Suspension of disbelief (ou: a Copa)


Eu me lembro com muita nitidez de euforia que cercou a Copa do Mundo de 1982. Não seria capaz de recitar a escalação da seleção brasileira, porque minha relação superficial com futebol não abre espaço entre meus neurônios para tal façanha; mas eu me lembro do Sócrates, do Zico, do Falcão, do Júnior. Acho que o goleiro se chamava Valdir Peres. E me lembro muito bem do nome Paolo Rossi, o jogador italiano que acabou com nossa alegria com três gols em uma única partida. Eu tinha 10 anos e me lembro da sequência dos gols no 3x2 que nos eliminou na copa da Espanha: Paolo Rossi, Sócrates, Paolo Rossi, Falcão, Paolo Rossi. Eu me lembro que enquanto chorava no quarto senti um pouco de culpa porque eu achava o Paolo Rossi bonito. :-)

Naqueles tempos, minha mãe fazia lanche, empurrava as cadeiras para caber mais gente, abria a porta da casa para parentes e amigos. Jogo da copa? Lá em casa. Eu ganhava camiseta e bandeira. O vinil do Luiz Ayrão tocava sem parar. Até hoje, como bem me fez lembrar a Renata Lins outro dia no Facebook, a canção do canarinho de mala e viola na Espanha me aperta o peito. Não pela seleção - esse choro foi todo naquele dia; mas pela aura que a música me traz: minha casa cheia, a festa organizada por minha mãe, a alegria um tanto ingênua que o esporte nos proporciona.

Em 1986, a festa de meus 14 anos seria depois do jogo do Brasil. Mas Zico perdeu o pênalti durante o tempo regulamentar, e a seleção perdeu a disputa por pênaltis que se seguiu. Fiquei ali com os presentes, vendo os amigos irem embora cabisbaixos, a mesa de lanche um pouco remexida, meu aniversário estragado.

Ainda demoraria duas copas para sermos tetra e outras duas para chegarmos ao penta, mas nenhuma das copas que se seguiram às da década de 80 habita minhas lembranças com tanta nitidez. Com exceção da celebração pela classificação para a final em 1994, quando conversei com Ulisses pela primeira vez, e da divertida experiência de ver um jogo do Brasil na copa da França, as copas mais recentes são coadjuvantes. Mal me lembro onde foi a copa de 2006. De onde deduzo que a competição passa, ficam as lembranças do festerê e do chororô. 

Vai começar o único momento em que olho para campos de futebol. Meu filho tem 9 anos, será talvez a primeira copa da qual se lembrará no futuro. Minha mãe não abrirá a casa, não conheço "a música da copa" (há uma?) e acho que consigo dizer o nome de uns quatro jogadores, no máximo. Suspeito, contudo, que, quando a bola rolar, vou reviver um pouco a suspension of disbelief que copas e olimpíadas sempre me trouxeram. Talvez não com a mesma empolgação, mas em algum lugar do meu vasto mundo invisível espero encontrar aquela menina chorando com culpa no quarto. Os tempos são outros e a festa agora tem outros barulhos. Mas vou convidá-la pra brincar de novo, vamos ver se ela aceita.

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Em alguns aspectos, #nãovaitercopa. Sobre isso, a Camila se expressou lindamente, pra variar.


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