Só no Face


- Pai, tira esse bicho do banheiro.
- Mas é uma borboletinha!
- É? Não parece.
- Mas é. Você não é amiga das borboletas?
- Sou, mas quero ser amiga à distância. 




Viagens & viagens


"Andei por abrigos extensos. Mas não encontrei sombra senão na palavra."
Mia Couto

Entrei o ano lendo Fim, de Fernanda Torres (Cia. das Letras) e me surpreendendo com a fluência de sua escrita. Não que eu esperasse um texto ruim - bem ao contrário, tinha lido vários elogios ao livro -, mas ainda assim a sensação de estar lendo algo feito por uma velha contadora de casos foi bem gratificante. Como se ela nunca tivesse feio outra coisa na vida. A velhice escancarada (será?), desbotada de nuanças eufemísticas, exposta na janela de nossos medos; o mundo sob a ótica de cinco amigos que caminham para o final da mesma estrada, cada um com uma paisagem diferente na janela; Fim pode ser isso, fazendo rir, levando o leitor por uma agradável caminhada, como quando lemos uma boa crônica do Veríssimo.

Findo Fim, encarei A História do Rei Transparente (Rosa Montero, Ed. Ediouro, Trad. Joana Angélica d'Avila Melo), que há uns tempos me espiava de minha cabeceira, emprestado por uma amiga. Talvez se eu tivesse lido em outros tempos, quando as descrições suculentas das batalhas de George R. R. Martin, nas Crônicas de Gelo e Fogo, ainda não tivessem invadido minhas caraminholas, eu tivesse saboreado Rei Transparente com mais generosidade. Mas me vi entediada diante de descrições que, comparadas às de Martin, parecem marola onde Gelo e Fogo é profundeza. A comparação me foi inevitável, juro que não a busquei conscientemente. Mas era ler "palafrém" ou "cota de malha" e me empertigar na cadeira à espera das sequências de tirar o fôlego... que não vinham. No mais, a mistura de personagens históricos e lendários interagindo com os protagonistas me pareceu interessante - mas posso seguir falando do livro com adjetivos do mesmo naipe ("interessante", "bacana", "legal"), sem sacar nenhum "imperdível". Ainda que o tema seja instigante - a famigerada Inquisição, as guerras em nome da fé nos séculos XII e XIII - foi bom ter lido, mas foi melhor ter acabado.

E acabei com pressa, porque mal podia esperar para ler meu primeiro Mia Couto. Agora sei um pouco, ao menos, desse cara que diz que nossas dores antigas "migram para dentro de nós, alojam-se algures no nosso ser, submersas num fundo de lago". E quem já teve suas despedidas acaricia a página. Ler Mia, para mim, até aqui, tem sido seguir por uma história boa salpicada de frases que releio em voz alta, para que elas me abracem e, de alguma maneira, não saiam mais de mim. Terminei há pouco A Confissão da Leoa (Cia. das Letras), já a bordo dos contos de Cada homem é uma raça (Cia das Letras) - no primeiro conto já busquei alguns abraços.

*** 

Estou de férias outra vez. Na terça-feira que vem, o Mia Couto e outros dois livrinhos já reservados para os próximos abraços vão entrar  na mala. Seguiremos para o lugar que por muitos anos tive certeza absoluta de que não visitaria jamais. Fiquem de olho nas minhas certezas. Vamos levar nossos filhos à Disney, Orlando furou a fila. Já no clima da viagem, tenho certeza (olha, outra certeza) de que vou me divertir horrores e de que meus filhotes vão dar pulos de alegria. Se já nos esbaldamos no Beto Carrero e no Beach Park da vida, imaginem o que serão as próximas semanas. O melhor da festa, contudo, será a companhia. Uma amiga queridíssima, daquelas amizades de mar sem fim, irá se juntar a nós em Orlando. Ela vai com marido e filhos das idades dos meus. Seremos uma trupe barulhenta, com quatro crianças que pela primeira vez circularão pelos tão badalados parques daquelas bandas. Reza a lenda que, no fundo, seremos oito crianças. Tô curtindo essa lenda aí. Vumbora.

***

Além de minhas leituras da vez, levo na mala alguns exemplares de Contos do Poente encomendados por leitores que moram nos EUA. Em 30 de janeiro, quando estarei berrando e me descabelando em alguma montanha-russa da vida, a Luciana Nepomuceno fará o lançamento do livro em Fortaleza/CE, num evento cheio de boas atrações. Em breve, o convite bonitinho pra vocês. As vendas seguem em Florianópolis/SC, na livraria Nobel do Floripa Shopping, e para todo o Brasil pelo e-mail contosdopoente@gmail.com. Leitores fora do Brasil podem pedir também, os detalhes de envio são explicados por e-mail.

E em fevereiro, será a vez de Rio e São Paulo. Conto tudo depois. :-) 


Meus filhos e o E.T.


Eu precisava pular da cama de madrugada para uma curta viagem a trabalho. Voltamos cedo do jantar na casa dos amigos, eu com a intenção inabalável de me enfiar sob os lençóis às dez da noite, mesmo que isso seja algo um tanto esquisito para mim, acostumada a permanecer acordada sempre até muito tarde. Ulisses assumiu a função de botar as crianças na cama. Já de pijama e com tudo engatilhado para apagar a luz do quarto, decidi distribuir beijos de boa noite. Encontrei os três no escritório, diante do computador. Arthur foi logo anunciando que o pai tinha conseguido encontrar o filme ET na internet, já que não tínhamos tido sucesso na locadora. Queríamos mostrar a eles essa pérola de 1982. Eu tinha 10 anos e não cheguei a ver o filme no cinema, mas a musiquinha e aquela bicicleta arregalaram meus olhos na sala de minha casa, lembro bem. Pois bem, fui logo tratando de acabar com a festa, onde já se viu, ninguém ia ver aquele filme àquela hora, eu precisava dormir, as crianças também, olha a hora bla bla bla, quero ver, vamos deixar para ver amanhã, bla bla bla...

- Só o iniciozinho. - alguém falou

Tá, só o iniciozinho tudo bem. O filme não tinha legendas, nem era dublado, as crianças não conseguiriam mesmo acompanhar a história. Começamos traduzindo as primeiras falas, explicando a eles o que estava acontecendo. Amanda se sentou no colo do pai. Arthur puxou a cadeira dele para perto do computador, enquanto eu permanecia de pé atrás dele me despedindo e dizendo que ia dormir porque precisava acordar cedo, aquela conversa. Quando dei por mim, já estava sentada na poltrona, pedindo para Amanda tirar o braço da frente que eu não conseguia ver direito. Quando as crianças ficaram com medo, fiz minha última tentativa:

- Ulisses, eles vão ficar com medo na hora de dormir, vamos deixar pra ver durante o dia? E eu preciso dormir porque vou acordar ced...

Aí o ET devolveu a bola pro menino, a sequência toda começou a ficar interessante demais e eu já estava conformada. Meus filhos se envolveram completamente com o filme. Sentiram muito medo no início, morreram de rir com a pequena Drew Barrymore (amor eterno), vibraram e, principalmente, ficaram muito, muito emocionados. Quando o Arthur achou que o ET havia morrido, caiu em prantos e correu para meu colo. Amanda cobria os olhos com as mãos, "não quero que ele morra!". Quando tocou a musiquinha, sequei a lagriminha. Foi absolutamente adorável. Dormi tarde pra caramba, mas pulei da cama no meio da madrugada e fui trabalhar feliz por ter cedido e visto o filme com eles. Vamos repetir a dose em breve, em versão dublada, para que não precisemos fazer a ponte em muitos dos diálogos. Amanda quer conhecer um ET, anda me perguntando se acredito em vida por aí, no espaço, em outros planetas;  disse que seria legal se pudessem misturar o filme ao do Senhor dos Anéis, assim ele poderia ficar invisível e fugir daqueles adultos que queriam capturá-lo.


Não sei se vocês andam vendo ET com seus filhos, mas, olha, recomendo com força. Foi inesquecível, de novo, 32 anos depois. 

As janelas do elevador


O dia amanheceu com cara de bravo, mas logo deu uma piscadela. Tímida, mas ainda assim. Comecei com preguiça, admitamos, ando cansada e vou dizer que é por dormir pouco, mas não sejamos ingênuos. Estou nessa toada há muito tempo; no entanto, pensar que é uma fase pode ser útil, anotem aí. Fingimos ser o sono pouco cobrando seu preço, quando sabemos que é tudo pelas mudanças que não fazemos. Eu bem queria ter terminado aquele livro ontem, mas houve tudo aquilo que não interessa me surrupiando as horas. Mas eu dizia que me levantei com preguiça, segurem o foco. Vesti qualquer coisa, prendi o cabelo de qualquer jeito, comi um pão com sei lá o quê, tomei um café - devo aqui reconhecer que minha caneca é boa ouvinte. Fui. 

Fiz o que tinha de fazer, suspirei umas três vezes, tomei outro café, agradeci o convite, doei as bicicletas menores, voltei pra casa, beijei as crianças, vi a dança da raposa de pelúcia, disse que sim, pode, levei o marido ao trabalho, vi o amigo, atendi a amiga no telefone, vi o outro amigo, fiz as unhas, li o livro, vendi livro, voltei pra casa, vi o cocô do cachorro e no segundo seguinte me esqueci dele, beijei as crianças, busquei o marido e a essas alturas já tinha estragado nove unhas, vi o cocô do cachorro e pensei "putz", almocei, elogiei, tomei o vinho, comi o chocolate, hum, quanto mais amargo, melhor (o chocolate, não o dia), reclamei do calor, fui ao trabalho, voltei correndo porque o telefone tocou, a filha tinha se machucado, levamos ao médico, não aqui não atendemos crianças, levamos ao outro médico, olá, tudo bem, vai ficar bem, torcicolo de novo, é comum, bolsa quente, assim assim, buáááá, calma, vai passar, levamos pra casa, beijei as crianças, disse sim, pode, acho que alguém catou o cocô do cachorro, voltei ao trabalho, de repente BUM, o moço se distraiu e bateu no nosso carro, não foi nada, a filha dele chorava alto no banco de trás, deixa pra lá, seguimos caminho, não restava nenhuma unha intacta, agradeci à amiga que segurou as pontas, expliquei à chefe, fiz o que tinha de fazer, morri de tédio, ressuscitei dez vezes, liguei pra casa, disse sim, pode, fui ao banco, pensei no livro, no que li, no que estou lendo, no que quero ler, no que estou escrevendo, olhei pela janela, o mau humor do dia tinha voltado, mas eu vi lá longe uma linha de luz branca sublinhando o horizonte, resistindo, e pensei eu também posso.

E no elevador você abriu janelas e disse olha por aqui, fica melhor, e eu me senti muito grata, meu amor.

***

Leio contos da Lygia Fagundes Telles e me sinto grata. Lygia, querida.

***

A noite chegou e fez o que o dia só ameaçou. Agora os céus abrem a represa, a água jorra e lava as esquinas. As trovoadas enlouquecem o cachorro, relâmpagos rasgam as nuvens e iluminam nossas janelas. Em algum lugar da cidade, alguém deve estar escrevendo uma história boa. 

Those big little things


- Arthur, vamos andar de bicicleta?
- Ah, não, mãe, meu livro tá no finalzinho, quero ficar lendo.
- Ah, mas tá bem fresquinho hoje, bom de andar de bike, vamos vamos vamos vamos vamos.
- Não queroooo...
- Vamos vamos vamos vamos vamos vamos... leva o livro...
- Tá booommm.

E nós fomos. O membro mais empolgado do grupo era o Floquinho que não sabia por qual porta do carro entrar. Saracoteava em voltas, balançando o rabo numa velocidade impressionante. A praça estava vazia quando chegamos, o céu completamente nublado nesse domingo com cara de primavera indecisa. Quando nos lembramos do calor sufocante da semana passada, nem lamentamos o dia que bem poderia ter sido passado à beira da piscina ou numa praia mais distante. Mas tínhamos optado pela praça ao invés do sofá e foi uma boa escolha. Aos poucos outras crianças chegaram com seus cachorros, patins e bicicletas. O Arthur escolheu a prancha de abdominais para se deitar e ler seu livro. Amanda seguiu em sua jornada para aprender a pedalar sem rodinhas de apoio, com a ajuda do pai. Fiquei por ali, caminhando o Floquinho, achando que a praça tá mal cuidada com toda aquela grama alta demais; e me espantando, mas só um pouco, com o descaso dos donos de cachorros em relação ao cocô que os bichinhos largam pela praça. Olhei para o Arthur mergulhado em Hogwarts e pensei nos contos da Lygia que deixei no banco do carro, mas resisti; em breve eu substituiria o Ulisses no auxílio às pedaladas ainda bambas da Amanda. 

***

Depois de algum tempo, você aceitou o convite do pai e foi pedalar também. Seguiu animado e rapidão pela ciclovia repleta de pequenos buracos, feliz com sua nova bicicletona. Como a minha segue presa em casa graças à chave perdida do cadeado, peguei a sua emprestada e também pedalei um pouco, enquanto você voltava aos papos com o Harry na prancha de abdominais. E foi naquela hora em que Floquinho e eu nos juntamos a você na prancha que meu dia ficou imenso. Eu me sentei à sua frente, observando a Amanda brincar de morcego nas barras, com aquele cabelão varrendo o chão onde os cachorros fazem xixi, e senti quando você tirou uma das mãos do livro e fez um carinho em minhas costas. Talvez Lord Voldemort estivesse infernizando a vida do Harry, já que você está no finalzinho do livro, mas ainda assim você se dividiu entre os feitiços e a minha presença. Você foi tão grande ali. Eu adorei o carinho, sua mãozinha coçando minhas costas, o céu branco, sua irmã bancando a ginasta, Floquinho exausto de encarar todos os outros cachorros da praça. Não foi nada complexo ou epifânico: foi sua mão nas minhas costas, você como você é, carinhoso, generoso, presente. Que bom que você foi junto. E não que eu seja ingrata, você sabe que adoro os dias mais coloridos, mas hoje não precisei do sol.
 
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