Dos pretextos


Por volta das quatro da tarde o dia escureceu como se o relógio da noite estivesse adiantado. Um sono persistente, companheiro do dia inteiro, já vinha fazendo a tarde parecer longa demais, de modo que aquele céu beirando o negro foi quase crueldade. Eu, que vinha pensando no meu edredom, me lembrei com mais nitidez do vinho da noite anterior e quis muito que não fosse apenas chuva, mas noite mesmo, com tudo o que ela tem de melhor, ou seja, pijama. Claro que não foi assim, e o resto da tarde se arrastou cada vez mais escuro e pesado. Quando a noite finalmente chegou, o trânsito que vi da janela fez minha cama parecer um tanto mais longe. Ainda haveria o estacionamento da escola das crianças, o jantar e as resenhas do dia, uma ou outra tarefa demandando auxílio. Juntei forças, encarei o trânsito, o estacionamento, a chuva. Não fui a mãe mais animada, mas mesmo assim compartilhei com eles nossas impressões daquelas horas tão longas. O banho ressuscitou um pouco a fé em meu corpo, arrumei forças para ler uma linha ou duas, digitar um par de sílabas. Sobrevivi como que rastejando de preguiça e culpando meu amigo vinho. Inventei um monte de desculpas para o espichar das horas, devo mesmo ter enganado um ou dois distraídos. Cá pra nós, é claro, você sabe, é tudo saudade.

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