Azul


Durante algum tempo, Belo Horizonte foi para mim a cidade onde Ulisses morava. Não era a capital de Minas ou a terra daquele povo simpático, mas o lugar para onde havia se mudado aquele menino com quem namorei na faculdade. Parecia um ciclo encerrado, o mineiro que havia voltado para casa. Isso foi antes de ele trocar Belo Horizonte por Floripa, claro, e a gente se entrelaçar de novo. Aí BH voltou a ser só a capital de Minas mesmo.

Com a mineirice, Ulisses trouxe o Cruzeiro para perto de mim. Não muito, que minha relação com futebol não é lá esse romance todo, vocês sabem - salvo em Copas, quando me rendo, facinha. Já o campeonato brasileiro não costuma tomar nenhuma tarde de domingo em minha vidinha afutebolística. Acontece, porém, que quando derrotou o Grêmio de virada na semana passada, o Cruzeiro ficou a um passo do título brasileiro (de novo). A mineirice de Ulisses aflorou com força. Foi um tal de reservar passagem e comprar ingressos antes de terminar a frase "Vamos para Bel..?". Quando dei por mim, estava dentro do Mineirão. O brasileirão, olha só, tomou de mim um final de semana inteirinho.

Não posso dizer que revi BH. Foi uma viagem corrida, no melhor estilo vim, vi pouco, venci. ;-) Do pouco que observei da janela do carro ou do curto passeio pelo bairro onde ficamos, vi uma cidade ainda maior do que eu me lembrava, mais barulhenta, mais agitada, mais mais mais. BH tamanho GG. Passamos metade do sábado no avião, metade da tarde tentando almoçar e o resto do dia paparicando meu cunhado, de quem gostamos demais. Ainda consegui dar um rápido abraço em uma amiga (mas um abraço bem dado: com café e pão de queijo recheado no Café com Letras do CCBB, anotem aí, delicinha - a meia hora mais bem aproveitada de Belzonte), mas há tantas pessoas que eu gostaria de ter encontrado em BH, que nem vou contar essa viagem como visita social. Continuo devendo.

O domingo pertencia ao Mineirão e para lá nos dirigimos no início da tarde. Escolhemos um restaurante em frente ao templo, digo, ao estádio (esse negócio empolga) e lá tive um gostinho da farra que vocês, amantes do futebol, vivem a cada ano/campeonato/fim de semana. O restaurante estava tomado de azul. Mulheres e homens smurfs entoavam seus hinos como se estivessem prestes a entrar no campo de batalha - ou a seguir atrás do trio elétrico, dá na mesma.

Para os dois minicruzeirenses de nosso grupo, tudo era festa. Cantavam sem saber a letra, batiam palmas. Arthur e Amanda nos acompanharam na fuzarca e estrearam em estádios de futebol em tarde de gala. Não de galo - oops, desculpa. Com a barriga cheia e a chuva despencando do céu, vestimos nossas lindas capas de chuva (o moço das capas de chuva deve ter ganhado um bom dinheirinho) e atravessamos a avenida. Chegamos de sapatos encharcados ao palco do inesquecível 7 a 1.  E aí dou o braço a torcer e admito: um estádio de futebol lotado é um trem lindimais, sô. Para todos os lados, azul azul azul. (Parênteses para registrar que é muito legal quando a torcida entoa o hino nacional com ênfase em "a imagem do Cruzeiro resplandece" - de arrepiar.)

Arthur não perdeu nenhum lance. Amanda se assustou com o barulho no primeiro gol. Instruída pelo pai, berrou forte no segundo e já pegou o jeito (fez uma carinha impagável quando a torcida xingou o juiz, by the way). O jogo foi emocionante, com o Goiás ameaçando adiar a festa até o último minuto. E não sei se a torcida que berrava ter o melhor goleiro do Brasil está com a razão, mas certamente foi ele, o goleiro, quem garantiu nosso grito de tetra no final. O Goiás quaaase marcou, mas o Cruzeiro se segurou e o estádio explodiu. Se para mim a coisa foi divertida, imagino para quem se envolve de verdade, torce o ano inteiro, vai sempre ao estádio. Bom, meu pé parece ser quente, tamos aí, é só convidar.

Deixamos o estádio e fomos visitar um velho amigo do Ulisses - atleticano. Disse que nunca antes na história daquela casa tantas camisas azuis, em noite de título! O mundo não é uma graça? :-)

Nesta quarta-feira tem mais, final da Copa do Brasil. No mesmo palco, um clássico que promete alguns infartes. Daqui do meu canto de torcedora eventual, acho que dá Galo, para alegria dos muitos amigos atleticanos - tá meio óbvio, né, já com dois gols de vantagem. Claro que tudo sempre pode acontecer (vide 7 a 1), mas acho que o azul hoje vai mesmo ceder lugar ao lado de lá. Vumbora.

De resto, agora o Mineirão não é mais só o campo dos gols da Alemanha. É o campo do primeiro jogo que meus filhos viram, do primeiro título que vi de pertinho. O campo que, quem diria, sequestrou meu final de semana - tudo isso ao lado do mineiro que um dia trocou BH por Floripa, ainda bem. 


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