Reizinho


A primeira vez em que ouvi falar da biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo Cesar de Araújo e lançada em 2006 pela Editora Planeta, foi em 2013, quando o livro já havia sido recolhido das livrarias por força judicial há cerca de seis anos. Vejam que garota antenada. Foi na época em que o assunto invadiu as redes sociais por causa das controversas manifestações dos integrantes do grupo Procure Saber. Durante vários dias, minha TL trocou ideias em torno da decepção por ver figuras como Caetano e Djavan falando da importância da autorização prévia para lançamento de biografias, amparados pelo tal artigo 20 do Código Civil, alegando direito de proteção à privacidade. Muitos queixos caíram. O assunto quase virou o único tema das conversas quando Chico Buarque atacou o biógrafo de Roberto Carlos alegando não ter dado uma entrevista mencionada na tal biografia - e logo desmentido pelo vídeo e pelas fotos da entrevista. Muitos corações se apertaram. Foram semanas animadas nas redes sociais, cheias de piadas sobre Chico, "liberdade mais ou menos" e quem te viu, quem te vê. E posteriores perdões ao Chico, claro (que, diante da comprovação da entrevista, se desculpou com o autor).


Dificilmente eu compraria a biografia proibida na época de seu lançamento. Não que não goste de ler biografias, bem pelo contrário - gosto muito. O que falta é interesse pela história do Roberto Carlos. Ainda que eu reconheça seu valor para a história da música brasileira, a relação fica por aí: reconheço, mas não é minha praia. No entanto, por causa da celeuma que invadiu meu Facebook em 2013, o novo livro de Paulo Cesar, O Réu e o Rei (Cia das Letras) me saltou aos olhos na livraria. Algumas amigas vinham falando sobre ele, tecendo elogios ao livro, e foi ele a minha escolha para presentear um amigo em seu aniversário. Por impulso temperado pelas conversas de 2013 acabei comprando um exemplar pra mim também. Ainda bem.

Adorei.

O Réu e o Rei conta a história pessoal de Paulo César com Roberto Carlos: o amor de fã, a infância do menino pobre que ouvia as músicas do ídolo pelo alto-falante da praça, a expectativa ano após ano pelos novos sucessos do ídolo de milhões de brasileiros. Fala da trajetória do garoto baiano que migrou para Sampa e Niterói, de como conseguiu conciliar trabalho e duas faculdades. E de como se tornou o historiador que ganhou destaque com seu primeiro livro sobre a história da música brasileira, Eu Não Sou Cachorro, Não, lançado em 2002 pela Editora Record. O foco central de O Réu e o Rei se volta, claro, aos bastidores do processo movido por Roberto Carlos que culminou na censura à biografia Roberto Carlos em Detalhes.

O livro é saboroso. Os eventos da história pessoal de Paulo Cesar retratados no livro têm os ingredientes das boas histórias: teimosia, inocência, os pés no chão e os olhos voltados para o mundo, a aventura, a pobreza e a superação; o interior do Nordeste de décadas atrás, suas janelas e praças. As muitas entrevistas feitas durante a preparação da biografia que viria a ser proibida rendem páginas e páginas de relatos interessantíssimos. As entrevistas com Tom Jobim, Caetano, Tim Maia (hilário!), Chico e tantos outros são coroadas pela surpreendente história da aproximação do autor com o discretíssimo João Gilberto. Um deleite. 

Aí chegam os capítulos que tratam do processo. Se a intenção de Roberto ao recorrer à Justiça para proibir a biografia escrita pelo seu fã era proteger sua imagem, nunca houve maior tiro no pé. Os detalhes da preparação da biografia, das tentativas de entrevistá-lo e acima de tudo dos recursos usados para proibir o livro revelam, para mim, a encarnação da arrogância. Não acredito que exista nas páginas de Roberto Carlos em Detalhes nada capaz de manchar mais a imagem do cantor do que seu comportamento ao tentar impedir a circulação do livro. O relato da audiência de conciliação que resultou no acordo que tirou o livro do comércio é um exemplo constrangedor da operação da Justiça brasileira. Uma aula de como não fazer. Para quem acompanha a carreira do cantor, os relatos em O Réu e o Rei podem causar uma tremenda decepção. Para mim, que nunca antes havia gastado dois segundos de meu tempo para ler nada sobre ele, foi, ainda assim, uma surpresa e tanto. Não fazia ideia do quanto o chamado Rei se aproxima muito da imagem que tenho de meninos mimados e "cheios de razão". Um reizinho, por assim dizer.

Se eu fosse vocês, lia. Talvez haja um tiquinho de maldade em minha recomendação especial aos fãs do cantor, mas acho que vale a pena conhecer os bastidores dessa história. Quem gosta das canções, acho eu, não irá deixar de gostar por causa dos arroubos do rei - aliás, a proibição ao livro do Paulo Cesar é reincidência. Roberto Carlos já tirou de circulação outra biografia e tentou impedir a publicação de uma dissertação de mestrado tratando da Jovem Guarda. Olha, que teimoso, esse menino.

Há muita história boa em O Réu e o Rei  e achei a narrativa muito bem amarrada. O passeio nos leva dos anos 1960 até o início desse animado 2014. Na caminhada, vamos conhecendo pequenas anedotas envolvendo grandes nomes da música brasileira, mas também revisitando momentos da história musical do país. Aprendi um monte e vi que poderia ter aprendido muito também lendo a biografia proibida. As carreiras dos meus próprios ídolos da MPB se cruzam muito mais com a de Roberto do que imaginei em minha ignorância. Aprendi, também, que meu marido era fã de Roberto, dos grandes sucessos da era de ouro do Rei, lá pelos anos 70. Isso não está no livro, claro, mas foi impossível não falar de Roberto o tempo todo enquanto lia a ótima história de Paulo Cesar. Infelizmente, não teci muitos elogios ao rei, mas virei fã do réu.

***

Roberto Carlos em Detalhes segue proibido nas livrarias do país, mas dizem que bomba nas de Portugal (Roberto Carlos chegou a cogitar o veto por lá, mas aparentemente descobriu que o mundo é maior do que seu umbigo), em audiolivros, em versões piratas, no mercado, digamos, alternativo. Dizem que quem quiser ler, assim, com vontade, consegue. ;-)


2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Curti tanto o post! Morro de inveja que voc~e consegue falar de livros... eu não sei. Não li nenhum sobre o Roberto, um tanto porque não era relevante, outro tanto porque esse nome cobre, que nem o pai da moça, sua tira de pele. Mas esses dias um moço aqui comprou um LP. Desses antigos em que não dá pra dizer direito de que ano é, finm dos 70? blusa azul, casaco, talvez um medalhão... e músicas muito mais interessantes do que eu pensaria. É bem triste que ele não tenha encontrado um Pacha pra ser um Kuzco melhor...

Anônimo disse...

O melhor relato que já li sobre o rei (assim, minusculo mesmo).
Parabéns Rita, você tem o dom.
Adriane.

 
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