Nosso primeiro acampamento


No início éramos três ou quatro montinhos: o povo aqui de casa, dois casais de amigos sem filhos e um outro amigo com o filhote. A ideia contaminou outros casais cheios de filhos de tamanhos variados e ontem fomos todos, seis famílias, para o meio do mato. Alguns com vasta experiência, outros, estreantes como nós (até já acampei uma vez ou outra muitos anos atrás, Ulisses idem, mas nada que se compare à delícia de encher o carro de tralha e ver nos olhos das crianças a expectativa bailarinando). Seria um Dia das Crianças pra ninguém botar defeito. E foi. Tratem logo de comprar suas barracas, ou desenterrar as velhas ou nos convidar, quem já for do babado. Porque, olha, adoramos esse negócio. o/

Como seria nossa primeira experiência no ramo, optamos por um camping bem estruturadinho - quando digo "meio do mato", portanto, leia-se "borda do mato" porque na real a civilização estava logo ali. Nem saímos da ilha de Floripa. O que é ótimo: já que gostamos demais da brincadeira é muito bom saber que há um camping por perto. O que não impede nossa animação por outras opções mais distantes, mais hard core, mais meio do mato mesmo, aguardem. :-)

Chegamos no meio da tarde de sábado. Não sei exatamente que imagem Amanda e Arthur faziam da palavra "acampamento", mas fosse ela qual fosse logo ficou evidente que a realidade superou as expectativas. De repente a cidade virou floresta, eles cataram seus binóculos, viraram melhores amigos da outras crianças que aos poucos chegavam e se esqueceram de que um dia dormiram sob um teto de alvenaria.

Escolhendo o lugar da barraca. "Aqui tá bom."

Minha intenção era fotografar o passo a passo, mas precisei ajudar o Ulisses e quando dei por mim a barraca estava montada. De modo que o passo a passo tem dois passos: esse e...

... esse. Né fácil?

Enquanto isso as crianças exploravam o espaço, os outros iam chegando e se instalando.

Amanda e a nova amiguinha observando pássaros.

O que elas viam: gralhas azuis enormes e lindas e que se aproximavam sem cerimônia. Delícia. 

Bando.

Tudo era absolutamente rústico: com umas pedras que encontramos no local, moldamos este artefato primitivo para coar café.

As horas seguiram em meio à comilança. Camping com churrasqueira, vão vendo, Ulisses e outro explorador radical fizeram hambúrgueres, outro fez churrasquinho, alguém levou um arroz delicioso, Ulisses levou sorvete, comemos bolo, marshmallow assado no espeto e o que mais botassem na nossa frente. Vou falar pra vocês: que coisa maravilhosa. Recomendo com força dez vezes. Quando a noite caiu, os temidos pernilongos faltaram, vejam só. Até sacamos o repelente e nos prevenimos um pouco, mas quem optou por ficar sem não se incomodou. Tem mais mosquito na minha casa, juro. Vai ver eles estavam de folga, olha que sorte. Lá pelas nove da noite, peguem as lanternas! Hora da trilha rumo à praia. Falei que o camping fica perto da praia? Pois. E aí sei que minhas crianças jamais se esquecerão da experiência. Lamentei de verdade as nuvens no céu, porque quando estávamos a meio caminho entre o camping e a praia, Ulisses sugeriu que apagássemos as lanternas. Se houvesse um céu estrelado, teria sido um deslumbre. Restou-nos a escuridão absoluta, momentânea, o burburinho da criançada ali no meio do mato escuro, coisa mais gostosa. Quando chegamos à praia, incomodamos os siris e pouco depois voltamos para as barracas.

Gatos noturnos.


Quem tem lanterna, vem.

No meio da noite, rumo à praia.

Com uma mão, ilumina; com a outra, fotografa.

O coitado do siri. 
  
Depois da caminhada, alguns foram para o banho (num banheiro rústico que a gente construiu, claro), outros foram comer mais, outros foram jogar dominó, as meninas foram explorar todas as barracas da região e outros se dedicaram a atividades típicas de destemidos exploradores. Como dormir, por exemplo. E aí, amigos, lembram das nuvens que nos impediram de ver as estrelas na caminhada da praia? Pois bem, elas despencaram num aguaceiro impressionante, acompanhado de uma sinfonia de raios e trovões linda de se ver. A chuvarada se prolongou noite adentro e chegou a espantar os "moradores" de uma barraca (não do nosso grupo) que literalmente levantaram acampamento no meio da noite e se mandaram pra cama quentinha em outro lugar. Em nosso grupo, alguns experimentaram diferentes níveis de, digamos, orvalho no interior das barracas e pequenos arranjos foram necessários (coisa pouca, como sair no meio da tempestade para empurrar a barraca mais pra lá, esticar daqui, secar dali). Nossa recém-comprada barraca passou no teste do dilúvio com louvor. Nenhuma gotinha, nenhum orvalhinho. O sono só não foi intocado porque a trovoada, queridos, acreditem, não estava para brincadeira. Eu, que não sabia do orvalho alheio, adorei a experiência. Como não havia vento, não senti medo e curti de verdade aquela barulheira toda sobre nossos colchões infláveis cheios de lençóis quentinhos e com duas crianças gostosinhas do nosso lado. Quero de novo, muitas vezes. Fotos da chuva não disponíveis, sorry.

O dia amanheceu com aquele cheiro bom de mato molhado e com, claro, muito mato molhado. As gralhas voltaram a nos cercar, assim como um lindo gavião que sobrevoou minha cabeça logo ali pertinho.

Procurem. 
    
Depois de mais comilança no café da manhã, optamos por não ir à praia. A temperatura mais baixa do que o esperado tornou a quadra de areia mais atraente. Ainda houve quem topasse uma partida de Catan enquanto outros empacotavam tudo. Desarmamos as barracas e nos mudamos para o lado menos selvagem do acampamento, munido de churrasqueira, quadra, playground e mais mato. Alguém instalou um balanço improvisado de corda e teve até fila. Durante horas a criançada se sujou de areia, a galera mais velha se entupiu de comida e tratou de planejar possíveis acampamentos futuros. Tudo seria perfeito não fosse a formiga ter decidido picar o pé da Amanda. Por alguns momentos, temi que a picada fosse de algum outro bichinho, talvez aranha, tamanha a gritaria. Mas tudo ficou bem e deve mesmo ter sido um beijinho de formigão. 





Stress.

A melhor frase veio das crianças dentro do carro na volta pra casa: "queria que hoje fosse ontem". Se tudo der certo, em novembro tem mais. 




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