Do mundo que não é de fadas ou heróis


Alguém me mostrou uma piadinha de mau gosto envolvendo a Dilma e me advertiu: 

- Não vai ficar chateada, hein

Eu não fiquei chateada. A pessoa não entendeu nada.

Eu não vou votar na Dilma porque eu a adore. Eu não vou votar nela por ter me esquecido dos problemas e das politicagens, dos conchavos e de Belo Monte. E não vou votar na Dilma porque o governo dela tenha me favorecido de alguma maneira. Não é nada disso.

Eu pertenço a uma determinada categoria profissional. Como sou do serviço público federal, as decisões que afetam diretamente meu poder de compra e meu estilo de vida são tomadas pelo governo federal. O governo Dilma não foi bom para minha categoria: não negociou com abertura e clareza quando mais precisamos, não cedeu às pressões de nossos sindicatos, não ouviu nosso apelo por uma urgente reestruturação de nosso órgão, assinou medida provisória que nos prejudica. O peso disso tudo em meu voto: zero. Eu não voto por mim, nunca votei. Não será agora. 

Eu não voto na Dilma, exatamente. Eu voto na diminuição da pobreza e na distribuição de renda, principalmente. No grosso caldo de complexidade que é a gerência de um país, essas são minhas prioridades. Não é que eu não ligue para a educação ou para a saúde, ou para as fronteiras ou a questão ambiental, ou para o salário do servidor público ou o PIB. Eu penso na fome, antes de tudo isso aí. E não acho nem de longe que os governos do PT são os únicos com o olhar para o problema. Apenas acho que os governos Lula e Dilma priorizaram a questão como nunca antes. Houvesse agora uma oposição inteligente e articulada, comprometida com os ganhos sociais dos últimos doze anos e com propostas viáveis de melhorias nos campos onde o governo Dilma mais pecou, teria meu voto. Obviamente, meu caro Watson, não é o caso. Olho para o outro lado da disputa e vejo nada que se assemelhe ao que espero para quem ainda está à margem. Vejo um discurso pobre e decorado, velhos e conhecidos grupos salivando para voltar ao poder e à farra do desmantelamento do que é público, apadrinhados pelo que há de mais podre na nossa combalida imprensa.  

Foi pelos "poréns" do meu voto que não adesivei meu carro, não troquei meu avatar, não gritei de bandeira na mão. Meu voto não é apaixonado, não é leve. É um voto necessário para tentar evitar o que vejo como um gigante retrocesso. Mas essa sou eu, você que faz a piadinha de mau gosto com a Dilma não precisa se preocupar comigo. Em seu lugar, eu estaria mais preocupada com você mesmo. Com você que acha que o Aécio vai "salvar" o Brasil. Desculpa, meu: não olhe agora, mas... não existe "salvar o Brasil". A eleição é um capítulo da política, não resume tudo. Seus brados de salvar o país só mostram o quão pouco você entendeu da História enquanto editava a piada chula com a presidenta. Se eu for falar em salvar, vou falar em salvar da fome. Isso pode ser feito e está sendo feito há doze anos. Lindamente. 

Eu vibrei com os governos Lula e Dilma em vários momentos. O último foi na semana passada, quando a ONU anunciou a saída do Brasil do mapa da fome. Eu vibro com as cotas e as universidades coloridas e multiplicadas pelo interior do país, com todos os programas na área de educação; vibro com o Mais Médicos; com as moradias do Minha Casa; eu morro de amores pelo bolsa família; eu fico feliz com o baixo índice de desemprego, porque afinal esse é um fator gigantesco no combate à pobreza. Nada disso me impede de ver os desgostos, as cessões vergonhosas às bancadas retrógradas do Congresso, a troca de favores, o descaso com as comunidades afetadas pela construção de Belo Monte. Eu vejo e lamento e sofro. E peso e acredito que minha escolha é a escolha possível. É o que temos para hoje.

Se Never ganhar amanhã, vou ficar feliz por morar em um país onde empolgados "salvadores" podem comemorar sua vitória. Quem viveu ou leu sobre a ditadura sabe o valor de um momento desses - o fato de que muitos eleitores de Never gostariam de ter a ditadura de volta é apensa uma ironia perversa, deixa pra lá. E vou continuar me engajando no que acho justo, votando por quem mais precisa. Vou torcer para que os danos sejam mínimos. Se Dilma ganhar, vou dizer "ufa" e voltar a fazer as críticas que precisam ser feitas. Meus filhos, de 7 e 9 anos, já entenderam que não existe governo perfeito e que nosso voto em Dilma não faz parte de uma torcida de futebol. O Arthur até faz piadinha - não chula - com a Dilma, e rimos juntos. Amanda, sendo Amanda petralhinha, queria bandeirinha no carro, claro. 

Portanto amanhã, ainda e de novo, é 13.


4 comentários:

Sílvia disse...

Olá Rita, fiquei feliz ao ler a sua opinião.Em Portugal estamos a levar com um governo Neoliberal e a sofrer todas as consequências.Graças a Deus que existem pessoas como a Rita que pensa no bem dos outros. Beijinhos

margaret disse...

Rita, na falta de uma sabedoria como a sua, na falta de uma capacidade tão eficiente de articulação como a sua , só me resta dizer: Você é "totalmente demais"! Beijos, minha linda... extensivos a sua bela família!

Anônimo disse...

Excelente texto! Expressa exatamente a minha condição e meu pensamento. Ainda bem que 51 por cento do país pensa como nós.

Fabiana disse...

Rita, com semanas de atraso, seu post me lembrou a declaração de voto de uma amiga:

https://www.facebook.com/nathalia.duarte.9/posts/816414475046426

Estamos todas na mesma.

 
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