Beleza, por que moras na tristeza?


"As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. 
Usamo-las por pura ilusão."
(pai de Halla e Sigridur)

Muito, muito tempo atrás, na semana passada, quando a Copa ainda não havia começado, terminei de ler A Desumanização, de Valter Hugo Mãe (Ed. Cosac Naify). E já se passaram eras, mas ainda me lembro que minha leitura foi picadinha em muitos lotes de poucas páginas, porque a rotina andava - e ainda anda - meio congestionada. Durante algumas semanas, o livro me serviu de escape do engarrafamento de horários apertados. E foram bons escapes, pequenas doses de ei, a poesia está aqui, pode respirar. A história que a menina Halla conta tem aquela tristeza larga causada pelas grandes perdas, mas tem também o afago do olhar igualmente largo de quem pressente as funduras do mundo. O cenário de fiordes e fendas infinitas da Islândia me pareceu costurado sob medida para os conflitos dos personagens do livro: há os penhascos das saudades, os ecos dos desejos, os mundos vastos, dentro e fora de nós.

A relação de Halla com sua irmã gêmea morta, Sigridur, permeia a narrativa com delicadeza, mas também com certo grau de crueza. A ideia da morte sempre trazida pela imagem da irmã enterrada - não por imagens etéreas de almas ou espíritos - coloca o leitor cara a cara com a dor de uma menina que percebe que algumas estradas são mesmo muito áridas: a semente não germinaria, sua irmã não viraria flor; tampouco o mundo seguiria o imaginário que criaram juntas enquanto partilharam a infância. É a lembrança de Sigridur, do lado de lá da vida, que, em certa medida, abre espaço para o crescimento de Halla, para suas rupturas e reencontros, inclusive com a morte, e a descoberta das alternativas mais inesperadas.

O texto de Hugo Mãe é a história que Halla vê e conta, mas é também um sensível relato dos dramas da linguagem (desde que Benedito Nunes nomeou seu livro sobre a obra de Clarice "O Drama da Linguagem", nenhuma expressão melhor me ocorre para falar do eterno jogo de esconde-esconde que é o reino doido das palavras; mas divago). Cabe principalmente ao pai de Halla (pelo menos em minha leitura) dar voz a esse conflito tão angustiante quanto inspirador. É ele, o pai poeta, quem escuta a filha e dá a ela palavras de presente. ("O meu pai põe palavras nas mãos e elas começam a piar e são iguais às andorinhas.") E enquanto fala da linguagem, Hugo Mãe a manipula como um artesão talentoso, com cuidado e sabedoria, e com reverência pela sua arte. Um tesourinho de livro. Triste como um adeus, mas lindo, lindo.


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