Bordado de luz


Quando os dias parecem estar tão cheios que não consigo dar aquele telefonema que já era urgente há três semanas; e nem consigo me sentar para aquela conversa com a amiga que tá no outro lado do mundo, porque ligar o skype parece uma tarefa demorada demais. Quando as horas estão tão absolutamente preenchidas que me sinto uma heroína com cabelo ao vento e ar triunfante porque, ei, consegui buscar o remédio na farmácia. Quando a leitura, que está ótima, se arrasta porque não quero, não quero, não quero ler aquilo com pressa, quero ler devagar, e devagar não tem pra hoje. Quando a amiga interrompe meu quase galope no estacionamento para oferecer um carinho e fazer um elogio, e eu agradeço apressada, porque, veja bem, estava atrasada - como se estar atrasada esses dias não fosse tão banal quanto as nuvens desse outono que insiste em se despedir cinzento, e como se aquele carinho não fosse tão precioso. Quando leio correndo aquele texto ótimo, mas não consigo comentar porque, no exato segundo em que acabo o texto, meus pensamentos me atropelam. Quando compro o pão correndo. Quando me dou conta de que, depois que as crianças dormem, as palavras se misturam em minha cabeça com os acontecimentos do dia e se embaralham de tal maneira que se parecem novelos de mim, eu emaranhada, misturada - e minha escrita são riscos de criança. Quando no silêncio da casa tarde só o piano paciente me entende, ele que contém os barulhos certos e todo o tempo do mundo. Quando ele não está. Quando as mensagens na caixa de email se acumulam para um dia, quem sabe.

Quando minha filha de seis anos se sente desconfortável na escola e não estou lá para ser abraço e voz.

(Quando meu bloguito completou seu quinto aniversário no mais retraído silêncio, porque havia peito inquieto. #ontem)

Quando olho ao redor e vejo os muitos pontos de luz que permeiam meus dias, eu me lembro de quando eu era criança e algo ruim ameaçava meus devaneios. Eu fazia de minha cama meu refúgio e tentava dormir, numa tentativa (eficiente) de fazer as horas mais duras passarem mais rápido. Eu dormia tardes inteiras. Mas hoje não. Hoje sigo aos saltos de ponto de luz em ponto de luz. Tenho agulhas mágicas e vou fazer um bordado bem lindo. Ou quem sabe um cachecol longo como as conversas das crianças - elas que iluminam tanto. É isso. Quando o mundo parece muito, tento bordar.

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Mesmo que eu tenha dedicado menos tempo a ele nos últimos meses, este blog ainda é uma sala de que gosto muito. Não é luxuosa, com tapete fino e vasos lustrosos. É uma sala até bem modesta e que, de vez em quando, junta um pouco de pó. Mas o pó dá pra limpar - e gosto tanto da vista que se abriu nesses cinco anos. 

Obrigada a vocês todos pela companhia. Sempre.

4 comentários:

Angela disse...

Obrigada voce. Parabens e um grande beijo!

Fabiana disse...

Obrigada você por fazer o milagre de inventar tempo para nos escrever.

Anônimo disse...

Obrigada você Rita. Que em meio a tanto ufaaaa...ainda consegue nos presentear com tão boa energia feito blog! Grande beijo!
Hilda

Luciana Nepomuceno disse...

Sou eu a amiga do outro lado do mundo, né? diz que sim.

Sou essa que lê o post com atraso, que celebra com atraso, mas que tem sempre o coração cheio de afeto e um riso ou outro pra partilhar, pode ser?

 
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