O Professor


Comecei a ler O Professor (Cristovão Tezza, Ed. Record) com a avidez de quem considera O Filho Eterno imperdível. Filho Eterno foi o primeiro livro que li de Tezza e me manteve pensativa por dias, da maneira que, acredito, deve acontecer com muitos dos que se entregam ao livro. Quando fiquei sabendo do lançamento de O Professor, salivei. Bom, expectativa muitas vezes mais atrapalha do que ajuda. Não posso dizer que me decepcionei, mas alguma coisa desandou em minha leitura e, na reta final do livro, lamentei um pouco a perda da empolgação com que avancei pela primeira metade das páginas.

Sou fã de carteirinha de narrativas que lançam mão do chamado fluxo da consciência, a sucessão de pensamentos, às vezes desconexos, atropelando as falas, enroscando as ações dos personagens. Acho que me reconheço nesse formato de escrita, eu que vivo emaranhada em devaneios e tantas vezes me esqueço da caneta balançando na mão, tendo abandonado a lista de compras e iniciado uma longa viagem pelos planos para o dia seguinte misturados a rápidas lembranças de pequenices antigas. Fluxo da consciência em literatura me parece, portanto, realista, em uma roupagem que me agrada e reflete bem minha (nossa) forma de se relacionar com o mundo e com nossas próprias narrativas. O tempo da história em O Professor é um curto espaço de horas; o das histórias intercaladas é difuso, feito de reflexões e lembranças, nossa máquina do tempo. Para mim, essa estrutura é o ponto forte do livro. 

Heliseu tem setenta e poucos anos e é um professor de filologia aposentado. No dia em que será homenageado pela universidade, acorda agitado e inicia o ritual matinal de banho, café, jornal. Enquanto tenta articular um esboço de discurso para agradecer a homenagem, revisita em sua memória episódios marcantes de sua vida profissional e pessoal: a morte da esposa, o caso com a aluna, a relação difícil com o filho, as birras do meio acadêmico.

Tendo lido apenas dois de seus livros, olho para Tezza como quem mira um gigante. A sensibilidade sem pieguices d'O Filho Eterno é deslumbrante. Em O Professor, a maestria com as palavras na primeira metade me proporcionou quase uma hipnose, nem vi as páginas sendo viradas. Até que algumas repetições começaram a me soar barulhentas, outras alusões me pareceram cruas demais, e acordei. Talvez eu precise me despir do papel de tiete d'O Filho Eterno para ser capaz de assumir meus desgostos em O Professor. Ainda não consigo elaborá-los bem, mas sei que passam pela sensação de "já sei disso", ou pela reta final que, talvez, faria mais jus ao livro se tivesse sido mais econômica.

***

Mas se eu disser que estou refletindo muito sobre o livro, minto. Mal virei a última página, agarrei-me com Meus Desacontecimentos, da Eliane Brum. Volto já. 

1 comentários:

Tina Lopes disse...

Fiquei tão entusiasmada com a primeira metade de O Professor, achei que fosse defeito meu a demora para continuar na segunda metade do livro. Não seria o primeiro. Mas acho que, desta vez, realmente algo cai - não a qualidade do texto, mas o envolvimento que ele nos causa. Acho que acaba com as expectativas, está tudo dito naquela primeira metade. Bem, não foi uma decepção, porque quando é bom, é sensacional. (engraçado vc falar da sensibilidade de O Filho Eterno; gosto justamente da dureza do livro) Bjk!

 
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