"Drama, drama - DRAMA, até que você não suporte mais"


(O título do post é uma frase usada alguns anos atrás em chamadas do canal Warner para anunciar temporadas de suas séries classificadas como "Drama". Ulisses e eu morríamos de rir da apelação. A frase poderia ser usada para anunciar o livro de que falo aqui.)


***

Depois de várias semanas lendo a conta-gotas, terminei minha leitura de O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini (Ed. Globo Livros, tradução de Claudio Carina). A impressão que fica é a de que um novo termo precisa ser criado para classificar esse livro. Sugiro "drama dramático nível master" - pra que tanto sofrimento, Hosseini, meu filho?

Quem molhou as páginas de Caçador de Pipas com lágrimas descontroladas e  conheceu a história das mulheres retratadas em Cidade do Sol, do mesmo autor, já deveria esperar dramão no terceiro livro do cara. E eu esperava. Ainda assim, é de se perguntar quanta desgraça e tragédia cabem em menos de 300 páginas. Se escritas por Housseini, olha, o sofrimento transborda as margens, invade a contracapa e deixa o leitor meio cansado. Ao menos um sorriso, um fato feliz, nem que fosse em meio parágrafo? Nananina ninanão. Leia e lamente. Sofra, leitor, reconheça soluçando que o mundo é um lugar injusto. Ok, vá lá, acabo de me lembrar de duas frases felizes ali pelo capítulo um ou dois. Não deve haver mais do que isso.

Dado o recado de que o vale de lágrimas não tem fim, vamos ao que resta: a história não é ruim, alguns personagens são interessantes. E gosto da variedade de cenários (Afeganistão, França, Estados Unidos, Grécia) e de épocas (sei lá quantas décadas, umas seis, talvez). No entanto, a não ser que venha por aí mais um volume de sofrimento, fiquei com aquela sensação incômoda de personagens abandonados. A narrativa que vai e volta no tempo nem sempre resgata aquele personagem mais interessante, que some da história quando aparentemente tanta coisa ainda poderia acontecer com ele. Cheguei ao final do livro perguntando "e Fulano?", "como assim?". Li os agradecimentos procurando por um sinal de que a sequência será lançada no ano que vem para alegria da editora - porque, né, o menino é bom de vender livros. Não vi nada que indique sequência. Levando em conta os  personagens não tão interessantes, é uma boa notícia.

Não tenho nada contra histórias tristes, quem me conhece sabe. :-) Acho que beleza e tristeza rimam mesmo, muitas vezes. Dessa vez, contudo, bateu aquela sensação de que o drama se perdeu um pouco no vazio. Talvez a categoria "personagens que sofrem" não se sustente sozinha sem algo maior que o sofrimento apenas. Em Caçador de Pipas, por exemplo, a dor acarreta uma sequência de eventos transformadores, a história cresce. Em Silêncio, não. O sofrimento gera, adivinhem, mais sofrimento.

Ridícula que sou, chorei no final. Admito que tentei me conter pensando "não, não vou chorar com esse livro apelador, não é possível". Pfff, até parece que tenho chances. Chorei no momento mais tocante da história, quando a narrativa se aproximou daquele tom de Caçador de Pipas, aquele jeito de mostrar a beleza das coisas miudinhas. Quase perdoei Housseini pelas chacinas, abandonos, amizades despedaçadas, violência, crianças doentes e sozinhas, sonhos enterrados em um segundo de vacilo, guerra, solidão. Quase. Sequei as lágrimas rapidinho.

0 comentários:

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }