Um livro de sol e sombras


"Later, the boy offered Ugwu a tiny bit of his stringy share. Ugwu thanked him and shook his head and realized that he would never be able to capture that child on paper, never be able to describe well enough the fear that dulled the eyes of mothers in the refugee camp when bomber planes charged out of the sky. He would never be able to depict the very bleakness of bombing hungry people. But he tried, and the more he wrote the less he dreamed."

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Estima-se que um milhão de pessoas morreram durante os quase três anos de guerra civil na Nigéria no final dos anos sessenta, quando parte do país lutou pela separação e criação da República do Biafra. Um milhão, entre mortos nos conflitos armados e os muitos mortos pela fome que assolou o então recém-criado país. A Nigéria venceu a guerra, se é que se pode usar a palavra "vencer" num contexto desses, e a República do Biafra foi dissolvida. Os personagens de Half of a Yellow Sun (Anchor Books) transitam pela Nigéria, nos meses que antecederam a secessão, e por Biafra nos três anos do conflito armado. É um livro sobre a guerra, mas também sobre as relações interpessoais das irmãs Olanna e Kainene, e sobre a maneira como a guerra definiu o rumo delas e de seus amores e amigos, num pequeno retrato do quão definitivo o conflito foi para a vida de milhares e milhares de nigerianos e biafras. Achei admirável como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie construiu seu romance evidenciando a trajetória que vai do pessoal ao coletivo à medida que a guerra se instala e domina o país. Os conflitos diários, o tecido de tramas que depois parecerão vividas em outro mundo - casar agora?, assumir aquele emprego?, visitar o tio?, buscar a reaproximação com a irmã? - tudo dá lugar à busca pela sobrevivência, aos cuidados com os famintos e doentes, à esperança de que a guerra enfim se acabe. 

Ler Half of a Yellow Sun é um pouco como olhar a guerra de dentro e ver onde ela toma sua forma mais concreta e cruel. Não mais o discurso meio esvaziado do noticiário genérico -tantas e tantas crianças mortas, um centro de refugiados, conflito armado, grupo rebelde, os separatistas. No lugar dessas expressões quase opacas, temos Olanna, Kainene, o garoto Ugwu e sua irmã, Anulika, a garota do bar, a moça do piano, os planos de Ugwu, a construção da identidade de Richard, a cozinha cada vez mais vazia de Olanna, a Nigéria, Biafra, a fila por comida, os alarmes, o abandono da casa, as malas feitas às pressas, os sequestros dos amigos, os livros queimados, o desaparecimento do colega de trabalho, o jantar que não virá, o corpo que muda com a fome, o medo. Matar pela fome, pelo isolamento. Comemorar a vitória em forma de massacre. Esconder comida, separar os cadáveres, juntar-se aos refugiados na estrada. Chimamanda consegue desenhar um retrato tão nítido da experiência crua de quem recebe a guerra em seu quintal que por vezes é preciso parar de ler e respirar. Voltamos em seguida, ainda que apreensivos e um pouco mais tristes, atraídos que somos por personagens que parecem nos contar uma biografia, não um romance. 

Não espere maniqueísmos fáceis, vilões e mocinhos, um lado óbvio pelo qual "torcer". A guerra transforma as pessoas, e na fome não somos muito mais do que isso, famintos. Lendo Half of Yellow Sun, é bom se desapegar das previsões à mão, pois elas escorrerão de seus dedos à medida que o alimento desaparece e a esfera pessoal se dissolve em meio à miséria de um povo inteiro. E aí está um dos pontos mais fortes do livro, personagens humanizados a ponto de nos causar profundo incômodo, mas igualmente capazes de nos encantar pelo amor e pela força quando mais se precisa deles. Uma história, eu diria, imperdível, um desfecho que me deixou em silêncio, com o coração dentro das páginas. Um livro que vou colocar nas mãos de meus filhos um dia, uma escritora a mais para eu admirar e sair por aí farejando sua obra. Chimamanda é uma linda. O mundo, um lugar louquíssimo.

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Mais da Chimamanda aqui, sobre feminismo.  

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