Belle, très belle


Em 1928, o escritor francês Joseph Kessel lançou Belle de Jour, romance que conta a história da vida dupla de Sevérine Sérizy. Casada com Pierre Sérizy, Sevérine vive um casamento cheio de conflitos quando o assunto é a intimidade física do casal. Do que li sobre o livro por aí, reza a lenda que Sevérine resolveu dar asas à imaginação fora do casamento e se transformou na bela da tarde, trabalhando como prostituta em um bordel, das duas às cinco, e voltando para sua rotina básica de casada no final do período. Não sei bem que recepção teve o livro quando foi lançado, mas a história migrou para o cinema e se transformou num dos mais badalados filmes do maluco, digo, do cineasta espanhol Luis Buñuel, em 1967, quando Catherine Deneuve arrebatou para si o título de La Belle de Jour. Para mim, no entanto, muito antes de ver fotos da deusa encarnando Sevérine no cinema, "bela da tarde" era uma canção do Alceu Valença sobre uma moça bonita na praia de Boa Viagem, na tarde de um domingo azul. Isso até ontem. Agora, a belle de jour é também feita de alguma matéria que desconheço, alguém que baila, voa, flutua e extrapola em muito os limites do corpo no palco ocupado pela companhia de dança da Deborah Colker. Ontem fui ver Belle, o novo espetáculo de Colker, livremente inspirado no livro de Kessel e, de novo, não me arrependi por apostar em seu talento e competência.

Belle não é meu favorito dela. Não superou, para mim, a experiência de ver Casa, ou talvez Rota. Ainda assim, especialmente na primeira parte do espetáculo, lá estava eu, pasma. Os primeiros momentos já valem o ingresso. As cores do figurino somadas aos efeitos de luz criam uma atmosfera vintage absolutamente irresistível. Os bailarinos, homens e mulheres importados de algum planeta onde as pessoas não têm ossos ou peso ou noção de perigo, logo me carregam com eles para aquele mundo lá, onde se voa. Sou feliz ali, vendo aquilo. O ponto alto do show, para mim, ocorre ainda na primeira parte, quando os bailarinos trazem ao palco uma enorme cortina branca e la belle levita por ela, elevada por mãos e corpos invisíveis ou quase isso. Genial, dona Deborah. O intervalo vem e respiramos antes do mergulho na fase bundalelê de Madame Sevérine Sérizy, no bordel mais bem coreografado do pedaço. De novo, show de corpos e o costumeiro domínio de todos os espaços do palco que a Deborah sempre mostra tão bem, mas, acho eu, sem superar o deleite da primeira parte. (Algumas imagens aqui.)

Falei para o Ulisses que os bailarinos de Belle fazem tudo que dizemos para as crianças não fazerem: pulam no sofá, dançam na escada (oi, Amanda, tudo bem?), escalam a cortina, sobem no abajur (!), sentam perigosamente no encosto das cadeiras. :-) Deixo a leitura crítica para os entendidos do babado. Fico com a leitura deslumbrada: gente, que coisa mais linda. Não tentem fazer aquilo em casa, ou no bordel; mas vão ao teatro. 

2 comentários:

Ana Paula Duyer disse...

Olá Rita!
Amei o post.
O achei em uma busca no google por Belle de Jour!
Adorei a forma como vc escreveu. Assisti ao espetáculo, e como adoradora das coisas de Deborah, como sempre, fiquei encantada! rs
Estou como louca com pesquisas. Meu tcc da facul será sobre o livro de Joseph Kessel, mas quero colocar influencias tanto do filme de Banuel, como do espetáculo da Deborah! Me deseje boa sorte! rs
Adorei o blog.
Beeijo

Rita disse...

Oi, Ana Paula! Que bacana, super boa sorte pra você!!

Obrigada pela visita!

Abraço!
Rita

 
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