O Filho de Mil Homens


[Contém possíveis spoilers.]

***

Uma imagem se repete nas descrições que Valter Hugo Mãe criou para alguns de seus personagens em O Filho de Mil Homens (Ed. Cosac Naify): a da pessoa que despenca para dentro de si mesma, numa queda sem fim pelos abismos das ausências e da incompletude de cada um. Como se em dado momento essas pessoas percebessem o tamanho do vazio e do silêncio que podem nos engolir enquanto seguimos distraídos pelas regras do mundo. Cai o homem de 40 anos que subitamente se dá conta de que quer ser pai; cai Isaura em sua angústia de garota "enjeitada"; e ainda que a imagem não esteja carimbada textualmente em outros capítulos, cai a anã tratada com piedade apenas enquanto reduzida à sua condição de diferente (mas enxotada quando descobrem que está grávida); e caem Antonino e sua mãe, traumatizados pelas horrores do preconceito em torno da orientação sexual do rapaz. Em volta desses personagens outros circulam, formando uma rede bem costurada por uma escrita permeada de outras tantas belas imagens.

A história que Hugo Mãe nos conta me chegou como uma espécie de bússola para evitar a queda: uma história de redescoberta, de busca da completude pelo caminho do amor. O amor por um filho, que pode não sair de nossa carne; por um companheiro, que pode nos chegar por caminhos inesperados; por uma família, que pode ter qualquer composição, desde que se queira a transformação que esse amor permite. E pode ser também uma história de como olhamos para o papel da morte em nossas vidas. Para mim, foi um pouco de cada, uma pequena celebração das muitas metamorfoses que podemos encarar ao longo de nossas caminhadas - ou de nossas quedas.

A história em si já é tocante o suficiente para fazer desse livro uma pequena joia; mas para além do que se conta está uma prosa bonita, com descrições inspiradoras. Entre as minhas favoritas está a relação do garoto Camilo e seu avô com a casa onde moram. De tanto ouvir o avô falar da esposa morta, Camilo acredita que a avó que não chegou a conhecer habita, em algum nível invisível, as estruturas da casa. Os ruídos de portas e janelas se misturam aos relatos do avô, é tudo voz e presença da falecida. A avó imortalizada pelo amor do avô é uma marca importante no crescimento de Camilo, e um dos presentes para os leitores do livro.

O Filho de Mil Homens já foi tão celebrado que nem preciso recomendar. Mas, barulhenta, endosso o que disse Silviano Santiago na orelha da edição brasileira que li, porque acho que resume muito bem o espírito da obra: 

No livro, nutre-se carinho por tudo sobre o qual se soube construir a felicidade. Até pela dor.

Foi meu primeiro livro de Hugo Mãe. Dificilmente será o último.


1 comentários:

Clara Lopez disse...

Amo esse livro dele, mais que os outros (nesse momento, leio A desumanização, mas não consegui passar pel'O apocalipse dos trabalhadores), comentei aqui: http://linhadepesca.blogspot.com.br/2013/06/o-filho-de-mil-homens.html

beijo,
clara

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }