Quer trocar?


Meu álbum de figurinhas favorito era o Bem Me Quer. Eu e todas as minhas amigas éramos absolutamente fascinadas pelas meninas com roupas florais, seus cabelo cacheados espalhados sob chapéus enormes, cercadas por gatinhos, florzinhas, passarinhos. Passava horas em meu quarto folheando as páginas quase soltas do álbum, lamentando as figurinhas que faltavam, desejando ter dinheiro para comprar milhões delas. Lembro que anos depois do enorme sucesso do Bem Me Quer lançaram um semelhante, na mesma linha "meninas fofinhas", mas não cativou meu coração da mesma forma. Foi minha tia quem meu deu esse segundo álbum, e acho que ela deve ter gostado mais das figurinhas do que eu, porque já me deu o álbum com metade das figuras coladas, o que, admito, foi motivo de desapontamento segundos depois da euforia por ganhar o presente.

Meus filhos costumam perder o entusiasmo com as figurinhas lá pela metade do processo, algo que meu bolso agradece. Amanda, por exemplo, gosta do álbum no primeiro dia. Pede, insiste, ganha, abre envelopes, cola, fecha, não conta, não confere, esquece. Leva figurinhas repetidas para a escola e a) distribui entre os amigos, b) esquece no fundo da mochila, c) perde. Arthur é um pouco mais metódico e, via de regra, até que avança bem enquanto o assunto render entre amigos ou enquanto ele não conseguir aquelas figurinhas mais desejadas. Depois, gaveta, figuras espalhadas por aí, página virada sem apego. 

O tal álbum da copa está tendo uma história diferente. Começou na linha "todo mundo vai colecionar, vai ser divertido". Eu, como ex-colecionadora empolgada, disse sim, tudo bem, vamos comprar. Aí vi: mais de 600 figurinhas. Seiscentas. Whaaat? Socorro. Bom, com tanta figurinha, o início empolga, as repetidas são poucas em comparação às muitas fotos dos jogadores que rapidamente se multiplicam pelas páginas. Mesmo assim, o bolinho de repetidas logo virou um bolão. Explicamos ao Arthur que continuar comprando seria jogar (mais) dinheiro fora e que com muitas figuras repetidas é hora de meter a cabeça no melhor dessa história, o troca-troca. 

Uns amigos nos disseram que a galera andava se reunindo na praça do centro da cidade para trocar figurinhas. Resolvemos circular por lá e ver qual era. Passamos horas na praça, numa manhã ensolarada e deliciosa de sábado, conferindo tabelinhas de números e manuseando dezenas de bolinhos de figurinhas de pessoas que não conhecíamos. Olha, não parece, eu sei, mas acreditem, foi divertido. Fiquei impressionada com a quantidade de gente desocupada colecionadora como o Arthur, hehe. Arthur conseguiu trocar cerca de 80 figurinhas em negociatas com várias famílias. Vi mais adultos do que crianças. Alguns tentavam disfarçar, "é para meu filho", outros anunciavam que estavam colecionando dois do mesmo álbum, porque, olha, lançaram o com capa dura. Jesus. Enfim, minha lista de "nunca diga dessa água não beberei" só aumenta, passei uma manhã de sábado trocando figurinhas de fu-te-bol numa praça da cidade. Ou, em versão mais ampla: passei uma manhã de sábado interagindo com várias pessoas bem humoradas, rindo de si mesmas, conversando de igual para igual com crianças felizes e um pouco ansiosas, sentadas no chão, como num animado piquenique com estranhos.

Se vai ter copa, num sei. Mas a infância é uma delícia.  

6 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

adoro figurinhas. mas nunca curti álbuns. Daí que só comprava mesmo pacotes e mais pacotes, colecionava um pouco, depois distribuía e tal. E trocar figurinhas na praça: <3

antonio cerqueira disse...

https://www.facebook.com/#!/photo.php?fbid=312689465553730&set=pcb.312691125553564&type=1&theater

disse...

Vc viu que a minha manhã foi igual né? Esse negócio é uma febre! A banca de jornal fica lotada o final de semana inteiro e como moramos perto da escola francesa, imagine vc a quantidade de franceses trocando figurinha e todos super empolgados! E no meu trabalho? Trabalho em banco, escritorio, todo mundo sério, mil reunioes e na hora do almoço (e entre reunioes) todo mundo trocando figurinha. Desde o engravatado até a mãe de terninho trocando para o filho (euzinha). Confesso que tá divertido!

Angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela disse...

Ahahah que delicia!!! Morri de rir quando li o final desse post. Logo nesse finde que para mim foi na mesma linha. Trabalhos comunitarios com a tropa de escoteiros de Max seguido de dormida no acampamento dos escoteiros (dominado por meninos e pais, mas as costas de Pete nao estava podendo). Levei os dois sacos de dormir errados (os que estavam com o ziper quebrados). Ah, devido ao tempo louco desse ano, fez 0 graus. Ai tinha acabado de falar para mainha que esse negocio de criar filhos ta danado, ja tive que descer em toboga aquatico grande, fazer standup surf paddle no mar, ski em montanha grande, andar em montanha russa grande, cortar com faca grande, e agora dormir em acampamento de escoteiro. Foi bom saber que nao estou sozinha, amei justamente hoje ler o seu relato do troca-troca de figurinhas no parque da cidade. Beijao!

Janete disse...

Hahaha... não encontrou o Daniel por lá? Ele ficou umas 5 horas trocando figurinha... já terminou 4 álbuns, que segundo ele "são para os irmãos também..." Deixa quieto... mas ele adora isso e não sossegou enquanto não terminou todo
s.

 
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