Fante e outros furadores de fila


Terminei a leitura de A Irmandade da Uva (Ed. José Olympio, tradução de Roberto Muggiati), primeiro livro que li do estadunidense John Fante (autor do celebrado Pergunte ao Pó). O que eu queria mesmo era ler Pergunte ao Pó. Na falta, e por preguiça de procurar em outros lugares, acabei pegando Irmandade. A tradução de Brotherhood of the Grape foi lançada no Brasil no ano passado como parte das homenagens pelos 30 anos da morte de Fante

A história de Irmandade começa quando o escritor Henry Molise recebe um telefonema do irmão. Depois de ouvir as últimas notícias sobre a mais nova crise na família, Henry se vê forçado a interromper sua rotina e viajar para tentar impedir (ou entender) o iminente divórcio dos pais. Meio a contragosto, ruma para sua pequena cidade natal, já antecipando o desconforto de desenterrar antigos conflitos. De fato, Henry logo se depara com o despeito dos irmãos, a inimizade da sogra, os dramalhões da mãe e o alcoolismo do pai. Imigrante italiano, Nick Molise, pai de Henry, é um pedreiro orgulhoso, frustrado por nenhum de seus três filhos homens ter adotado seu ofício como profissão. Aos 75 anos, passa mais tempo bêbado do que sóbrio e, entre um caso extraconjugal e outro, deixa praticamente tudo que ganha na mesa de jogo. Para Henry, a visita se transforma em chance única de revisitar sua relação com seu velho pai cuja saúde se deteriora a passos largos. 

Que o leitor não espere reconciliações emocionadas ou sons de violino; a escrita é ácida, o mundo dos Molise é barulhento. Com alguma dose de humor, Fante expõe a decadência de relações familiares construídas com frustrações e rancor. Daqui de meu lugarzinho insignificante, acho que ele erra a mão de vez em quando (confesso que cheguei a achar alguns trechinhos meio piegas), mas passa rápido. Daí, contudo, não se infira que o livro carece de momentos tocantes, mesmo ternos, ou que não há beleza nas descrições dos conflitos encarados por Henry e Nick. É bela, por exemplo, a melancolia de Nick ao passear pela cidade mostrando aos filhos os prédios que ergueu com pedras fortes, quase eternas, em contrapartida à sua frágil condição humana. 

Nenhuma passagem do livro chegou a me comover, nenhum momento me arrancou risadas. Ainda assim, li com admiração pela escrita madura uma história que se desenrola com tanta naturalidade que parece ter acontecido com aquele pessoal ali da esquina.  

Vi que o livro original foi lançado após um longo intervalo de 25 anos sem publicar nada, pouco antes de Fante ficar completamente cego por causa do diabetes. Para alguns críticos, Irmandade mostrou como ele continuava em forma mesmo sem publicar durante tanto tempo. Para mim, Irmandade não fica como livro marcante, imperdível, mas serviu como cartão de visitas à escrita solta de Fante e aguçou minha curiosidade em relação a Pergunte ao Pó, sempre referenciado como grande divisor de águas em sua carreira.

***


Fante furou a fila dos livros que atualmente habitam minha cabeceira. O quinto volume das Crônicas de Gelo e Fogo segue ali, confiante. Enquanto as cabeças vão sendo cortadas e a traição come solta sem que eu vire as páginas para conferir, vou incluindo outras leituras na categoria "ai, preciso ler isso agora". Martin pode esperar. 

Ter lido o tocante Filho de Mil Homens me fez ir correndo comprar A Desumanização, de Valter Hugo Mãe. Seria ele o próximo da lista, não fossem os comentários de quem andou lendo o novo livro de Cristovão Tezza, O Professor. Eu já andava cheia de vontade de conferir o livro do autor do emocionante O Filho Eterno (se você ainda não leu O Filho Eterno, pare o que estiver fazendo e leia, aliás) e resolvi não esperar mais. Espero ler O Professor, Desumanização e ainda um livro de contos do Tchekov, Treze Contos, antes da chegada pelo correio de meu esperado exemplar de Half of a Yellow Sun, da nigeriana Chimamanda Adichie - livro que virou objeto de desejo depois de ler comentários de leitores pela rede. A qualquer momento, porém, largo tudo para ler o novo livro da jornalista Eliane Brum, Meus Desacontecimentos, assim que conseguir comprá-lo. Ou furo a fila outra vez com aquele livro imperdível que vocês vão me indicar, quem sabe.

0 comentários:

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }