Minha memória e eu


No meio da tarde da última sexta-feira meu marido ficou sabendo que precisaria viajar a trabalho. Por causa disso, precisei alterar os planos do final do dia, já que ele não poderia mais esperar o final da aula de futebol do Arthur no início da noite. Eu participaria da homenagem às mães na turma da Amanda no final da tarde e de lá seguiria com ela para uma festa de aniversário onde, mais tarde, Arthur e o pai nos encontrariam. Sem Ulisses, passei a bolar alternativas. Essa pequena desorganização nos nossos singelos planos de fim de sexta ocupou minha mente por alguns minutos, ladeada pelo desconforto causado pela ideia de que, de novo, Ulisses iria viajar. Foi o que bastou para eu me esquecer completamente da rápida tarefa agendada para o meio da tarde.

Meia hora antes da apresentação da Amanda fui para o colégio das crianças, já vendo sinais de que o trânsito nas próximas horas não seria para os fracos. Sem vaga no estacionamento da escola, dei mais uma circulada e deixei o carro a cerca de cem metros de lá. Participei da homenagem, afofei a filha, fui afofada, essas coisas. Um casal de amigos, que também ia à festa, levou Amanda com eles, e eu pude ficar no colégio acompanhando o futebol do Arthur. Quando Amanda seguiu para a festa, decidi levar meu carro para o estacionamento da escola, agora mais vazio com o fim das homenagens às mães. Achei a vaga maravilhosa. Eram 18h15min, mais ou menos. Quando eu estava manobrando o carro, o telefone tocou. Fui encaixando o carro na vaga e pensando "oba, deve ser o Ulisses dizendo que já desenrolou tudo lá em Blumenau e tá voltando!". Desliguei o carro e peguei o telefone. Não era o Ulisses. Era o pet shop. Era minha pequena tarefa do meio da tarde, esquecida para sempre. Pegar o Floquinho no pet shop. 

Contexto: o pet shop fica perto da minha casa. Eu havia deixado o Floquinho lá para aquela que provavelmente será a última tosa antes do inverno. Eu diria à minha chefe no meio da tarde "vou fugir por 20 minutos para pegar meu cachorro, volto já". Mas Ulisses disse que ia viajar e eu me esqueci do Floquinho. Eu esqueci o meu cachorro no pet shop. Podem jogar as pedras.

[intervalo para vocês jogarem as pedras]

Eu não podia reclamar de nada, estava absolutamente sem razão. Mas a moça resolveu me ligar às 18:15. Ela não me ligou às 16h, ou às 17h. Ela me ligou a quinze minutos de fechar o lugar. Só que eu não estava em casa, estava no colégio das crianças, bem mais longe. Em qualquer horário, eu até poderia chegar lá em cerca de 15 ou 20 minutos. Mas não às 18h15min de uma sexta-feira. Naquele horário, com aquele trânsito, eu precisei de uma hora para cobrir o percurso. Antes de sair do colégio, precisei encontrar uma alma salvadora para levar o Arthur ao local da festa depois do futebol (obrigada, Cláudia!!) e só então pude sair voando para o... para a esquina. Foi só chegar na esquina e ver o tamanho do desafio que seria cruzar meia cidade naquela trânsito. Entre a escola e o pet shop liguei para eles cinco vezes. Morta de vergonha e de medo de que eles desistissem de me esperar e fechassem a loja com meu cachorro engaiolado. A gerente me acalmou dizendo que ficaria lá até as 19h, que eu fosse tranquila. Mas, né, eu sentia a raiva na voz dela. Eu estava completamente errada na história, nem podia gritar "mas por que cargas d'água vocês não me ligaram mais cedoooooo?". Enfim. Cheguei às 19h17min. Recebi os olhares gelados dos donos do pet shop, o olhar feliz do Floquinho (tadiiiiinho!!) e o levei para casa. Aí finalmente fui para a festinha de aniversário, onde o Arthur me esperava para me contar que tinha feito seu primeiro gol. Que eu perdi porque me esqueci do cachorro.

Mais tarde Ulisses voltou. No dia seguinte comprei uma florzinha e escrevi um cartão com pedido de desculpas; fui ao pet shop provavelmente pela última vez porque nunca mais terei cara de deixar o cachorro lá, ainda morta de vergonha, entreguei a flor e, voltando pro carro, finalmente chorei. Meu jeitinho.

***

Na tal homenagem às mães na turma da Amanda, recebi um livrinho para escrevermos juntas "nossa história". Todo bonitinho, com espaço para anotarmos nossa receita favorita, nossas músicas preferidas, os filmes de que mais gostamos, qual a melhor viagem. Achei uma delícia. Ontem ficamos os três, Arthur, Amanda e eu, preenchendo os livrinhos (Arthur me deu um igual) e eis aí uma lembrancinha que guardarei para sempre. 

Eu já havia participado da homenagem da turma do Arthur durante a semana. No final de uma celebração religiosa, eles cantaram bem lindo. Foi legal e tal, mas torço o nariz para a homenagem às mães vinculada a uma celebração religiosa que, acredito, só faz sentido para as famílias católicas (era uma missa). Bom, como ninguém tá reclamando, já que a grande maioria das famílias parece ser católica, vou feliz ver meu filho cantar e tudo certo. Mas. O padre disse durante a homilia que certo cientista russo havia estudado todas (todas) as civilizações do mundo e descoberto os quatro preceitos que fazem o mundo funcionar direito, algo assim. Dentre eles, o último e que foi anunciado com mais ênfase, defende a ideia de que quando a mulher "cai em desonra", a civilização sucumbe. Anotem aí, mulheres. Só as mulheres.

Na boa. Fico boba. 

***

Minha mãe valorizava bastante o Dia das Mães. Entrava no clima, gostava de ganhar presentes, adorava as cartinhas que eu fazia na infância. A data tinha valor pra mim na medida em que tinha valor para ela. Agora, recebo os afagos com alegria porque meus filhos curtem o barulho e porque, ora, vumbora fazer festa, brindar no almoço, dar mais beijinhos. Mas optamos aqui em casa por fugir do ritual quase obrigatório de dar presentes. Ninguém precisa se preocupar com isso e o dia fica com cara de dia nacional do abraço prolongado. As lembranças que tenho de minha mãe e que me acompanham silenciosas todos os dias, às vezes nas situações mais insuspeitas ou nas gargalhadas que eu mais adoraria compartilhar com ela, não se fazem mais dolorosas ou melancólicas hoje. Mas fica aquela coisinha de um telefonema demorado a menos. Fica, sim.



1 comentários:

Fabiana disse...

[tomando cuidado pra não cair em desonra e, sem querer, destruir a humanidade]

 
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