Away


Odeio quando você viaja. É meio dramático, mas faz tempo que deixei de negar o drama. Sinto falta mesmo e você ainda nem passou da ponte. A melhor maneira de lidar com as horas de 600 minutos cada uma é arrumando o que fazer. Então é bom ir ao trabalho e descobrir uma mesa cheia de pendências. Nada inadiável, mas eu posso fingir que é tudo urgente e enfiar a cara na papelada. Aí você já se afastou uns 30 quilômetros e eu começo a ficar menos chorona, ainda que só um pouco. 

Se um dia decidirmos reformar nossa casa, dispensemos os pedreiros. A maneira mais fácil de ampliar nossa casa é você viajar. Ela fica enorme, larga, sobrando; ouço ecos pela escada, os ecos dos meus pensamentos conversando com você. As crianças fazem planos para sua volta e preenchem um tanto bom da amplidão, mas, acredite em mim, nossa casa nunca é tão grande como quando você viaja. Bom, você sabe que detesto reformas, então tá tudo certo.

As canções no carro, o portão emperrado, aquele sinal que demora pra abrir, a correria na hora de levar o Arthur ao inglês, o almoço da Amanda, o cachorro sem banho, o estacionamento da escola das crianças, o pão naquela padaria boa, o sanduíche que você faria, o episódio de Big Bang Theory, o tênis largado no banheiro - são como vagalumes piscando pra mim, passam o dia insistindo em você.

Ou seja, no final das contas, você nem vai. Fica aqui, desse jeito enroscado que a gente arrumou de viver, meio desalinhado como cachinho de cabelo, um tanto bagunçadinho, um tanto no lugar. Mas odeio quando você viaja.  

As janelas


A professora disse que quando abre a janela da sala e o som dos passarinhos se torna audível, Amanda vai embora. E nos contou que já chegou a trocá-la de lugar, para que ela preste mais atenção à aula e menos ao mundo lá fora. Ulisses protestou, "deixa ela, professora...". Eu sorri, imaginando a cena. O burburinho ou burburão da sala tomando conta do pedaço, letras pelas paredes, números pelo quadro, livro aberto na tarefa da hora... e a janela; e o olhar comprido da Amanda voltado para lá. Não dá pra competir, né? O chamado da janela é irresistível. A professora informou que, em breve, o chão lá fora ficará coberto de pétalas que despencarão da árvore. Aí danou-se.

É claro que entendo os receios da professora, apesar de achar que a escola desperdiça muito a sede das crianças pelo tal "mundo lá fora". Ulisses acabou sugerindo um acordo: "Deixa pra trocar de lugar depois que ela não atender ao terceiro chamado...". ;-) Eu falei que pelamordedeus não fale como se ela estivesse fazendo algo errado, porque somos testemunhas diárias do quanto os devaneios da Amanda rendem comentários absolutamente adoráveis e do quanto sua imaginação e criatividade - como acontece com qualquer criança, acredito - se favorecem desse daydreaming.

Meu colégio era lindo. Durante vários anos, frequentei salas de aulas com enormes janelões que nos permitiam ver a horta e o matão que havia por trás dela. Eu resolvia fácil as aulas chatas: ia embora pela janela também. Amanda, afinal, é filha de peixe. A professora me via sentada na carteira, mas não podia fazer ideia de onde eu estava, saltando pelo mato da horta transformado em floresta mágica, criando minhas histórias. 

Em casa estamos acostumados a vê-la mergulhada em sua cabeça ou despencada dentro do gibi, outro tipo de janela. Não raro brincamos:

- Arthur, cadê Amanda?
- Caiu no gibi. - É ela lá, sentada, lendo, esquecida da vida.

O gibi, a janela, o passarinho. Os desafios da escola são imensos; no momento estou de olho na competição com os passarinhos. Minha dica foi levar a turma lá pra fora, mas confesso que existiria o grande risco de a Amanda ir embora de vez, mesmo, colhendo flores e conversando com sua amiga imaginária.


Não sabemos


Amanda gostou da tarefa do irmão e resolveu entrevistar os moradores da casa também. Queria saber quantos banhos por dia cada um toma, quantas vezes usa a descarga do banheiro e lava as mãos. Perguntou a um e a outro e decidiu que não queria esperar minha volta pra casa, iria logo me ligar no trabalho para xeretar meu uso da água.

- Arthur, qual mesmo o número da mamãe?
- Tal tal tal tal - tal tal tal tal. 

Ela aparentemente entendeu:
- Tal tal tal tal - til tal tal tal.

E digitando um número errado, ligou para outra pessoa. O diálogo, segundo as testemunhas e ela mesma:

Pessoa não identificada: - Alô?
Amanda: - Quantas vezes você foi ao banheiro hoje?
Pessoa não identificada, obviamente percebendo que conversava com uma criança: - Ahn.. qual o seu nome?
Amanda: - Amanda.
Pessoa não identificada: - Oi, eu sou o Juvêncio.
Amanda: click!

Mais tarde quando ela me contou, perguntei:
- Aí você desligou, Amanda?
- Sim, não gosto de falar com estranhos. 

E assim ficamos sem saber quantas vezes Seu Juvêncio foi ao banheiro hoje. 

O Filho de Mil Homens


[Contém possíveis spoilers.]

***

Uma imagem se repete nas descrições que Valter Hugo Mãe criou para alguns de seus personagens em O Filho de Mil Homens (Ed. Cosac Naify): a da pessoa que despenca para dentro de si mesma, numa queda sem fim pelos abismos das ausências e da incompletude de cada um. Como se em dado momento essas pessoas percebessem o tamanho do vazio e do silêncio que podem nos engolir enquanto seguimos distraídos pelas regras do mundo. Cai o homem de 40 anos que subitamente se dá conta de que quer ser pai; cai Isaura em sua angústia de garota "enjeitada"; e ainda que a imagem não esteja carimbada textualmente em outros capítulos, cai a anã tratada com piedade apenas enquanto reduzida à sua condição de diferente (mas enxotada quando descobrem que está grávida); e caem Antonino e sua mãe, traumatizados pelas horrores do preconceito em torno da orientação sexual do rapaz. Em volta desses personagens outros circulam, formando uma rede bem costurada por uma escrita permeada de outras tantas belas imagens.

A história que Hugo Mãe nos conta me chegou como uma espécie de bússola para evitar a queda: uma história de redescoberta, de busca da completude pelo caminho do amor. O amor por um filho, que pode não sair de nossa carne; por um companheiro, que pode nos chegar por caminhos inesperados; por uma família, que pode ter qualquer composição, desde que se queira a transformação que esse amor permite. E pode ser também uma história de como olhamos para o papel da morte em nossas vidas. Para mim, foi um pouco de cada, uma pequena celebração das muitas metamorfoses que podemos encarar ao longo de nossas caminhadas - ou de nossas quedas.

A história em si já é tocante o suficiente para fazer desse livro uma pequena joia; mas para além do que se conta está uma prosa bonita, com descrições inspiradoras. Entre as minhas favoritas está a relação do garoto Camilo e seu avô com a casa onde moram. De tanto ouvir o avô falar da esposa morta, Camilo acredita que a avó que não chegou a conhecer habita, em algum nível invisível, as estruturas da casa. Os ruídos de portas e janelas se misturam aos relatos do avô, é tudo voz e presença da falecida. A avó imortalizada pelo amor do avô é uma marca importante no crescimento de Camilo, e um dos presentes para os leitores do livro.

O Filho de Mil Homens já foi tão celebrado que nem preciso recomendar. Mas, barulhenta, endosso o que disse Silviano Santiago na orelha da edição brasileira que li, porque acho que resume muito bem o espírito da obra: 

No livro, nutre-se carinho por tudo sobre o qual se soube construir a felicidade. Até pela dor.

Foi meu primeiro livro de Hugo Mãe. Dificilmente será o último.


Luz, água, adeus


"Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam as portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa."

Gabriel García Márquez -
"A luz é como a água", em Doze Contos Peregrinos 
(Trad. Eric Nepomuceno).

Vai estar sempre no topo, entre os nomes que indicarei aos meus filhos, torcendo que eles aceitem e experimentem. Cem Anos de Solidão vai ser sempre o primeiro livro cuja leitura desacelerei para não acabar nunca, de cujos personagens senti saudades como se família fossem, aqueles loucos. Que grandeza, uma vida com feitos tão notáveis. Que sorte a nossa que a arte nunca morre, e que ele pode morar para sempre em nossas estantes e em nossos corações.

Adeus, Gabo. Obrigada. 

De outonos e amores


Hoje o céu amanheceu nublado, nas ruas víamos as marcas da chuva que caiu longa durante a noite. Um vento frio soprou de vez em quando ao longo do dia, e aquela blusinha de mangas compridas pôde ser usada com conforto. Ontem à noite nós tiramos as mantas do armário e as crianças trocaram os pijamas curtos por outros mais quentinhos. Não demora muito e estarei tomando chá de maçã na cama, encolhida, antes de dormir. Esse poderia ser o  marco deste 16 de abril: o dia em que o outono apareceu. Mas não para nós.

Se tem uma coisa bacana na amizade é o sentimento espichado de pertencimento. A alegria do outro invade a gente, vira uma experiência compartilhada. É a empatia no seu lado mais gostoso. Quando aquele ou aquela de quem gostamos atravessa um momento de conquista ou de vitória, de alegria, ainda que pequena, ou de satisfação de qualquer natureza, saber dessa felicidade, em que grau for, nos faz feliz também. Quando se trata de algo realmente grandioso, então, o coração faz dancinha. No meu caso essa dancinha muitas vezes vem banhada de lagriminhas quase saltitantes. Hoje já chorei diversas vezes, cada vez que olhei o vídeo e a foto da nova filha de nossa amiga, nascida nessa manhã de temperaturas suaves. Olho para aquele rostinho gorducho e imagino a festa no coração de minha amiga, de quem gosto tanto e com quem tenho tido a imensa sorte de conviver nos últimos anos. Foi por causa de nossas filhas, que estudam juntas, que nos conhecemos, mas eu sei que poderíamos ser amigas em qualquer conjuntura. Mais do que trocar ideais sobre os perrengues e as delícias de criarmos nossas crianças, cultivamos uma amizade que, espero, perdure por muito, muito tempo.

Daí que hoje, quando sua nova filhota nasceu, linda e esperta, meu coração se encheu de alegria. Portanto o outono hoje é bem vindo, mas é apenas o cenário de um evento muito mais gostoso. Hoje é o dia da chegada de Catarina. Seja bem vinda. Você ainda não sabe, mas tem uma sorte gigantesca por nascer em uma família tão, tão cheia de luz. Seja feliz, pequena. Te amamos já, e é tão bom que seja assim. 

 Para Cleusa e André


Achados e perdidos


Foi de altos e baixos minha primeira leitura dos contos de Bestiário, de Julio Cortázar (Ed. Civilização Brasileira, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman). Gostei de contos como "Casa Tomada" (quantas vezes não nos enchemos de cuidados para não perturbar quem invade nossos espaços? - talvez mais vezes do que conseguimos perceber ou gostamos de admitir) e "Ônibus", com todos aqueles olhares. Outros, como "As Portas do Céu", não me deixaram lá muito empolgada. Mas cada página valeu a pena para chegar ao último conto, aquele que dá nome ao livro e que foi sem dúvida meu favorito. "Bestiário" é envolvente, com tensão que se avizinha e vai crescendo rumo a um final que pode até nem ser tão surpreendente assim, mas é primorosamente construído. 

Mas quem estou querendo enganar? Eu estava louca para terminar. É que no final de semana chegou meu exemplar de Filho de Mil Homens, o primeiro romance de Valter Hugo Mãe em minhas mãos. (Cheguei a perder o livro do Cortázar antes de terminar a leitura, e comentei com algumas amigas que era meu subconsciente trabalhando a meu favor, tanto que eu queria logo começar o livro do Valter. :-))


Comecei e me deparei com "Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende." - ora, se não era a perfeita explicação para o sumiço do livro do Cortázar, hehe. Ainda estou nas páginas iniciais, mas já gostei do tom de fábula que cerca a narrativa.

"Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."

Acho que não vou querer perder esse por aí. ;-)

Shades





"Look down, fair moon..."

Se até ela fica na sombra de vez em quando, há de haver beleza à espreita nas sombras que nos visitam de tempos em tempos. Quando me sentir pra baixo, não vou mais anunciar tristeza por aí. Vou estar "em eclipse". Na umbra do mundo. Acontece, e pode ser bonito.

***


A tarde dentro do conto


Li o conto, fechei os olhos e decidi subir no mesmo ônibus da personagem. Levei flores como todos os outros e a observei por algum tempo. Não sei se eu teria descido na mesma parada ou se teria me transformado nela, no alvo dos olhares. Logo abandonei, cochilei e subi em outros ônibus, rumo a outros destinos meus. Quando acordei vi o livro caído e o dia avançando, da chuva só restava o cheiro de mato úmido e uma brisa fria, calmante. As vozes das crianças me deram rumo e canção, além de pretextos. Não escrevi, não fui, não chamei. Um conto aberto sobre a cama, café quente ou orquídeas no quintal, a tarde foi quase uma alegoria: teve cor e sabor, e viagens que podem levar a caminhos inesperados. 

Em série


Da série Que bom que você veio:

Está na hora de meu filho de 8 anos dormir, mas ele está agitado demais. Faz graça, dá risadas, pula no meio do quarto, brinca com uma bola de borracha, conta piadas. Em parte porque quero afofá-lo, em parte para acalmá-lo, chamo para um abraço. Ele vem e aninha a cabeça em meu peito, e pelo espelho grande vejo a cara sapeca, suspirando: olhos fechados, sorriso desenhado nos lábios, entregue. Penso: que bom que você veio pro abraço, pro mundo, pra mim. Digo que está na hora de ir pra cama, ele vai. Pego o lençol para cobri-lo e ele, com calor, ensaia um gesto para dispensar o lençol, um golpe intergaláctico jedi mega blaster, com um olhar 43 poderoso. Compartilhamos uma risada e apago a luz. Vou pro meu quarto, flutuando. 

Da série Desejos que nunca imaginei que teria:

Dedos mais longos, capazes de executar os acordes de Tchaikovsky.

Da série Pessoas otimistas:

Minha professora de piano. "Você consegue!"

Da série Impulsos que deveria ter contido:

Comprei o livro Eu sou o Mensageiro, do mesmo autor do lindinho A Menina que Roubava Livros, o australiano Markus Zusak. ------- Zzzzzz... ronc.

Da série Mal posso esperar:

Comprei contos do Cortázar e do Tchekov; e um romance do Fante.

Da série Solidão:

Escrever.

Da série Déjà vu:

Amanda brincando no pátio da escola, conversando com sabe-se lá quem em seu mundo imaginário. Amanda olhando ao redor, mergulhada em devaneios, guardando segredos, vivendo historinhas que ninguém sabe. Trança se desfazendo, joelho sujo, o mundo, o mundo. Olho e sei como é. 

Da série Lendo juntas:

Deitadas em minha cama, Amanda e eu lemos. A toda hora ela interrompe minha leitura para contar uma tirinha, mostrar uma piadinha, comentar do cabelo do Cebolinha. Quatro gibis depois, ainda estou no mesmo parágrafo.

Da série Para sempre:

A mão dele na minha.
   
 

Feira do Livro em Joinville/SC


Hoje fomos a Joinville apresentar Contos do Poente na 11a edição da Feira do Livro da cidade. O evento teve abertura ontem, dia 04, e segue até o dia 13/04, no Centreventos Cau Hansen.

Conversei rapidamente, por cerca de 15 minutos, com o público do palco principal da Feira hoje pela manhã, falando um pouco do processo de criação do nosso livro, feito por três mulheres, uma em cada cantinho diferente desse mundo. Luciana Nepomunceno e Joana Faria devem ter sentido as orelhas queimarem, porque falei bastante da honra que é ter meu nome vinculado aos delas nessa história.

Os leitores que forem à Feira podem encontrar exemplares de Contos do Poente no stand da Livraria Saber. Se eu fosse você, de Joinville, não perderia. Vale conferir a programação.

"Me dê um silêncio. Eu vou contar."


"De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe."


***

Em resenha de Grande Sertão: Veredas publicada em 2006, Noemi Jaffe diz: 

Não sei se o fato de "Grande Sertão: Veredas" ter sido escrito em português e, por essa razão, não figurar nas listas dos melhores romances do século 20, representa um mal ou um bem. Porque assim o ciúme que nós, como brasileiros, devemos sentir por esse livro, fica bem mais preservado. Ficamos com esse segredo. São as listas que não o merecem.
Ciúme vem do latim "zelúmen", do qual também deriva a palavra zelo, cuidado. E é isso o que o "Grande Sertão" provoca. É preciso lê-lo zelosamente e cuidar de frases como: "Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar" ou então "A colheita é comum, mas o capinar é sozinho". Talvez fosse preciso guardar essas frases numa gaveta, escondidas, e só olhar para elas de vez em quando, em silêncio.

Fiz isso muitas vezes ao longo de minha leitura de Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa, Ed. Nova Fronteira): olhei frases em silêncio, namorando-as, tomando-as para mim. Não costumo fazer anotações em meus livros; no máximo dobro "orelhinhas" no alto da página para marcar alguma passagem que me cativa mais, às vezes com o intuito de comentar sobre ela com alguém. Com Grande Sertão, no entanto, me transformei na leitora com lápis na mão. Sublinhei inúmeras frases, marquei palavras, bordei as margens com pequenos "x' para reencontrar quando quiser minhas veredas favoritas.

"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice".

Era Diadorim que eu tinha como elemento mais forte da história quando comecei minha leitura, lado a lado com a lembrança que trago de meus primeiros contatos com os contos de Guimarães Rosa, lidos há anos-luz, na faculdade. Grande Sertão, claro, se mostrou muito maior do que eu podia esperar. Além da construção narrativa tão celebrada; além do amor contido de Riobaldo por Diadorim; e além do que eu já sabia sobre o enredo, encontrei em Grande Sertão um livro imenso, histórias de amor e guerra descritas com riqueza linguística que superou todas as minhas expectativas (e elas eram gigantescas, dado todo o fuzuê em torno da obra). E, acima de tudo, cravei Riobaldo para sempre na minha  lista de personagens mais adoráveis da literatura - eu sabia de sua coragem de jagunço, mas não sabia de sua compaixão, de sua empatia; de sua doçura ou de seus medos, seu olhar de enxergar veredas. Com o devido derretimento: ler Grande Sertão foi uma delícia. 

"A aguagem bruta, traiçoeira - o rio é cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de desamparo."

O livro acabou e fiquei com meu espanto diante do talento de Guimarães Rosa. Vi no Facebook o Professor Idelber Avelar se referindo a Grande Sertão como um "mundo em forma de romance" - e é bem por aí: cabe o mundo no Grande Sertão, em suas travessias infinitas, seus questionamentos filosóficos para papos eternos, o medo, a morte, o amor construído, o amor que atropela, o amor perdição, o amor salvação, a vaidade e seus demônios, as perguntas, todas elas. Como se fosse pouco, ainda há a beleza das imagens na longa narrativa de Riobaldo, uma espécie de homenagem não só às paisagens que elas retratam, mas à nossa língua, vestida de gala nesse livro que é uma festa.

"Os afetos. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do mundo."

E aí veio aquele final que me atropelou como se eu não soubesse que viria. Eu esperava encantamento, linguagem rica e belas imagens - e disso tive, em generosos lotes. Mas não esperava todo esse arrebatamento. Foi mesmo como atravessar o Sertão, uma aventura inesquecível. 

"Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."


Para ler, reler, tomar um banho de encantamento. 

 
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