Quebra-panelas e a galáxia dos gibis


Na minha infância, festa de aniversário tinha quebra-panelas.

Os adultos vendavam a criança com uma tira de pano e a faziam girar em torno de si mesma para deixá-la tonta e desorientada. A seguir, entregavam a ela um cabo de vassoura com o qual deveria acertar uma panela de barro, quebrando-a em mil pedaços e liberando as balas escondidas. Notem que ao redor da criança vendada e armada com um cabo de vassoura havia outras crianças ávidas pelas balinhas que seriam liberadas a qualquer momento e, por isso, arriscavam suas próprias cabeças. Porque, claro está, uma criança tonta e com os olhos vendados dificilmente acerta a primeira paulada no alvo. A brincadeira era sempre barulhenta, com a plateia dividida entre os que tentavam orientar a criança rumo ao pote de balas e os outros, mais sádicos, que ludibriavam a pobre aniversariante gritando "aqui, aqui!!", fazendo-a dar uma paulada na parede ou árvore mais próxima. 

Quebra-panelas era uma brincadeira para ser feita no quintal da casa, num tempo em que as festas infantis eram sempre feitas em casa, regadas a guaraná, bolo e brigadeiro enrolado pela mãe. Por causa de uma tarefa escolar da Amanda, precisei revirar velhas fotos. E lá estou eu, em meu vestido longo laranja bordado com um cavalo branco, venda nos olhos, cabo de vassoura na mão, rumo ao pote. Acho que nunca quebrei a cabeça de ninguém, mas me lembro que costumava ficar longe nos aniversários alheios, só por precaução.

Na boa, onde a gente estava com a cabeça quando fazia essa brincadeira? Certamente não diante do cabo de vassoura. Sem falar que as balas eram catadas e disputadas aos tapas entre cacos de panela quebrada.

***

Em outras fotos, estou sentada com o mesmo vestido, laço de fita na cabeça, ninando minha boneca de plástico. Ao fundo, minha penteadeira onde eu ostentava alguns brinquedos: uma minigeladeira (com ovinhos e forminhas de gelo dentro), um miniliquidificador, um minifogão, uma cadeirinha de balanço com uma minúscula boneca e, claro, a boneca "chuveirinho" em sua banheira que eu enchia d'água e, acionando um botão, fazia o chuveirinho funcionar de verdade - a glória (vide google)! Estão lá ainda a Família Barbapapa em isopor, meu pianinho onde eu só tocava "do-re-mi-fá - fá - fá; do-ré-do-ré - ré - ré..." e um pequeno berço desmontável para meu boneco Feijãozinho. Meu quarto era simples e bem pequeno, mas colorido e razoavelmente confortável. Por não ter janelas, minha mãe fazia questão de que eu mantivesse a porta sempre aberta - mas e as brincadeiras em que eu conversava sozinha? Eu dava um jeito e fechava a porta "só um pouquinho". Todo um reino. Eu poderia ter escrito o Guia das Meninas Tolas da Galáxia. 

***

A galáxia da Amanda é a dos gibis. 

- Amanda? (repete 3x)
- Humm?
- Larga o gibi e entra no chuveiro.
- Tá.[nada acontece]
- Amanda? (repete 2x)
- Oi? Falou comigo?
- *suspiro triplo carpado* Falei: vá tomar banho. Depois você termina o gibi. 
- Tá, só um pouquinho.
[passa um pouquinho]
- A-man-da!
- [bufa de irritação e vai pro chuveiro, deixando o gibi aberto na página interrompida, virado para baixo, sobre a tampa da privada]
[~Banhus infinitum~]
- Deu, flor, sai do chuveiro. 
- Me ajuda a me secar?
- Ok. [Aí ela pega o gibi e vai lendo enquanto passo a toalha, fazendo manobras com os braços para conseguir enxergar a história e mal contendo uma irritaçãozinha porque, né, estou lá passando aquela toalha que tá atrapalhando o gibi.]
- Larga o gibi e põe o pijama. (repete 3x)
- Tá. Mãe, sabe o que o Penadinho falou? Olha aqui...
- Agora escova os dentes. [repete 67 vezes; nesse meio tempo, ela já mudou de gibi e fala alguma coisa sobre o Mingau, gato da Magali]
Na sequência, preciso ser firme:
- Não, deixa eu terminar de passar o fio
Seguem os boas noites, os beijinhos, as cosquinhas, alguma birra, dependendo do dia. Mas sempre, invariavelmente, naquele segundo em que minha mão se ergue rumo ao interruptor, ouço o mantra:
- Posso ler um pouco?:-D
- Pode, só uma historinha.
- Iêba!

Todo dia.

***

Todo mundo vê todas as séries de TV. Não consigo acompanhar mais do que uma e meia. Vocês não almoçam?

***

Se eu viajasse no tempo e dissesse àquela menina da foto que, olha, um dia a Copa vai ser no Brasil e, a um mês do evento, seu entusiasmo vai ser zero, ela olharia de volta e soltaria uma sonora gargalhada. 

***

Muitas mazelas, tanta coisa pra arrumar, dor ali na esquina. Eu sei. Mas a história das meninas sequestradas na Nigéria derrubou meu queixo.

*** 

Só a escrita salva. Mas, por via das dúvidas, acho que vou retomar a terapia. Ou ler uns gibis na galáxia da Amanda.

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