Homeopatia, anjos e borboletas


Não acredito em milagres, astrologia, anjos ou fantasmas. Não tenho religião, não acredito em reencarnação, minha fé no além ficou no passado e sucumbiu a meia-dúzia de perguntas, cujas respostas inventadas substituí com tranquilidade por "não sei, e tudo bem não saber; não saber é um jeito possível de viver; não preciso explicar tudo". Etc. Convivo bem com amigos e familiares das mais variadas crenças, fico boba quando escuto alguns absurdos em nome da fé ("deus não aceita a homossexualidade" etc.) e toco o bonde. Tenho amigas que admiro um tanto que nem consigo dizer e que fazem mapa astral. Além disso, na hora do lazer dou de ombros para a coerência e morro de medo de filmes como Atividade Paranormal. Depois da sessão, passei dias com medo de ir à cozinha sozinha, como se tivesse 13 anos de idade, tempo em que li e vi O Exorcista e quase passei mal de susto.

Fui uma adolescente com o pé no misticismo, achava-me uma pessoa espiritualizada e a toda hora via sinais de vibrações energéticas por aí. Tinha pirâmides no quarto, fui Rosa Cruz e achava que a reencarnação era a resposta para todos os males do mundo. Depois passei a achar que o mundo é isso aí mesmo, fruto das ações humanas e efeitos naturais. As respostas desenhadas pela História e pela Ciência me fascinam muito mais e pelo menos aí, na Ciência, temos as evidências irrefutáveis de que o entendimento muda, de que ninguém sabe tudo e de que descobertas incríveis sempre estarão ali, na esquina, nos esperando - pelo menos enquanto a gente não destruir todas as esquinas. Teorias são contestadas e novas evidências aqui e ali às vezes bagunçam o coreto, num diálogo dinâmico e em eterna construção que faz muito sentido pra mim e que, me parece, refletem muito melhor a eterna e fascinante dança do universo em perene transformação. Há quem veja aí a transformação da Ciência em um tipo de deus. Longe disso. Parte do fascínio que tenho pelo conhecimento científico vem de seu caráter dinâmico. Quando um grupo de físicos contesta uma teoria há muito celebrada, onde uns veem evidências dos segredos divinos, eu vejo a beleza da evolução do pensamento científico. Volto sempre a imaginar o assombro que teorias como o heliocentrismo trouxeram para os viventes do tempo em que acreditávamos que nosso pequenino planeta habitava o centro do universo - uau, já pensou?

Tudo isso para dizer que, olha só, voltei à homeopatia, hahahaha. Li uma vez uma coluna em um grande jornal em que o colunista, que admiro por sua clareza de ideias em muitos campos, fazia chacota da homeopatia. Eu, leiga e completamente por fora da forma como os medicamentos homeopáticos são produzidos, não consegui refutar nenhuma de suas afirmações e fiquei ali engolindo as evidências que ele listava como típicas de efeito placebo. Como rebater aquilo? Como afirmar com convicção que uma ínfima quantidade de certa substância, diluída infinitas vezes, mantém qualquer propriedade de cura contra males tão palpáveis como alergias e falta de ar? Não consegui. No entanto, à medida que lia as convicções do jornalista, ia me lembrando da alegria que foi ver o Arthur, com 1 ano de idade, se libertar dos antibióticos em série, interromper as amigdalites, virar uma criança que "quase não fica doente". De novo, foi bom lançar mão do bom e velho "não sei, só sei que foi assim". Porque foi bem assim. Depois de alguns anos, abandonei até a homeopatia porque não quis mais dar medicamentos a quem nunca ficava doente. Não tive a chance de tentar a homeopatia em situação semelhante com a Amanda, porque quando a grande pneumonia chegou, aos 11 meses de idade, uma febre altíssima e um quadro que evoluiu violentamente em poucos dias me fizeram correr para o hospital e torcer muito para que os antibióticos surtissem efeito. Como se vê, homeopatia tampouco é minha religião e corro para onde enxergar maiores chances de reverter um quadro desfavorável.

Agora, com quase nove anos, Arthur tem rinite, Amanda, dermatite atópica. Ambas condições são, segundo as medicinas homeopata e alopata, parentes próximas da asma e de outras complicações respiratórias. Como venho de uma família em que a asma é uma velha conhecida, sinto arrepios. Aí a homeopatia realmente me parece bem mais atraente do que os corticóides e sprays nasais. Voltei a administrar gotinhas e bolinhas na rotina do Arthur, esta semana começo o mesmo com a Amanda. Se os sintomas diminuírem, vou de "só sei que foi assim". Vamos acompanhar. Iniciei essa conversa no Facebook e vários amigos comentaram as benesses da homeopatia em suas vidas e na de seus filhos, outros associaram o efeito placebo à suposta ação dos medicamentos. Resta-me observar, com um pé na dúvida e outro na torcida. Encaro, basicamente, como uma tentativa de ministrar menos medicamentos invasivos e cheios de efeitos colaterais e cumulativos. 

***

Na pior das hipóteses, a homeopatia tem me valido algumas experiências interessantes. Durante a longa e detalhada consulta o paciente é o centro da conversa olho no olho e a influência dos humores e de traços da personalidade são levados em conta como componentes atuantes nas condições clínicas. Isso faz muito sentido para mim, a cética, vão vendo. E, de quebra, é mais poética. A médica homeopata da Amanda me explicou que seu medicamento é feito a partir de asas de borboletas - ah, gente, fala sério. Nada combina mais com minha pequena, não acham? ;-) É preciso acredit... oops, quer dizer. Deixa pra lá.


4 comentários:

K disse...

Posso não acreditar em muita coisa, Rita, mas tai, acredito em você!
Não deixe de me contar depois!

Anônimo disse...

Rita, também acredito que para rinite e dermatite atópica, elimine glúten e lactose.

Clara Lopez disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Clara Lopez disse...

Uma grande amiga usa homeopatia, e gosta muito, mas me contava da decepção ao ter dengue e ao mesmo tempo pneumonia, e ligar para a homeopata ela não ter considerado a hipótese da gravidade do quadro. Ao piorar, acabou ligando pra oncologista dela, que mandou-a ir imediatamente à urgência hospitalar fazer exames, porque poderia ser... dengue ou pneumonia. Ela tinha os dois. Ou seja, acho que cada uma dessas vertentes médicas precisa conhecer seus limites com clareza e trabalhar para a saúde do paciente, em primeiro lugar, e não para a prevalência de sua linha de tratamento. Minha amiga ficou triste porque quando melhorou ligou pra homeopata, relatou suas desventuras e nem assim ela fez qualquer sinal de mea culpa. Então, penso que cada um tem que ficar muito atento, como vc fez, e o que é da alopatia, correr pro alopata.
grande abraço,
vera

 
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