativos. 

***

Na pior das hipóteses, a homeopatia tem me valido algumas experiências interessantes. Durante a longa e detalhada consulta o paciente é o centro da conversa olho no olho e a influência dos humores e de traços da personalidade são levados em conta como componentes atuantes nas condições clínicas. Isso faz muito sentido para mim, a cética, vão vendo. E, de quebra, é mais poética. A médica homeopata da Amanda me explicou que seu medicamento é feito a partir de asas de borboletas - ah, gente, fala sério. Nada combina mais com minha pequena, não acham? ;-) É preciso acredit... oops, quer dizer. Deixa pra lá.


 
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