Um amor


Nossa relação tem sido assimétrica desde o princípio. Como se ele tivesse percebido de imediato, no primeiro momento em que me coloquei em sua frente, que ele estava a anos-luz de mim. Para o bem ou para o mal, ele mantém-se impassível, elegante, classudo, fazendo sua parte para me manter o mais confortável possível. Nós dois sabemos, contudo, que ele deve ter percebido desde o início. A frase clássica, caso ele se permitisse tais arroubos simplórios, seria "sou muito areia pro seu caminhãozinho, querida, get a life". Desnecessário ressaltar que ele jamais expressou qualquer coisa do gênero. Pelo contrário, admito que os pontos altos em nosso relacionamento são mérito dele, a mim cabendo as teimosias, os arroubos, os momentos de desânimo, a falta de noção. Ele, sempre generoso, me oferta harmonia, possibilidades, crescimento. Eu tento receber. Há quem diga que um amor assim não pode render bons frutos. Como manter minha autoestima se é evidente que jamais serei digna de ostentá-lo como companheiro à altura? Como não sucumbir quando é preciso reconhecer minhas limitações em contraste à sua beleza, seu potencial, ao impacto que ele sempre causa no ambiente onde está? Sequer tenho coragem de ficar ao seu lado em público, certa do absurdo. Sei que não é sua intenção, mas preciso admitir que ele me humilha. Eu insisto, mas há dias em que ele se revela em toda sua complexidade, expondo minha pequeneza, minha falta de talento. Acontece que já estou nessa relação há tempo suficiente para saber que não se trata de uma paixonite. É uma forma qualquer de amor.  E por isso me nego o recolhimento e opto pelo prazer possível. Vai ser assim, eterno enquanto durar, o piano e eu, numa relação aparentemente impossível, com uma dor que me enche de alegria em cada tentativa. Vejam vocês que não há mesmo razão nas coisas feitas pelo coração. 

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