Vai chegar


Tenho um casal de amigos que terá um bebê a qualquer momento. Ela anda por aquela reta final da gravidez, quando dormir é uma aventura, a mala está pronta e o humor anda uma loucura. O último mês de uma gravidez, como dizem, pode durar um século. Será o primeiro filho deles e, portanto, vamos falar de um século e meio. Eu, aqui, longe, torcendo, mal posso esperar. Imaginem. Hoje acordei cantarolando uma velha música do Toquinho, pra eles.

Voa coração
que a minha força te conduz
que o sol de um novo amor
em breve vai brilhar
Vara a escuridão
vai onde a noite esconde a luz
clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora
e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor
que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia
o sonho a fantasia 
e a alegria de viver.

Voa coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa mais
quero lhe oferecer
O brilho da paixão
pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé
num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
De onde se planta a paz
da paz quero a raiz
e uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente
simplesmente ser feliz

Tenho fugido das idealizações em torno da maternidade, daquele discurso perverso que rotula toda mulher como mãe em potencial e, portanto, exclui todas as tantas e infinitas possibilidades. Essa minha amiga, contudo, escolheu ser mãe. E ela será a mãe que só ela será, diferente de mim, da minha mãe, da mãe dela. E o pai será o pai que só ele será. E isso parece tão óbvio, mas é imenso. Então não quero dizer a eles que sei o que vão sentir, porque ninguém sabe. Eu já disse muito isso, é verdade. "Você vai ver quando ele nascer!". Bom, eles vão ver, mas do jeito deles. Torço apenas que seja tudo feito de felicidade, coisa pouca. ;-) Quanto a mim, queria mesmo era sentir o cheiro do pezinho. 

***

Status: tentando decidir (ou perceber) se a minha pouca disposição para rebater argumentos forçados e desonestos reflete amadurecimento ou um retumbante fracasso na arte de conversar. 

***

Um livro do Mia Couto traz belezas tamanhas que a chuva fina que cancela o passeio de bicicleta parece menos trágica. O sofá aceita as estradas que "suportam distâncias", um menino com vestes "da cor do caminho", um caderno com histórias que põem os tempos em "mansa ordem". Penso que ler Mia Couto seja algo a se fazer devagar, num sábado igual a esse, de céu cinza e chuva silenciosa. Nada deveria perturbar a melodia triste que brota das páginas generosas de Terra Sonâmbula. Ler Mia é um descobrimento quietinho, com alguma cerimônia, como quem espera a lua que logo sairá de trás do morro. O encanto é garantido.

***

A Joana Faria, ilustradora de Contos do Poente, participará da Crafty Fox Market, em Londres, na semana que vem. Eu iria a pé, se pudesse. A Joana tem lugar de honra em minha torcida pelo sucesso, por ser uma pessoa incrivelmente talentosa, claro, mas também por esbanjar bom gosto, inteligência e simpatia. Em Londres na semana que vem? Corre lá. Não sei quando vou corrigir a terrível falha de ainda não ter me encontrado com ela pessoalmente, apesar de termos lançado um livro juntas - o mundo maravilhoso da internet! Espero que não demore muito. Vem pra Floripa, Jo!

***

Escrever é triste, diz um bom blog por aí. Digo: escrever é, antes, um silêncio. Preciso varrer as palavras e o mundo para longe de mim. Só então consigo encarar de frente o medo e o abismo. Só em silêncio posso segurar firme o lápis de desenhar histórias. Quero todas as tristezas, as buscas, as perguntas espantadas de surpresa, presas na garganta. Quero longe de mim as respostas fáceis, as certezas, o barulho de quem grita que já sabe. Quero uma escrita feita das palavras que ouço quando o mundo se cala.

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Eu tô na "caminhoneta" (aka ônibus) e caí no choro. Você é lindemais. E, sim, eles vão ver <3

Luciana Nepomuceno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
 
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