Sweet Monday



Contrariando todas as probabilidades, resolvi que, sim, daria tempo de fazer aquele bolo nos 10 minutos que me restaram livres antes do almoço. Fiz, ficou bem mais ou menos, deu pro gasto. Um bolo mais ou menos é menos triste do que bolo nenhum, convenhamos. Além do mais, foi uma daquelas pequenas jornadas em que o processo valeu muito mais do que o produto final. Não sei se enquanto separava gemas das claras ou se quando media os ml de leite, o fato é que ali, num cantinho espremido da cozinha, misturando loucamente o aroma do chocolate granulado ao do frango que saía do forno, em algum momentinho daqueles que só a baderna da cozinha nos proporciona, bem ali, sorri com facilidade. Achei graça, assim do nada, de eu gostar tanto daquela desordem - onde já se viu, o fermento e o feijão lado a lado no balcão? É que se esperar apenas o momento limpinho, o momento oportuno de balcão desocupado, o bolo talvez não venha. Minha vida tem sido assim, balcão desordenado, e enxergar a grandeza em cada pequeno momento de prazer tem valido muito. Ainda prefiro ligar o som, pôr um avental e chamar Amanda para lamber a vasilha; mas quando não dá, é bom ver que bater o bolo 5 minutos antes de arrumar o cabelo dela para ir à escola e de ajudar o Arthur a se servir também me faz bem. É para eles que faço o bolo que comeremos juntos no final do dia, comentando a aula de geografia. Guardo aqui para me lembrar daqui a vários anos que gosto muito quando as réstias que o sol desenha na parede prendem minha atenção.

Hoje era, ainda, dia de cumprir promessas. Amanda há dias me pedia o dia do cupcake, a receita vista no livro da bailarina etc e tal. Eu havia prometido a função para o domingo, mas o cinema roubou nossa chance de melecar a cozinha e adiei o cumprimento da promessa, imaginem às custas de quanto protesto. Não dava para adiar mais, tinha de ser na noite de segunda-feira-infinita mesmo. É claro que o livro com a receita da bailarina desapareceu (ficou dias no balcão da cozinha esperando o cumprimento da promessa; quando finalmente decidimos botar a mão na massa, sumiu). Resignadas, Amanda e eu catamos o iPad, recorremos ao santo blog da Patrícia e fizemos essa receita. Pesei os ingredientes e dei as instruções; ela executou cada passinho com louvor, toda concentrada, "meu primeiro cupcake, né, mãe?". Aquele sorriso que já havia vindo fácil no cantinho da cozinha calorenta antes do almoço, agora, na cozinha pós-jantar toda nossa, veio a galopes largos. Ficaram fofinhos e deliciosos, usamos cobertura de chantilly (que era, afinal, o momento mais esperado do cupcake da bailarina, o chantilly branquinho se esparramando sobre os bolinhos, o lado bom da vida) e coroamos com moranguinhos. E num grande exemplo de alimentação saudável e balanceada, meus filhos devoraram cupcakes pouco tempo depois de terem comigo bolo de chocolate granulado no jantar. Balcão desordenado, boa semana. 

Pillars of the Earth, o jogo


Ontem experimentamos mais um jogo de tabuleiro criado a partir de um livro. O da vez foi Pilares da Terra, desenvolvido em torno da conhecida história do britânico Ken Follet. Gostamos bastante. Vou resumir a dinâmica do negócio para que vocês tenham uma ideia de como funciona a brincadeira: você precisa lançar mão de seus bonequinhos para produzir recursos que depois trocará por pontos e/ou dinheirinho; ou pode usar seu dinheirinho para conseguir bonequinhos mais sabidos que transformam os mesmos recursinhos em pontos, só que com mais agilidade; ou pode usar bonequinhos e dinheirinho para rapidamente ficar sem dinheirinho e aí não conseguir fazer mais nada interessante; ou pode usar recursos, bonequinhos e dinheirinho de forma sábia e ponderada, mas dar um azar danado e não conseguir usar bem os outros bonecões (é, tem um bonecões também). Enquanto isso, a catedral vai sendo erguida, lindona e não interfere em absolutamente nada. :-)

Juro que é só preguiça de explicar. As regras são um pouco mais intrincadas do que as do Catan, por exemplo, mas o jogo é tão divertido quanto; e gostei bem mais do que a longuíssima partida de Game of Thrones. Jogam até quatro pessoas por partida. Como no livro, a construção da catedral é pano de fundo para as desavenças e intrigas; no tabuleiro, esses perrengues se transformam em busca por pontos de vitória, claro. Apesar de ninguém se lembrar direito da trama (dos quatro jogadores na mesa na noite de ontem, três haviam lido o livro há bastante tempo, eu inclusa), curtimos a ambientação medieval e todo aquele papo em volta dos masons e sculptors, e reconhecemos o papel de alguns personagens, com comentários bem embasados e eruditos, tais como: "uia, eu me lembro desse caboclo, ele é do mal total" ou "gente, quem é essa?". A construção da catedral marca as seis rodadas do jogo, simbolizando as seis décadas de construção - lembram? Pois então, a gente fica com vontade de ler de novo pra se lembrar de tudo. 

O jogo é lindão e é mais um ótimo pretexto para tomar vinho e comer amendoim. Recomendo. Nossa partida durou mais de duas horas, mas deve ser mais rápida que isso, já que íamos jogando e estudando as regras. Ninguém reclamou: a velha Inglaterra sempre rende boas histórias, especialmente quando olhamos para elas no conforto da sala iluminada, sem precisar carregar pedras de verdade. ;-)

Uma chuva, um dente e um Sertão


O temporal que caiu no fim do dia formou poças imensas na frente da escola de música. Foi botar o nariz pra fora e ficar encharcada, com os pés molhados dentro do sapato-esponja, os livros, a bolsa e a alma, todos molhados. Eu abri o guarda-chuva, mas a chuva deve até ter achado graça da insignificância do coitado. E aí vem aquela cena linda: com um conjunto mão/braço seguro o guarda-chuva, tento manter a bolsa tão próxima ao corpo quanto possível e envolvo os pobres livros contra o peito; com a mão livre, eu, já bem molhada, destravo o carro; com a mesma mão abro a porta, enquanto verifico se outro motorista passará por ali nos próximos segundos, causando o temido efeito chuááááá em toda aquela água empoçada (a água empoçada na qual meus dois pés estão enfiados enquanto a abro o carro). Uma vez escancarada a porta, a chuva molha todos os papéis que estão no porta-trecos, mas isso é um mero detalhe; numa manobra radical e perigosíssima, passo a chave para uma mão e trago o guarda-chuva para a outra. Sem saber o que fazer em seguida, fico um pouco mais molhada. Então entro no carro de ladinho, mantendo o guarda-chuva para fora, já que é preciso fechá-lo antes de enfiá-lo no carro. Jogo livros molhados e bolsa molhada no banco do carona e enfio a chave na ignição. Aí encosto a porta com o guarda-chuva ainda aberto fora do carro até que os 89 motoristas que decidiram passar por ali naquela hora me permitam abrir a porta, me molhar um pouco mais e finalmente fechar o guarda-chuva. Aí foi só fechar a porta e molhar o que ainda estava seco nos bancos da frente porque, ao tentar colocá-lo no chão do carro, o querido guarda-chuva enganchou no câmbio e espirrou água por todo lado. Depois foi fácil, só dirigir pela cidade com aquela chuvarada sem sentir direito os dedos dos pés.

***

Mas vamos ao grande acontecimento da semana, algo que já vinha sendo esperado por algum tempo por certa pessoinha moradora dessa casa. Um fato inédito em sua vida, o início de uma nova era, um divisor de águas. Algo que realmente abrirá uma nova porta - ou pelo menos uma janelinha: Amanda agora tem seu primeiro dente mole.

***

Amanda tanto paquerou as aulas de judô do irmão que recebeu o convite do professor para fazer ela mesma uma aula experimental.  Agora põe o quimono duas vezes por semana e vai lá fazer rolamentos e quetais. Acho que combina tanto com ela que nem sei porque não a matriculei antes. As brigas domésticas entre irmãos por aqui devem ficar emocionantes. Prometo mantê-los informados, não se preocupem.

***

Eu bem que poderia ter lido Grande Sertão: Veredas há mais tempo. Mas estou gostando tanto de lê-lo agora, nessa fase de minha vida, que nem vou lamentar mais. Comecei com esse papo de "poxa, como não li antes?", agora acho bom tê-lo comigo. Sabe aquela alegria besta? Pois então. 


Windy, sunny, easy


"Vento, ventania
Me leve sem destino
Quero mover
As pás dos moinhos
E abrandar o calor do sol
Quero emaranhar
O cabelo da menina
Mandar meus beijos pelo ar..."
(Biquini Cavadão)


Desde que Ulisses começou a praticar kite surf, o vento passou a ser mais do que o moço invisível que derruba o varal de chão. É agora o fenômeno bem vindo que arranca meu marido de casa rumo à Lagoa ou a uma praia próxima (o conceito de próxima está aberto a discussões), o porta-malas cheio de petrechos indispensáveis cujos nomes um dia hei de memorizar. Hoje pela manhã, no entanto, havia um mercado no meio do caminho. Enquanto ele fazia as compras da semana, curti a preguiça de uma manhã ensolarada no quintal de casa; somente as crianças, algumas abelhas e eu. E o vento.

Parece que o verão se despediu com pontualidade. O sol dessa manhã não cozinhou nossos miolos, nem cegou nossas vistas. Apenas aqueceu o suficiente para curtirmos a delícia que é estar ao ar livre sem suar em bicas ou desmaiar de moleza. A certa altura, enquanto a brisa refrescava nossas cabeças ao sol, Arthur, Amanda e eu nos dedicamos com afinco a devorar um pote de biscoitos com suco de frutas e engatamos um bate-papo cheio de afagos e elogios verbais. Você que é lindo, você é tão gentil, você consegue ter paciência, sua pele tá bronzeada. Éramos uma ninhada de gatos, onde eu era a gata orgulhosa lambendo suas crias cada vez mais manhosas. Depois eles se cansaram daquela lenga-lenga e resolveram correr sobre o chão molhado até um deles se estabanar numa queda que chegou a me assustar, mas, ainda bem, não passou disso, um susto. Antes disso, claro, engataram uma discussão inútil sobre quem tinha roubado o brinquedo do outro, quem tinha jogado água na cabeça do outro primeiro, quem tinha atrapalhado a brincadeira. Ou seja, tudo igual no outono. Entregues à preguiça, voltamos ao modelo ninhada de ser, cada um lendo um gibi ou um livro, até que o Ulisses voltou com sacolas e fome. E a promessa de mais vento à tarde, na Lagoa.

Sol a pino, somente nas páginas de Grande Sertão: Veredas, que me chamam para o sofá e fazem qualquer passeio parecer algo que, veja bem, podemos fazer amanhã. Hoje pela manhã, no quintal, tive um daqueles momentos em que ficou tão evidente como o tempo - "tecido de nossa vida", como dizem lindamente por aí - nos é tão valioso. Ao invés de trânsito, papel, escritório; ao invés de correr, comprar ou acelerar; ao invés de tudo, a prosa comprida de G. Rosa, meus filhos jogando conversa fora comigo e falando de suas alegrias, ela com a cabeça em minha perna, ele deitado na espreguiçadeira ao lado, o melhor de minha vida ao alcance de minhas mãos. Assim como o tempo longo e espichado da lenta narrativa de Riobaldo, hoje eu quis um dia assim: um outono que começa sem pressa, canções do vento que chegam pela janela da cozinha, pela varanda, nas palmeiras do quintal. Nada mais.

Além da compostagem



Na semana passada, a Marcinha, do blog A Vida Escrita a Mão, escreveu sobre suas impressões ao ler Contos do Poente.  (Se eu disser a vocês que o blog da Marcinha é meu cantinho favorito na internet, vocês podem imaginar minha cara de satisfação. :-)


Um dia eu quis saber alguma coisa sobre compostagem. Nem me lembro direito quais eram os planos, talvez alguma experiência no quintal. O Google me jogou num post bem escrito em uma página com layout limpo e agradável. Não me lembro o que exatamente o texto tinha de especial, mas alguma coisa me fez desconsiderar as outras páginas que o Google me oferecia e ficar por ali, indo e vindo em outros textos da mesma autora. Eu não costumava ler blogs naquela época, não frequentava redes sociais, nada do tipo. Usava a internet de forma bem mais limitada do que faço hoje em dia, de grande portal em grande portal, jornais tradicionais, aquela coisa. Até abrir aquela página sobre compostagem. 

Logo descobri que o texto havia sido escrito por uma brasileira que há anos vivia na Inglaterra e que tinha iniciado seu blog vários anos antes, quando eu sequer sonhava que a internet viria a ocupar esse espaço todo em nossas vidas. Comecei a fuçar outros posts, uma coisa foi me levando a outra, e em poucos dias eu estava absolutamente encantada com aquele cantinho. Decidi ler tudo, do comecinho. Voltei no tempo cerca de oito anos e li tudo, como quem lê um livro, sem pular nenhuma página, sem deixar escapar nenhum detalhe. A escrita da garota da compostagem me fisgou de tal maneira que por várias vezes vi a madrugada chegar lendo seus relatos.

Costumo dizer a ela que seu blog me levou a criar o meu, e é verdade. Foi o dela que me mostrou a possibilidade de jogar conversa fora de uma forma deliciosa (há muito mais no blog da Marcinha do que conversa jogada fora, registre-se). Foi por causa d'A Vida Escrita a Mão que pensei que, ei, posso montar um cantinho para guardar historinhas das crianças, falar mal do tempo, brincar de escrever além dos textos guardados em pastas e arquivos do explorer. Eu quero, eu quis. E aí veio o mundo todo da rede: outros espaços criados por pessoas incríveis, os twitters e faces da vida; mudei radicalmente minha maneira de navegar pela internet, descobri várias portas para debates enriquecedores e gargalhadas dobradas, passei a escrever mais, dentro e fora da internet. Mais recentemente, o blog me trouxe a Joana e a Luciana e, com elas, meu primeiro livro. 

Obrigada, Marcinha, por seu olhar generoso. E por aquele post sobre compostagem - just for the record, nunca tentei nada parecido com compostagem no quintal, mas sempre há tempo. ;-)


Vida Querida, livro querido


O nome da espera no saguão, com apenas um cartão de embarque; o nome da espera sem poder telefonar, porque sei que você deixou o celular no trabalho quando me levou; o nome da espera, sabendo que quando você chegasse ao trabalho eu já estaria voando; o nome dessa espera também é solidão.

***

Por que razão me importei com a presença do estranho do assento ao lado, a ponto de jogar deliberadamente o cabelo sobre o rosto e assim esconder as lágrimas? Era quase um sacrilégio se importar naquele momento. Por que deixei que alguém que muito provavelmente eu nem voltaria a ver fizesse parte do momento em que virei a última página de Vida Querida? Não deveria ter sido assim. Eu deveria ter chorado o que tivesse vontade, porque a turbulência da aeronave não chegava aos pés das sacudidas que os últimos contos do livro me trouxeram. Havia chuva por todos os lados, mas minhas nuvens pessoais eram muito mais pesadas, e as de Alice Munro, naqueles contos autobiográficos, me parecerem tão preciosas, tão completamente carregadas de vida. Aquelas lágrimas mereciam ter sido derramadas livremente, como um temporal.

***

Gostei do livro todo, mas, como geralmente ocorre em coletâneas de contos, tenho cá meus textos preferidos. Os primeiros dez contos de Vida Querida (Alice Munro, Ed. Cia das Letras, tradução de Caetano W. Galindo) são ficcionais. Deles, meu favorito talvez seja "Corrie"; ou quem sabe "Cascalho". Talvez, ainda, seja "Com vista para o lago". Em todos esses, Alice abusa do talento em tratar com delicadeza e perspicácia as dores de amores que inventamos, da velhice, das memórias que enterramos porque precisamos sobreviver. Gostei da fluência da linguagem de Alice, ao mesmo tempo em que suas frases encerram mais, sempre mais do que parecem mostrar num primeiro momento. É seguir lendo e retomando parágrafos anteriores, para então perceber as pistas que o texto vai jogando pelo caminho.

Dos quatro últimos textos, todos autobiográficos, não quero escolher um favorito. Foram quatro abraços, quatro pequenos deleites. Toda minha torcida por uma autobiografia que eu devoraria em grandes garfadas. Alice tem histórias pra contar, mas mais do que isso, tem o olhar que cava as histórias e as lapida com esmero. Uma alegria.

"Demorava um pouco para a casa abandonar a luz do dia e as lâmpadas acesas do fim da noite. Deixando para trás o alarido das coisas que tinham que ser feitas, penduradas, acabadas, ela se tornava um lugar mais estranho onde as pessoas e o trabalho que lhes ditava as vidas desapareciam, o emprego que tinham para tudo à sua volta desaparecia, toda a mobília se recolhia a si própria e não existia mais por causa da atenção de alguém."  Em "Noite".

Talvez o livro seja menos melancólico do que me minha choradeira possa fazer parecer. Seja como for, com ou sem choradeira, o encanto está lá. Vão por mim. 

O perfume da folha da laranjeira


É você por todo lado. Não adianta. Assim que o carro se aproxima daquela curva fechada à direita, que marca a entrada da cidade, é você. Não há nenhuma surpresa nisso, obviamente. É só que ontem teria sido um daqueles dias de muito falatório em sua casa, bem sei, e aí foi como se eu começasse a ouvir sua voz já no início da rua. A cena que decidi pintar nas entranhas de meus pensamentos é assim: você está bem e saltitante, nada da fase mais pesada do final de sua vida. Você teria ligada para todos - todos - seus amigos na véspera intimando-os para as obrigações do dia: pular cedo da cama e ligar o rádio para ouvir a entrevista; comprar o jornal; não desgrudar da TV na hora do jornal local. Teria ficado assim, meio boba. Esses mesmos amigos teriam sido convocados para a noite de lançamento, à qual você compareceria com um sorriso de orelha a orelha, meu livro na mão, foto atrás de foto. Diria assim a eles: aff, é um livro lindo, lindo! Bem assim, eu sei. 

Mas o mundo é isso aí e ontem não pude trocar figurinhas com você. Eu acho uma pena mesmo, porque eu gostava desse negócio que era botar um sorriso em seu rosto. E alguns de seus amigos estavam lá, outros não puderam ir, mas se fizeram presentes através de telefonemas carinhosos e recadinhos que me foram dados com igual cuidado. E em todos eles, cada recado, cada olhar de amigo seu, em todos estava você. Sua mão ainda segura a minha. 

Escolhi de novo flores brancas e amarelas. Havia uma aranha enorme e colorida numa teia imponente próximo à plaquinha com seu nome. Deixei ali, a aranha guardiã, não mexi com ela. Um pouco abaixo, olha que engraçado, nasceu um pé de laranja-cravo. A gente passa as pontas dos dedos nas folhas e o perfume é algo indescritível. Algum passarinho deve ter levado a semente. Ou talvez o vento, o mesmo vento que trazia a chuva fina que caía sobre o cemitério. Botei as flores ao lado do pé de laranja-cravo. E imaginei os abraços e a barulheira que você teria feito ontem. Também levei flores para o túmulo de Tia Maria - ela, então! Teria dado pitacos em cada conto. E teríamos dado boas risadas. Mas o mundo é isso aí.

Meus amigos sabem que eu senti muita alegria em lançar o livro por aí. Foi bom demais. E sei que eles não se importam de, no fundo, no fundo, saberem que é por eles, mas é muito mais por você, por sua memória. Não muda nada no curso irremediável de nossa separação, mas às vezes, mãe, é tudo que nos resta: o vento, as flores, o perfume da folha da laranjeira, o eco da voz das pessoas que amamos tanto. 

Que bom que sempre demonstrei minha gratidão, você sabia dela. Ontem ela retumbava no meu peito, tentando abafar um pouco a vontade de chamar você. 

Ainda sobre o encontro em Campina


Atualizando pra vocês: nosso encontro na Livraria Clube Ludi, no Shopping Luiza Motta, em Campina Grande, será um pouco mais cedo que o divulgado anteriormente. Estarei lá a partir das 18:30h do dia 14/03, sexta-feira. Em parceria com o pessoal da UFCG, a Ludi receberá o Professor de Teoria Literária Hélder Pinheiro para um papo sobre o livro (portanto, o encontro previamente planejado para acontecer pela manhã, no campus da UFCG, ocorrerá à noite, na Ludi). Vem, gente!


Listinha


Não tenho dado conta de escrever no blog (síndrome de abstinência bombando, ainda sou daquelas que gostam de blogs). Também não tenho conseguido ler todas as threads daquele grupo tão bacana no gmail. Ou de acompanhar a TL do Facebook - uma pena, minha TL por lá é ótima. Mal consigo ler as mensagens que chegam pelo WhatsApp. Espero ao menos dar conta da carga de serviço lá no trabalho. Estou lendo um livro ótimo, mas a leitura avança lentamente. Não sei para onde vão tantas horas (quer dizer, eu sei; mas é mais dramático dizer que não sei). 

Mas a cabeça, essa anda lotada de planos. Alguns desse tamanho, ó. Vão vendo.

***

Virei a louca dos papeizinhos com ideias anotadas. Em 2014, faço notas em pedacinhos de papel. Eu tenho iPad, editor no texto de celular etc. Mas insisto nos papeizinhos. Deve haver algum antibiótico pra curar isso aí.

***

A rede em nossa casa cai dia sim, dia também. Temos passado mais tempo sem internet que conectados. A alegria é sempre completa, caem internet, TV a cabo e telefone. Nós já nem nos estressamos, até ficamos meio surpresos quando temos internet, dizemos felizes olha, um site! Não gosto de digitar no celular, então ando meio muda. 

***

Era uma daquelas tardes em que a mesa está lotada de serviço, e você fica organizando mentalmente a sequência dos pepinos que vai encarar. Assim que desenrolar isso aqui, vou cumprir aquilo ali, logo depois  vou resolver aquilo outro e... o telefone toca e é a moça da enfermaria do colégio. Amanda tinha dor de garganta, dor de cabeça, estava meio enjoada e chorosa. Tchau, chefe. 

Trânsito. Cheguei correndinho à enfermaria. 

- Oi. Sou a mãe da Amanda.
- Ah, esta tava ali correndo, já voltou pra sala. 

Vou para a sala de aula.

- Nossa, mãe, até que enfim! - diz minha filha cacheada, suada e sorridente. 
- Tudo bem, Amanda?
- Não... minha garganta tá doendo. 
- Hum...

Depois de um diálogo confuso, levei minha não-doente à emergência pediátrica para dar uma conferida naquelas big big amígdalas. Trânsito vai, trânsito vem. Tudo tranquilinho, apesar das big amígdalas. Ela voltou pro colégio e eu voltei pro trabalho, trânsito trânsito, para perceber que não daria conta nem da metade dos pepinos, claro. 

No final do dia ela voltou para casa, feliz no banco de trás, com o irmão. Aos berros. 

- Amanda, filha, poupa a garganta.
- [Gargalhadas.]

Diagnóstico: saudade. À noite enfeitamos tiaras com adesivos lindos e a garganta nem doeu mais tanto assim. Amanhã cuido dos pepinos na mesa do trabalho, enquanto faço planos, aqueles. Vão vendo.

[Eu ia botar o post no ar ontem, mas a internet caiu. :-)]
 

Mamãe já dizia que sou teimosa


Toda uma legião de amigos clamando que será mais um cabide. Que em pouco tempo ela ostentará toalhas e camisetas à espera do caminho mágico rumo ao cesto de roupas. Que todo mundo conhece alguém que um dia acreditou que seria diferente. Que há tantas outras maneiras mais interessantes de se jogar dinheiro fora. 

Dou de ombros.

Ponho um par de tênis, cato minha garrafinha d'água na geladeira, um livro e/ou um par de fones de ouvido, e vou pra sacada. Sedentária é a vovozinha.

Comprei uma bicicleta ergométrica. Anotem aí e me cobrem depois, okay? Matei com um só golpe todas as desculpas, as boas e as esfarrapadas: o trânsito desanima, detesto academia, todos os horários das aulas de yoga da cidade são ruins pra mim, meu bairro tem muitas ladeiras, não gosto de correr, não tenho saco pra aula de natação, não não não. Acabou. A bike tá na sacada, a dois passos da cama. Tá, quatro passos. Vou lá, firme e forte.

Menos nas noites muito quentes, por causa das baratas voadoras. Aí também já é muito amor pelo esporte e cês sabem que num sou dessas.

Contos do Poente em Campina Grande


Desconfio que o lançamento de Contos do Poente em Campina Grande/PB, no próximo dia 14, vai ser só alegria. Para começo de conversa, vou ter a chance de reencontrar pessoas dos tempos da faculdade de Letras - professores, amigos, ex-colegas. Entre um reencontro e outro, vou participar de um bate-papo sobre o livro dentro do calendário de eventos da POSLE - Pós-Graduação em Linguagem e Ensino, da UFCG. Foi na UFCG que fiz minha graduação (na época, o campus ainda pertencia à UFPB) e conheci gente que ocupa até hoje um espaço largo em minha vida - uma dessas pessoas é casada comigo, by the way. E, naturalmente, vou também rever o pedaço da minha família que mora por lá. 

Para a coisa ficar ainda melhor, às 19:30h do mesmo dia vou estar na livraria Clube Ludi para mais um encontro com amigos e leitores, e aquela coisa toda de trocar papos e abraços. O Clube Ludi não é uma livraria qualquer: o lugar pertence a uma amiga que conheci no curso de Letras, a Verônica, com quem troquei muitas ideias nos tempos das aulas de Linguística. Vai ser bom revê-la e curtir um pouco de seu trabalho na livraria. Não sei como é para vocês, mas ter uma livraria ocupa para mim a categoria sonho bom.


Então, pessoal da Paraíba, anotando, por favor: dia 14/03, às 19:30h, espero vê-los na Livraria Clube Ludi, no shopping Luiza Mota, em Campina Grande. A Luciana Nepomuceno e a Joana Faria não estarão comigo, infelizmente, mas prometo abraçar e papear por mim e por elas.

Os amigos no futebol


Arthur, este post é pra você. Um recadinho para que você se lembre disso no futuro. 

Este ano você decidiu experimentar o futebol. Você já tinha cogitado isso antes, mas sempre desistiu e preferiu o judô ou a natação. Eu sabia que a vontade de participar das aulas tinha mais relação com a vontade de estar com os amigos do que pelo futebol propriamente dito, algo que nunca chamou muito sua atenção. Agora você resolveu tentar, seja lá por que razão. E nós apoiamos sua decisão e lá está você de chuteira e meião.

Como os seus amigos já estão no esquema do futsal há três ou quatro anos, é natural que exista uma grande diferença de desempenho entre vocês. Você sabe disso, e eles também. E aí está o que eu queria que você nunca se esquecesse. Depois da primeira aula, seu amigo Eric veio me dizer que você tinha se saído "muito bem para a primeira aula"; ele disse isso com aquele sorriso no rosto que ele tem quando conta uma coisa boa, sabe? Depois ele falou a mesma coisa pro seu pai, ali no pátio. No segundo dia, você sabe, nós fomos ver a aula. E eu fiquei observando o tempo que o professor dedicou a ensinar você a posicionar a perna da forma considerada ideal e tal, e achei que ele é mesmo um professor bem atencioso. Mas mais do que isso, fiquei observando como os dois amigos que compunham o grupo com você aguardavam pacientemente a explicação que o professor repetia pra você. Eles são bons de bola, esses seus dois amigos, e é natural que eles não quisessem perder o tempo precioso de bola no pé, mas eles sequer demonstraram impaciência, eles apenas aguardaram. Aí quando o professor reuniu o grupo todo, você se lembra, né, e elogiou sua concentração, seus amigos aplaudiram. Todos eles. Acho que foi o João que começou, mas eles todos aplaudiram junto. Então eu queria registrar aqui, Arthur, que acho que você fez uma ótima escolha. Mesmo que depois você mude de ideia, se descobrir que futebol não é a sua praia (pode acontecer), ou se você deslanchar e gostar da coisa, não importa; eu acho que sua escolha de passar mais tempo com esses seus amigos foi excelente. Eles valem muito, viu? 

Vou puxar um pouco a brasa pra nossa sardinha e dizer que você é querido por eles porque você é um ótimo amigo. Acho que isso é bem verdade, mas não muda em nada o fato de que eles são crianças incríveis.

Divirtam-se! 

 
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