A voz de quem dá voz


Umas das primeiras matérias que li da Eliane Brum foi a entrevista com a psicóloga Debora Noal, publicada na coluna que Eliane mantinha no site da Época (se ainda não leram, recomendo fortemente que o façam). Foi certamente essa a matéria que me fez prestar atenção nela. Acostumei-me a ler seus artigos e, mesmo quando não concordo com um ou outro ponto em seus argumentos, normalmente encontro um texto que me parece muito honesto, fruto de investigações e reflexões feitas por alguém que sabe ouvir e, acima de tudo, sabe olhar e ver o outro. Para nossa sorte, seus textos são campeões de compartilhamentos nas redes sociais.

Ainda não conheço seus livros de ficção, mas sei que as colunas da Eliane muitas vezes compõem um oásis de racionalidade na loucura espantosa de alguns portais e matérias que de jornalísticas só têm o rótulo. Eliane escolhe bem seus temas e a eles se dedica com zelo, muitas vezes iluminando pontos que outros nem percebem (ou não querem perceber).

Seu lançamento mais recente é um livro autobiográfico que ela descreve como "a história da minha vida com as palavras". Quando fui buscar meu exemplar de Meus Desacontecimentos (Ed. Leya), esperava um livro mais, digamos, robusto. Ao invés disso, segurei quase um livreto, pequeno, fininho. Acho que fantasiei que, tendo sido escrito por alguém que faz tão bom uso das palavras, sua história com elas necessariamente ocuparia muitas páginas. Já a caminho do estacionamento, li a contracapa. "De quantos nascimentos e mortes se constitui uma vida? De quantos partos uma pessoa precisa para nascer? Com quantas palavras se faz um corpo?" E fui embora namorando a capa linda.

Quando leio um livro escrito por alguém cuja voz conheço, ouço a voz da pessoa lendo o livro para mim. Foi assim, como quem assiste a uma entrevista no youtube, que li/ouvi Eliane me contar o lado de sua vida que escolheu nos revelar. E, olha, gostei tanto. A priori, não se trata exatamente de uma história extraordinária. Todos temos nossos mortos, nossos medos, nossos parentes esquisitos ou que consideramos especiais; muito de nós tivemos algum grau de conflito com nossos pais em algum momento de nossa adolescência, e os que tivemos a sorte de crescer dentro de uma família ouvimos casos dos antigos, fantasiamos nossos antepassados e suas aventuras em tempos mais difíceis do que os nossos. A diferença está, como não poderia deixar de ser, no olhar e no encanto diante do poder da palavra. 

Para Eliane, a palavra é a luz com a qual ela ilumina os mundos. Sem ela, é tudo escuridão. E eu bem que poderia ter lido outras tantas páginas com mais pedaços dessa história, mas vi que ela assinalou muito bem nas 142 páginas do livro o poder que o uso da palavra escrita exerce em sua vida. Aquele livro fininho que busquei na livraria ficou mais e mais robusto à medida que o li. E o extraordinário foi saltando de dentro das simplicidades. É verdade que eu quis mais: fala mais daquele professor; fala mais do pai; fala mais dos escritos da infância. Talvez seja o hábito de terminar as colunas dela desejando que ela escreva mais, ou escreva outra, sobre aquele outro assunto.

Como os livros foram portais para a criança Eliane, Meus Desacontecimentos é uma via de acesso à voz da mulher por trás das matérias que me acostumei a ler na internet. Nelas, Eliane normalmente dá voz ao outro. Em seu livro, é ela que se mostra,  em uma narrativa com muitos pontos de luz. Ao final, brindei: Ave, Palavra.  

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