O limoeiro



(...) em 1949, uma ONU enfraquecida, reconhecendo a realidade, criou a UNRWA, a United Nations Relief and Works Agency, para gerar empregos e moradias às centenas de milhares de refugiados palestinos (...) rústicas construções de blocos de cimento foram levantadas nas areias de Gaza, entre as barracas e as fossas de latrinas. (...) As "ruas" dos campos de refugiados - vielas estreitas e sujas separando longas fileiras de casas de bloco de cimento - recebiam os nomes das ruas das antigas cidades dos refugiados, como Yaffa, Acca, Haifa, Majdal, Lydda e al-Ramla. Os refugiados mais pobres de Gaza sobreviviam com a dieta de 1.600 calorias diárias oferecidas pela UNRWA, incluindo uma ração mensal de dez quilos de farinha; um quilo de açúcar, arroz e lentilhas e leite para as crianças e mulheres grávidas. Sem carnes ou legumes, a dieta continha apenas os nutrientes e calorias necessários para manter a inanição afastada. (...) Para os refugiados - os destituídos do campo, ou os que estavam em melhor situação, (...) o trauma principal não era causado pela venda do ouro ou pela incerteza de terem alimento suficiente. O trauma era, sim, decorrente da saudade que sentiam de casa e, consequentemente, da desonra de terem perdido suas propriedades. Em todos os níveis econômicos, a interrupção da rotina na vida familiar causva marcas profundas nas crianças."

***


Na página de agradecimentos de The Lemon Tree, seu autor, o jornalista Sandy Tolan, afirma que para escrever o livro revirou arquivos de meia dúzia de cidades ao longo de sete anos, fez centenas de entrevistas e contou com a colaboração de testemunhas, acadêmicos, jornalistas e editores nos Estados Unidos, Bulgária, Cisjordânia, Jordânia, Líbano. Na introdução do livro, Tolan afirma que não fez "nenhum tipo de interferência na história", construindo sua narrativa a partir das entrevistas com familiares dos protagonistas, recortes de jornais búlgaros, relatos traduzidos do árabe, relatórios militares de Israel, além de várias outras fontes em bibliotecas e arquivos históricos. Li uma edição traduzida para o português por Rosana Teles, publicada pela Ed. Landscape, e gostei. Aqui o livro foi publicado como Uma Esperança de Paz. Li sem esperar encontrar uma fonte "neutra", porque, a rigor, nem acredito que isso exista; esperava ao menos um relato não inflamado, razoavelmente equilibrado, sobre o longo conflito entre árabes e judeus na Palestina ocupada, e fiquei satisfeita. Talvez não acrescente muita informação a quem vem lendo sobre o tema há tempos; ainda que esse seja o caso, contudo, The Lemon Tree oferece uma história tocante que se escreveu junto com a história da fundação de Israel e das consequências que o evento trouxe para o povo palestino. Ler essa história neste momento, quando Gaza computa mais de 1800 mortos em um mês, me deixou com vontade de espalhar exemplares do livro por aí.

É possível que este post contenha spoilers. É possível que os spoilers em nada interfiram na experiência de ler o livro, dado o contexto histórico. Tentarei evitá-los, mas posso me equivocar em meu julgamento sobre o que vale ou não manter em silêncio para a descoberta de cada leitor. Fica o aviso.

The Lemon Tree é a história de Dalia, judia de origem búlgara, que ainda bebê migrou com a família para a Palestina, em 1948. Era o ano da formação de Israel após o plano de partição da ONU que dividia a Palestina entre árabes e judeus. A família de Dalia era uma entre muitas das milhares que migraram para a região após a Segunda Guerra, entre sobreviventes dos horrores do Holocausto e famílias desoladas com a situação da Europa. Muitos búlgaros deixaram para trás um país devastado pela guerra e seguiam celebrando a criação de um Estado judeu na chamada Terra Santa.


É também a história de Bashir, árabe nascido na Palestina em 1942, morador da cidade de Ramla, hoje oficialmente pertencente a Israel. Quando Bashir nasceu, a Palestina ainda  se encontrava sob o domínio britânico que vigorava desde o final da Primeira Guerra. Há tempos o crescimento da imigração de judeus era centro de acirradas discussões e conflitos, além de conversas internacionais sobre a criação de um lar nacional para os judeus em terras palestinas, o que alarmava os árabes que há séculos eram maioria na região. Quando em 1948 os árabes rejeitaram a proposta da ONU e Israel se declarou independente, a população árabe viu cerca de 55% de seu território passar ao domínio judeu, incluindo aí a maior parte das terras férteis da região. A primeira guerra árabe-israelense começou. Israel avançou sobre territórios além das fronteiras estabelecidas pela ONU, e a família de Bashir teve de deixar a casa que seu pai, Ahmad, havia construído em 1936. Estima-se que mais de 700 mil palestinos deixaram seus lares, expulsos pelo novo estado israelense que rapidamente se esparramou por cerca de 78% da Palestina. Por outro lado, milhares de judeus hostilizados em diversos países migraram para Israel, aumentando a população judaica na região para a casa dos milhões.

O livro de Tolan contém detalhes sobre os dois quadros antes de 1948: o dos judeus búlgaros durante e após a Segunda Guerra, e dos árabes de Ramla durante o domínio britânico. Com a guerra de 1948 - que judeus chamam de Guerra da Independência, e árabes palestinos chamam de Catástrofe - conhecemos a história da fuga da família de Bashir e da chegada da família de Dalia à cidade de Ramla. Dalia aprenderia depois que a família daquela casa fugira covardemente, sem qualquer desejo de manter seu lar, quando Israel anunciou a independência. Somente depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Bashir conseguiu driblar fronteiras vigiadas pelo exército israelense e visitar sua antiga casa, Dalia começou a enxergar o outro lado da história. 

The Lemon Tree contém informações documentadas sobre o quadro político que levou à Guerra dos Seis Dias em 1967, o surgimento da OLP, da FPLP, Fatah e Hamas, o inacreditável massacre de Sabra e Chatila por milícias libanesas e forças israelenses na década de 80, as repetidas negociações falidas, o contínuo avanço de Israel com assentamentos judeus em áreas ocupadas, a quase utópica esperança dos palestinos em retornar a suas casas e retomar as fronteiras pré-1967 (Israel se expandiu ainda mais em 1967, praticamente controlando militarmente o que sobrara de território dos palestinos), os levantes e intifadas, os homens-bomba, os terríveis atentados vitimando civis israelenses; o papel de Clinton, Bush, Rabin, Sharon, Arafat nas negociações (este último passando do posto de líder adorado a traidor da causa palestina), que pareciam (e ainda parecem) nunca realmente colocar na mesa as requisições do povo refugiado.

Emaranhadas na narrativa histórica, estão as vidas de Dalia e Bashir. O encontro em 1967 se repetirá em vários momentos. Como judia que migrou ainda bebê para Israel, Dalia muitas vezes experimentará o medo de ver seu país atacado, sentirá revolta diante dos ataques terroristas. Bashir se envolverá com movimentos de resistência, será acusado, preso e torturado mais de uma vez, cumprirá pena. Dalia se esforçará para entender as decisões de Bashir que jamais abandonará sua convicção de que a criação de Israel tal como se deu não pode ser aceita pelo povo palestino. Bashir conhecerá novos exílios, Dalia se espantará com o grau de violência a que podem chegar as ações militares de seu país e se sensibilizará, graças ao seu olhar à família de Bashir, com o sofrimento dos palestinos refugiados.

Num dos momentos mais tocantes da história de Bashir, entendemos a origem de seu hábito de manter a mão esquerda sempre no bolso da calça - certamente um dos momentos-chave na visão que Dalia viria a ter da ocupação israelense em territórios palestinos. Mas não foi aí que chorei. Na verdade, não chorei por um momento específico do livro - e bem poderia ter sido, talvez no episódio da mão, talvez na tristeza do pai de Bashir ao receber os limões frutos do pé que ele plantara no quintal de sua casa. Talvez pelo judeus massacrados no holocausto. Ou pela garota judia, colega de Dalia, que rejeitou outras garotas judias na escola israelense por serem judias africanas e negras. Ou pelos brinquedos explosivos espalhados pelos soldados israelenses como iscas para mutilar crianças palestinas logo após a criação de Israel. Ou pelo horror do massacre de Sabra e Chatila. Ou pelos estudantes do ônibus israelense que explodiu pelos ares. Mas quando chorei, foi por ter lido, fora do livro, sobre Gaza agora, em 2014, e imaginar com mais clareza os rostos assustados das famílias refugiadas, filhos de refugiados, num ciclo horroroso que parece caminhar para uma palestina cada vez mais encolhida.

Quando os pais de Dalia morreram, ela herdou a casa que fora da família de Bashir. Ela o procurou para decidirem juntos o que fazer com ela, num gesto enorme que mostrou o quanto ela havia aceitado ouvir da narrativa do Outro. Optaram por fundar um centro de estudos para crianças palestinas. A Open House está ativa até hoje e no site da casa é possível ler um pouco dessa história. Também existem informações sobre Dalia e Bashir pela internet. Ainda não fucei o suficiente para saber por onde andam, mas certamente o farei.

The Lemon Tree começa com Bashir tocando a campainha de sua antiga casa, residência de Dalia, em 1967. Depois de dar voltas no tempo, termina com um segundo limoeiro, em 2005. Eu gostaria de escrever que esse segundo limoeiro simbolizava a esperança e tal, algo perto do título dado ao livro em português. Mas, né, os últimos anos estão aí, 2014 está aí. Infelizmente, ainda não dá.

1 comentários:

Anônimo disse...

"Mas quando chorei, foi por ter lido, fora do livro, sobre Gaza agora, em 2014, e imaginar com mais clareza os rostos assustados das famílias refugiadas, filhos de refugiados, num ciclo horroroso que parece caminhar..."Rita, nessa reflexão você define toda tristeza que também sinto, pela impotência de poder fazer alguma coisa pra mudar essa história. Acredito que esse caminhar só tomará um rumo de paz, quando os homens(humanidade), conseguir se colocar no lugar do outro, olhando com os olhos do amor e da compaixão. Grande abraço. Hilda

 
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