Do que fica


Às vezes acho que a gente cria "coincidências", inventando convergências para dar mais sabor a coisas sem qualquer parentesco ou semelhança. Como quando dizemos: olha, que coincidência, você me beijou pela primeira vez no dia em que fazia três anos que eu tinha passado no vestibular! Pois. Um jeitinho bobo de dar mais graça a eventos desconexos, mas com importância suficiente para querermos alçá-los à categoria "coisas incríveis".

No ano passado, a editora entregou os primeiros exemplares de Contos do Poente no dia 09 de dezembro. O carro do correio chegou no final da manhã. Era o dia em que eu revivia pela terceira vez a cronologia de seu último dia na Terra. A cada dezembro agora é assim. É bem verdade que penso muitas vezes nos momentos que antecederam sua partida em dias aleatórios ao longo do ano, em momentos absolutamente inesperados em qualquer estação, seja enquanto redijo um documento no trabalho, dou boa noite ao Arthur ou escolho tomates no mercado. Mas a cada 09 de dezembro a folhinha do calendário fica mais pesada, e o peito também. Nem sou tão ligada em datas, você bem sabia, mas o dia 09 de cada dezembro me traz você grande de novo. Então amanheço sabendo que eu tomaria café e iria à UTI para o horário das visitas e que eu conversaria com você como se você pudesse me ouvir. E que, momentos depois de eu sair, o hospital nos telefonaria e nós regressaríamos para lá absolutamente perdidos. E que o mundo seguiria girando no espaço, meus olhos arregalados, minhas mãos oscilando à procura das suas tantas vezes, meus filhos crescendo, a vida seguindo, você em mim.

Chega o dia 09 de dezembro de novo e me lembro de que no ano passado o carteiro me entregou os livros do lançamento e eu pensei "bem na hora em que mamãe se foi", como se existisse qualquer relação entre o horário do carteiro e a última batida do seu coração cansado. Uma invençãozinha para permitir importância a qualquer outra coisa no dia nove que não seja o fato de que você não podia mais.  

Em poucos dias irei à nossa antiga casa ouvir os ecos de minha infância. Vou de ouvidos bem abertos, com uma canção no coração. Aprendi que o amor fica. 

4 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

o amor é o que fica <3

Marcia disse...

Um grande abraço, Rita. <3

Juju M. disse...

Que cada ano, o 09/12 fique mais leve.

Janete disse...

O que dizer a você, tão detentora das palavras? Do fundo do coração: um forte abraço. Bem forte. E como sempre diz minha filhota: "eu mando um beijo pro seu coração."

 
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